O Presidente da Autoridade Palestina formaliza o pedido de reconhecimento do seu Estado na ONU. O assunto é muito importante para quem lida (e se preocupa com as relações internacionais).
Há controvérsias e não está dado que esse é o melhor caminho para a conquista de uma paz sustentável entre palestinos e israelenses.
É sempre bom levar em conta as diversas posições em jogo. Como a posição israelense tende a ser jogada de escanteio no mundo político dito de esquerda no Brasil, transcrevo mais abaixo um artigo de autoria do embaixador de Israel na ONU. O texto foi publicado no jornal VALOR ECONÔMICO. Confira abaixo!
A fantasia Abbas na ONU
Autor(es): Ron Prosor
Valor Econômico - 23/09/2011
No clássico de Lewis Carroll, "Alice no País das Maravilhas", a heroína cai em uma toca de coelho onde encontra um mundo confuso de fantasias. Se estivesse escrevendo essa mesma história hoje, Carroll poderia ter colocado Alice na 66 ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, onde o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, busca o reconhecimento da ONU para um Estado Palestino. Se Alice ficou perplexa com o Chapeleiro Louco ou a Rainha de Copas, seria interessante ver a reação da jovem diante da ação de um presidente, cujo mandato expirou há muito tempo, pedindo a criação de um Estado em um território que ele mesmo tem medo de visitar certas áreas. A confusão da personagem seria agravada ao descobrir que muitos dos países que fazem parte da Organização estão felizes em ceder a essa fantasia.
A proposta da Autoridade Palestina tem grande possibilidade de passar na Assembleia Geral, onde a dinâmica da votação efetivamente garante que quase todos os caprichos dos palestinos sejam validados. A verdade é que o chefe da Autoridade Palestina não possui, absolutamente, nenhuma autoridade na Faixa de Gaza. Abbas não pôs os pés em Gaza desde que a organização terrorista Hamas realizou um sangrento golpe e tomou o controle da área em 2007. Fazendo um paralelo, seria como se o prefeito eleito da cidade de Nova York fosse incapaz de andar pelas ruas do Brooklyn.
As conversas inevitáveis com Israel não serão tão fáceis e implicarão em um trabalho árduo. Apenas no mundo real, com o diálogo direto permeado de verdades difíceis e compromissos sérios, israelenses e palestinos podem tecer uma paz viável, segura e duradoura.
Cada Estado reconhecido pelas Nações Unidas tem a obrigação de estar disposto e apto a exercer sua autoridade sobre seu próprio território. Abbas está disposto a exercer essa autoridade e é capaz de controlar o Hamas? Talvez os cidadãos do sul de Israel, semipermanentes residentes de abrigos antibomba, possam oferecer uma resposta para essa questão. A chuva contínua de foguetes, morteiros e mísseis do Hamas contra casas, hospitais e escolas israelenses nos fornece uma vívida ilustração de que a Autoridade Palestina não quer e é incapaz de sustentar esse requisito básico.
Ao apoiar essa iniciativa, muitos na comunidade internacional parecem dispostos a varrer para debaixo do tapete as questões sobre o terrorismo palestino, o incitamento e a falta de uma governança coerente. Estão apenas cedendo a uma marcha da insensatez. A Assembleia Geral não pode criar um Estado Palestino pois uma ação unilateral não seria apenas maléfica para a paz, mas para a região e, acima de tudo, para o avanço nas aspirações dos palestinos de um Estado genuíno.
Muitos líderes palestinos, incluindo o primeiro-ministro Salam Fayyad, entendem que, como resultado direto de uma forte cooperação econômica e de segurança entre israelenses e palestinos, a economia palestina experimentou um crescimento de 10% em 2010. A única região do mundo que pode ostentar esses números é a Cisjordânia. Aqueles que conseguem compreender o esforço necessário para a criação de um verdadeiro estado não desejam colocar em risco esse progresso com uma declaração prematura e fantasiosa de um estado imaginário.
O que aconteceria com a decisão favorável à criação de um Estado Palestino na Assembleia Geral da ONU?
Em primeiro lugar, isso iria alimentar uma fantasia de que compromissos alcançados nas negociações podem ser ignorados. John F. Kennedy descreveu uma vez a impossibilidade de trabalhar com aqueles que dizem "o que é meu é meu e o que é seu é negociável". A premissa básica do apelo palestino nas Nações Unidas é a seguinte: Nos dê tudo, sem negociação, e depois vamos negociar o resto.
Os verdadeiros amigos dos palestinos na comunidade internacional devem incentivá-los a retomar imediatamente as conversações diretas com Israel. Ninguém, além de israelenses e palestinos, por conta própria, na mesa de negociações, pode enfrentar os grandes desafios que devem ser abordados para que a paz seja alcançada. Essa ação unilateral faz o oposto, permitindo que a Autoridade Palestina contorne o caminho das negociações, enquanto viola todos os acordos bilaterais entre líderes palestinos e israelenses desde os acordos realizados em Oslo.
Além disso, incentiva comportamentos imprudentes em uma região já fragilizada. Aprovar essa manobra unilateral é uma receita para a instabilidade, o colapso das cooperações e, potencialmente, a violência. Aprovar resoluções na Assembleia Geral não requer concessões, não demanda liderança e também não cobra responsabilidade por parte dos palestinos. As conversas inevitáveis com Israel não serão tão fáceis e implicarão em um trabalho árduo, frustrações e muitas noites sem dormir, porém, as negociações continuam a ser única forma para conseguir avanços.
Enquanto os líderes palestinos clamam pelo reconhecimento unilateral, aqueles que apoiam essa medida podem, em breve, estar chorando por suas consequências.
A busca de um Estado virtual incide na mesma esfera de fantasia que Alice descobre no país das maravilhas, todos os coelhos brancos e arenques vermelhos. Apenas no mundo real, com o diálogo direto permeado de verdades difíceis e compromissos sérios, israelenses e palestinos podem tecer uma paz viável, segura e duradoura.
Ron Prosor é embaixador de Israel na Organização das Nações Unidas.
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sexta-feira, 23 de setembro de 2011
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Dois navios...


Símbolos de momentos políticos distintos. E dos limites da política... Leia abaixo uma opinião diferente daquela que postei mais abaixo, de autoria do jornalista Sérgio Malberg, a respeito do que está ocorrendo em Israel. Discordo um pouco do tom da escritora israelense, mas, já que tenho a oportunidade, vou praticar um cadinho de pluralismo acá.
Ataque ao Êxodo, barrado com 4.500 sobreviventes do Holocausto em 1947, mudou a opinião do mundo
Linda Grant – O Estado de S.Paulo
THE GUARDIAN
No verão de 1947, o navio quase reduzido a sucata com 4.500 sobreviventes do Holocausto a bordo, rebatizado de “Êxodo”, partiu da França com o objetivo de romper o bloqueio britânico na Palestina. Até então, os sobreviventes apodreciam em campos de refugiados desde o fim da guerra à espera de um país que os aceitasse.
Os organizadores, pertencentes ao movimento sionista, adotavam a política da imigração ilegal como uma operação de resgate humanitário e uma medida calculada para fixar de maneira politicamente arbitrária a população judia do país. Eles não esperavam aportar, mas sabiam que o barco caindo aos pedaços com sua dolorosa carga humana de refugiados denunciaria os britânicos como patrões colonialistas desalmados. O Êxodo poderia chamar-se “Fim do Império”.
Quando o navio se aproximava de Haifa, o comandante recebeu um sinal de rádio de líderes sionistas para não colocar em risco a vida dos passageiros em um confronto. O comandante polