Na próxima segunda-feira, na TV Universitária, teremos, no Programa "Grandes Temas", um debate sobre violência contra a mulher. Para quem quiser se aprofundar um pouco mais sobre a temática sugiro a leitura do artigo abaixo, de autoria da antropóloga Alba Zaluar. O texto foi publicado no número 71 da Revista Brasileira de Ciências Sociais.
Agressão física e gênero na cidade do Rio de Janeiro
Alba Zaluar
Em 2005-2006, o Nupevi - Núcleo de Pesquisa das Violências realizou um inquérito domiciliar de vitimização cujo universo foi a população de 15 anos e mais na cidade do Rio de Janeiro. Foram aplicados 3.435 questionários aleatoriamente em 200 setores censitários, 20 domicílios em cada setor e uma pessoa de 15 anos ou mais em cada domicílio, ou seja, a amostra foi aleatória em três estágios. Em 2007, repetiu-se o mesmo instrumento em favelas da cidade, contando 660 pessoas entrevistadas. Nas duas, procurou-se manter uma fração de amostragem de aproximadamente 1/1500.
A pesquisa de vitimização permite conhecer a freqüência, a natureza e as circunstâncias de crimes e agressões que vitimam pessoas, pois nem sempre são registrados na polícia por diferentes razões. Portanto, esse tipo de estudo é fundamental para aferir o problema da cifra oculta da criminalidade, ou seja, a subestimação do risco. Ao mesmo tempo, permite analisar os perfis das vítimas e de seus agressores, o relacionamento entre eles e as circunstâncias nas quais os crimes ocorreram. Por fim, recolhem-se dados sistemáticos sobre a experiência das vítimas com o sistema policial e de atendimento hospitalar de emergência, assim como as diversas medidas tomadas pelas pessoas para se precaver dos delitos ou reagir a eles. É também instrumento fundamental para se entender por que as pessoas procuram ou não a polícia em face de cada um dos crimes sofridos por elas. A partir dos seus bancos de dados é possível descobrir padrões passíveis de novas explicações e encontrar soluções aplicáveis em políticas públicas.
Neste texto, apresento apenas os dados sobre as agressões físicas sofridas por pessoas de 15 anos e mais nos doze meses anteriores ao momento da pesquisa, assim como aquelas sofridas na vida toda até o momento da pesquisa. Isto porque a agressão física tem um padrão muito peculiar, entre os crimes averiguados, visto que obedece a motivações e circunstâncias específicas, muito mais relacionadas com as interações e emoções entre as pessoas envolvidas do que com a oportunidade, muito mais relacionadas com o poder e o reconhecimento simbólico para o agressor do que com os ganhos materiais obtidos no furto e no roubo. Por isso, oferece argumentos importantes para debater a teoria da escolha racional na aferição e na compreensão da criminalidade. Serve também para discutir a necessidade de se usar tão-somente a teoria da família patriarcal como explicação de tais sentimentos e relações que propiciariam principalmente agressões contra as mulheres.
No entanto, é preciso lembrar que o registro, mesmo que realizado por questionários aplicados nos locais de residência das vítimas, com todos os cuidados sobre a confidencialidade e a independência de quem o faz, livre de pressões de outros moradores do mesmo local, depende da percepção que a vítima tem do que seja agressão. Simião aponta para essa dimensão tão importante quando da interpretação seja de registros policiais, seja de registros obtidos em pesquisa de campo por um instrumento:
O aumento do número de denúncias deve ser analisado, assim, dentro do processo de construção de uma narrativa de gênero que altera a forma como a corporalidade é vivida em grande parte do país. Gestos e atitudes em relação ao corpo, usualmente tidos como naturais, tornam-se atitudes de violência [...] (Simião, 2006).
A primeira pesquisa mostrou que a agressão física tem percentual baixo na cidade do Rio de Janeiro, provavelmente mais subestimado pelas vítimas do que o roubo e o furto, devido às dificuldades em falar do que teria que ser reconhecido como agressão. Nos últimos doze meses, 2% de moradores da cidade com 15 anos e mais disseram que foram agredidos nos últimos doze meses, e 8,9% na vida toda. As mulheres foram mais agredidas do que os homens nos últimos doze meses - 2,6% para elas e 1,2% para eles -, assim como na vida toda - 9,4% para elas e 8% para eles. Na pesquisa feita apenas nas favelas em 2007, as proporções são três vezes maior nos últimos doze meses (7,3%) e quase o dobro da cidade quando se considera as agressões na vida toda (13,8%). Isto demonstra que essa manifestação da violência, como no caso dos assassinatos, é mais comum nas favelas cariocas do que na cidade.
Leia o artigo completo aqui.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
A disputa pela direção do CCHLA
Concentrados na eleição para a Reitoria da UFRN, não poucos dentre os professores do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) estão se esquecendo do fato de que, em pouco tempo, teremos também que escolher a nova direção de Centro. O Professor Márcio Valença, terminando seu segundo mandato, não poderá mais concorrer. Assim sendo, teremos um quadro bem diferente daquele da eleição passada.
Quem serão os candidatos? Bom, há mais especulações do que posições definidas, prá variar. Mas, vamos nos arriscar a pintar um quadro com base nelas.
Pelo que se comenta nos corredores, estão postas duas candidaturas. A primeira seria a da Professora Ceiça Fraga, do Departamento de História. A segunda candidatura, já em processo de articulação nos bastidores, deverá ser a do Professor João Emanuel, pertencente aos quadros do Departamento de Ciências Sociais e atual Pró-Reitor de Planejamento.
E quem conta com o quê nessa corrida? Dizem os entendidos na geografia política do centro, e eu os escuto com atenção, pois, há oito anos por aqui ainda não consigo ler muito claramente os sinais nesta seara, que a Professora Ceiça conta com o apoio dos funcionários e dos estudantes. Já o Professor João Emanuel contaria com o apoio de professores de diversos departamentos. Pode ser que apareça um terceiro nome na disputa, mas, dizem-me as mesmas fontes, essa é uma possibilidade pouco provável.
O fato é que os dois nomes têm experiência política e sabem jogar bem. Têm posições distintas, mas escutam as pessoas e não têm pendores autoritários. Em se confirmando essas candidaturas, teremos, mesmo que simbolicamente, o revival de disputas travadas entre correntes do movimento estudantil no início da dédada de 1980.
Então, está aí o quadro. Dado interessante: os dois professores, embora se confrontem no centro, estão juntos no apoio à candidatura da Professora Ângela à Reitoria da UFRN.
Quem serão os candidatos? Bom, há mais especulações do que posições definidas, prá variar. Mas, vamos nos arriscar a pintar um quadro com base nelas.
Pelo que se comenta nos corredores, estão postas duas candidaturas. A primeira seria a da Professora Ceiça Fraga, do Departamento de História. A segunda candidatura, já em processo de articulação nos bastidores, deverá ser a do Professor João Emanuel, pertencente aos quadros do Departamento de Ciências Sociais e atual Pró-Reitor de Planejamento.
E quem conta com o quê nessa corrida? Dizem os entendidos na geografia política do centro, e eu os escuto com atenção, pois, há oito anos por aqui ainda não consigo ler muito claramente os sinais nesta seara, que a Professora Ceiça conta com o apoio dos funcionários e dos estudantes. Já o Professor João Emanuel contaria com o apoio de professores de diversos departamentos. Pode ser que apareça um terceiro nome na disputa, mas, dizem-me as mesmas fontes, essa é uma possibilidade pouco provável.
O fato é que os dois nomes têm experiência política e sabem jogar bem. Têm posições distintas, mas escutam as pessoas e não têm pendores autoritários. Em se confirmando essas candidaturas, teremos, mesmo que simbolicamente, o revival de disputas travadas entre correntes do movimento estudantil no início da dédada de 1980.
Então, está aí o quadro. Dado interessante: os dois professores, embora se confrontem no centro, estão juntos no apoio à candidatura da Professora Ângela à Reitoria da UFRN.
Ainda sobre a TRIBUNA DO NORTE
Abaixo comentei sobre artigo publicado na edição de hoje do jornal Tribuna do Norte. Quero chamar a sua atenção também para a matéria de capa do jornal. Todos quantos se preocupam com a segurança pública no Rio Grande do Norte devem ler a reportagem. Aproveito para parabenizar a Polícia Civil pelo competente trabalho de investigação realizado. É esse tipo de ação policial que a cidadania espera que se torne rotina neste recanto do país.
Nei Leandro de Castro e o nosso racismo cotidiano nada cordial
Na sua coluna publicada na edição de hoje do jornal TRIBUNA DO NORTE, o escritor Nei Leandro de Castro, em um texto intitulado "Zé Alencar e outras mazelas", aponta, com coragem e sensibilidade, a crueza do nosso racismo cotidiano. Confira abaixo:
"Há cerca de duas semanas, presenciei no Buongustaio uma cena que me repugnou. Na mesa ao lado da minha sentaram-se duas mulheres - uma delas poderia ser considerada "de cor" por um preconceito estúpido que ainda prevalece nessa terra de magos racistas. Os garçons fingiam não ouvir nada que viesse daquela mesa. Testavam a paciência das clientes, como se dissessem: "Caima fora!". Alonguei o tempo do meu almoço só para testemunhar o mau serviço, a discriminação. As duas mulheres, muito pacientes, foram atendidas no dobro do tempo usual, sofrendo a indiferença e o repúdio dos garçons e do maitre. Saí do Buongustaio com uma convicção: jamais voltarei a ocupa uma de suas mesas. As pessoas que condema a estupidez do racismo deveriam agir da mesma forma".
"Há cerca de duas semanas, presenciei no Buongustaio uma cena que me repugnou. Na mesa ao lado da minha sentaram-se duas mulheres - uma delas poderia ser considerada "de cor" por um preconceito estúpido que ainda prevalece nessa terra de magos racistas. Os garçons fingiam não ouvir nada que viesse daquela mesa. Testavam a paciência das clientes, como se dissessem: "Caima fora!". Alonguei o tempo do meu almoço só para testemunhar o mau serviço, a discriminação. As duas mulheres, muito pacientes, foram atendidas no dobro do tempo usual, sofrendo a indiferença e o repúdio dos garçons e do maitre. Saí do Buongustaio com uma convicção: jamais voltarei a ocupa uma de suas mesas. As pessoas que condema a estupidez do racismo deveriam agir da mesma forma".
Assino embaixo! Eu que já fui tantas vezes a esse restaurante, de agora em diante, por mim, suas massas apodrecem.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
A epistemologia do humor segundo Cyntia Hamlim
A professora Cyntia Hamlim, da UFPE, é uma das pessoas mais criativas da sociologia brasileira da atualidade. Escreve bem, constrói sínteses elegantes e produz inovações. Vale a pena, portanto, acompanhar o que ela publica. Além dos artigos em periódicos, você pode ter acesso às suas elaborações, como diriam os meus amigos de Apodi, "assim que saídas do forno". Pois ela pilota, junto com o Jônatas Ferreira, o sempre ótimo blog "Que Cazzo é esse?" e neste endereço você encontra as suas formulações ainda em processo de construção.
Bueno, deixemos de introdutórios e partamos para os finalmentes. Então, coloco aí abaixo um interessante texto da professora. Confira!
Por uma Epistemologia do Humor
Cyntia Hamlim
Desde a antiguidade clássica tem-se refletido sobre a natureza do humor e do riso como fenômenos que possibilitam algum tipo de compreensão acerca do mundo social. Filósofos, antropólogos e psicólogos têm produzido uma literatura relativamente extensa sobre o tema que, no entanto, recebeu pouca atenção sistemática por parte de sociólogos. O tema foi solenemente ignorado pelos chamados “pais fundadores” da sociologia e, ainda hoje, percebe-se uma lacuna significativa na produção sociológica, especialmente teórica, do humor.
Embora este não seja necessariamente o caso em relação ao riso, que pode ocorrer por razões estritamente psicológicas ou mesmo neurológicas, o humor é uma ação social cujo significado só pode ser compreendido a partir de uma estrutura social. O humor é relativo a práticas e valores de um grupo, sendo muitas vezes intraduzível e incompreensível sem a referência a contextos de significado específicos. Foi com base neste pressuposto que a antropóloga americana Donna Goldstein, em seu livro Laughter out of Place: Race, Class, Violence and Sexuality in a Rio Shantytown (University of California Press, 2003), dedicou-se a reconstruir os contextos de significado de piadas que, para ela, como estrangeira, não tinham graça nenhuma, a fim de compreender o significado de fenômenos como raça, classe, violência e sexualidade numa favela carioca. O que ela compreendeu como ninguém foi que, em um sentido importante, piadas são como pequenos ensaios antropológicos que possibilitam a revisão e a relativização das categorias de uma cultura ou sub-cultura ao confrontá-las com as de outra. Nas palavras de Henk Driessen (citado em Critchley, Simon. On Humour. Londres e Nova York, 2006: 65):
A antropologia compartilha com o humor a estratégia básica da “desfamiliarização”: o senso comum é rompido, o inesperado é evocado, objetos familiares são situados em contextos não-familiares ou mesmo chocantes a fim de tornar a audiência ou o leitor consciente de seus próprios pressupostos culturais.
Assim como a antropologia, a sociologia relativiza nossas rotinas da vida cotidiana ao submetê-las a um exame minucioso e também compartilha algo com o humor. Todas as coisas que consideramos dadas, nossas idéias, emoções e ações mais corriqueiras são dissecadas, analisadas e interpretadas. Na imagem memorável de Peter Berger, a sociologia nos confronta com uma visão precária da realidade e os sociólogos são como os bobos da corte que, de acordo com a tradição, seguravam um espelho e mostravam às pessoas aquilo que elas realmente eram, sem justificativas ou ideologias pomposas (Zijderveld, Anton. The Sociology of Humour and Laughter. Current Sociology, Vol 31, no. 3, pp. 1-103, 1983).
Diante disto, é curioso que a sociologia do humor tenha sido relativamente negligenciada. Ao se questionar sobre as possíveis causas dessa negligência, Michael Mulkay (On Humor: Its Nature and its Place in Modern Society. Nova York: Basil Blackwell, 1988) sugere que muitos sociólogos confundem o “não-sério” com o “trivial” e, portanto, não digno de investigação. Ao fazê-lo, desconsideram que é justamente a separação simbólica entre humor e a ação “séria” que possibilita que os atores sociais por vezes se utilizem dele para propósitos bastante sérios e que torna o humor uma área essencial de investigação sociológica.
Ao ser definido como exterior ao discurso sério, o humor permite que os atores violem simbolicamente as normas que definem o que é certo, bom, justo, belo (Koller, Michael. Humor and Society: Explorations in the sociology of humor. Houston: Cap and Gown Press, 1988). Não é por acaso que grupos localizados nas “margens” de uma sociedade constituem, com freqüência, o alvo predileto do humor, como é o caso de negros, gays, mulheres, grupos étnicos minoritários etc. De fato, pode-se argumentar que a maior parte do humor produzido é deste tipo. Trata-se, para muitos autores, baseados em Thomas Hobbes, do riso do dominador sobre o dominado, um riso que reafirma sutilmente a hierarquia social ou a superioridade dos próprios valores de uma forma socialmente aceitável. Pode, em casos como estes, ser considerado um sintoma da repressão social cujo efeito visível é, para tomar emprestada uma expressão de Freud, o “retorno do recalcado”.
Além disso, é bem conhecido o uso do humor como forma de expor a relatividade ou mesmo o absurdo das práticas sociais, dos valores e dos esquemas cognitivos aceitos por uma comunidade. Em sua introdução a As Palavras e as Coisas, por exemplo, Michel Foucault afirma que aquele livro nasceu surgiu do riso provocado por um texto de Jorge Luiz Borges que cita
‘uma certa enciclopédia chinesa’ onde está escrito que ‘os animais se dividem em a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães embalsamados, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo, l) et cetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que nem de longe parecem moscas’.
Ao rir de si próprios, especialmente por meio de um humor autodepreciativo, diversos grupos revelam uma capacidade de auto-reflexão por meio da qual determinados valores e práticas são colocados em questão.
Também é bem conhecido o uso de determinados tipos de humor, como a sátira, por exemplo, em ataques mordazes às estruturas de poder vigentes, numa espécie de desafio da autoridade. Não parece por acaso que acaso que regimes autoritários tenham gerado uma profusão de humoristas e de piadas anti-governo, como foi o caso da ditadura militar no Brasil e do comunismo soviético. Um caso em questão refere-se a um tipo de piada conhecido como “perguntas à rádio Yerevan”, endereçadas a uma estação de rádio imaginária na Armênia. As piadas consistiam num ataque frontal à ideologia comunista (Citado em Berger, Peter. Redeeming Laughter: The comic Dimension of Human Experience. Berlin e Nova York: Walter de Gruyter, 1997: 53):
Pergunta: O que é o capitalismo?
Resposta: A exploração do homem pelo homem.
Pergunta: O que é o comunismo?
Resposta: O inverso.
Violação simbólica e potencial crítico, por um lado; reprodução social, por outro. Eis o caráter paradoxal do humor como algo que pode afirmar negando, reproduzir ao mesmo tempo em que coloca a nu as estruturas de dominação, subverter ao transformar a ação séria em objeto do riso. Seja como forma de crítica social, seja como reforço de normas e padrões sociais estabelecidos, o estudo do humor pode se revelar como uma ferramenta importante para a compreensão de mecanismos sociais relativos à criação, à reprodução ou à mudança em sistemas de classificação social, políticas de identidade, subculturas de grupo, formas de dominação social e um grande número de temas caros à sociologia contemporânea.
Mas o que isso tem que ver com metodologia? Outro dia explico, que agora eu tenho outras coisas para fazer...
Cynthia Hamlin é Professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco.
Bueno, deixemos de introdutórios e partamos para os finalmentes. Então, coloco aí abaixo um interessante texto da professora. Confira!
Por uma Epistemologia do Humor
Cyntia Hamlim
Desde a antiguidade clássica tem-se refletido sobre a natureza do humor e do riso como fenômenos que possibilitam algum tipo de compreensão acerca do mundo social. Filósofos, antropólogos e psicólogos têm produzido uma literatura relativamente extensa sobre o tema que, no entanto, recebeu pouca atenção sistemática por parte de sociólogos. O tema foi solenemente ignorado pelos chamados “pais fundadores” da sociologia e, ainda hoje, percebe-se uma lacuna significativa na produção sociológica, especialmente teórica, do humor.
Embora este não seja necessariamente o caso em relação ao riso, que pode ocorrer por razões estritamente psicológicas ou mesmo neurológicas, o humor é uma ação social cujo significado só pode ser compreendido a partir de uma estrutura social. O humor é relativo a práticas e valores de um grupo, sendo muitas vezes intraduzível e incompreensível sem a referência a contextos de significado específicos. Foi com base neste pressuposto que a antropóloga americana Donna Goldstein, em seu livro Laughter out of Place: Race, Class, Violence and Sexuality in a Rio Shantytown (University of California Press, 2003), dedicou-se a reconstruir os contextos de significado de piadas que, para ela, como estrangeira, não tinham graça nenhuma, a fim de compreender o significado de fenômenos como raça, classe, violência e sexualidade numa favela carioca. O que ela compreendeu como ninguém foi que, em um sentido importante, piadas são como pequenos ensaios antropológicos que possibilitam a revisão e a relativização das categorias de uma cultura ou sub-cultura ao confrontá-las com as de outra. Nas palavras de Henk Driessen (citado em Critchley, Simon. On Humour. Londres e Nova York, 2006: 65):
A antropologia compartilha com o humor a estratégia básica da “desfamiliarização”: o senso comum é rompido, o inesperado é evocado, objetos familiares são situados em contextos não-familiares ou mesmo chocantes a fim de tornar a audiência ou o leitor consciente de seus próprios pressupostos culturais.
Assim como a antropologia, a sociologia relativiza nossas rotinas da vida cotidiana ao submetê-las a um exame minucioso e também compartilha algo com o humor. Todas as coisas que consideramos dadas, nossas idéias, emoções e ações mais corriqueiras são dissecadas, analisadas e interpretadas. Na imagem memorável de Peter Berger, a sociologia nos confronta com uma visão precária da realidade e os sociólogos são como os bobos da corte que, de acordo com a tradição, seguravam um espelho e mostravam às pessoas aquilo que elas realmente eram, sem justificativas ou ideologias pomposas (Zijderveld, Anton. The Sociology of Humour and Laughter. Current Sociology, Vol 31, no. 3, pp. 1-103, 1983).
Diante disto, é curioso que a sociologia do humor tenha sido relativamente negligenciada. Ao se questionar sobre as possíveis causas dessa negligência, Michael Mulkay (On Humor: Its Nature and its Place in Modern Society. Nova York: Basil Blackwell, 1988) sugere que muitos sociólogos confundem o “não-sério” com o “trivial” e, portanto, não digno de investigação. Ao fazê-lo, desconsideram que é justamente a separação simbólica entre humor e a ação “séria” que possibilita que os atores sociais por vezes se utilizem dele para propósitos bastante sérios e que torna o humor uma área essencial de investigação sociológica.
Ao ser definido como exterior ao discurso sério, o humor permite que os atores violem simbolicamente as normas que definem o que é certo, bom, justo, belo (Koller, Michael. Humor and Society: Explorations in the sociology of humor. Houston: Cap and Gown Press, 1988). Não é por acaso que grupos localizados nas “margens” de uma sociedade constituem, com freqüência, o alvo predileto do humor, como é o caso de negros, gays, mulheres, grupos étnicos minoritários etc. De fato, pode-se argumentar que a maior parte do humor produzido é deste tipo. Trata-se, para muitos autores, baseados em Thomas Hobbes, do riso do dominador sobre o dominado, um riso que reafirma sutilmente a hierarquia social ou a superioridade dos próprios valores de uma forma socialmente aceitável. Pode, em casos como estes, ser considerado um sintoma da repressão social cujo efeito visível é, para tomar emprestada uma expressão de Freud, o “retorno do recalcado”.
Além disso, é bem conhecido o uso do humor como forma de expor a relatividade ou mesmo o absurdo das práticas sociais, dos valores e dos esquemas cognitivos aceitos por uma comunidade. Em sua introdução a As Palavras e as Coisas, por exemplo, Michel Foucault afirma que aquele livro nasceu surgiu do riso provocado por um texto de Jorge Luiz Borges que cita
‘uma certa enciclopédia chinesa’ onde está escrito que ‘os animais se dividem em a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães embalsamados, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo, l) et cetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que nem de longe parecem moscas’.
Ao rir de si próprios, especialmente por meio de um humor autodepreciativo, diversos grupos revelam uma capacidade de auto-reflexão por meio da qual determinados valores e práticas são colocados em questão.
Também é bem conhecido o uso de determinados tipos de humor, como a sátira, por exemplo, em ataques mordazes às estruturas de poder vigentes, numa espécie de desafio da autoridade. Não parece por acaso que acaso que regimes autoritários tenham gerado uma profusão de humoristas e de piadas anti-governo, como foi o caso da ditadura militar no Brasil e do comunismo soviético. Um caso em questão refere-se a um tipo de piada conhecido como “perguntas à rádio Yerevan”, endereçadas a uma estação de rádio imaginária na Armênia. As piadas consistiam num ataque frontal à ideologia comunista (Citado em Berger, Peter. Redeeming Laughter: The comic Dimension of Human Experience. Berlin e Nova York: Walter de Gruyter, 1997: 53):
Pergunta: O que é o capitalismo?
Resposta: A exploração do homem pelo homem.
Pergunta: O que é o comunismo?
Resposta: O inverso.
Violação simbólica e potencial crítico, por um lado; reprodução social, por outro. Eis o caráter paradoxal do humor como algo que pode afirmar negando, reproduzir ao mesmo tempo em que coloca a nu as estruturas de dominação, subverter ao transformar a ação séria em objeto do riso. Seja como forma de crítica social, seja como reforço de normas e padrões sociais estabelecidos, o estudo do humor pode se revelar como uma ferramenta importante para a compreensão de mecanismos sociais relativos à criação, à reprodução ou à mudança em sistemas de classificação social, políticas de identidade, subculturas de grupo, formas de dominação social e um grande número de temas caros à sociologia contemporânea.
Mas o que isso tem que ver com metodologia? Outro dia explico, que agora eu tenho outras coisas para fazer...
Cynthia Hamlin é Professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco.
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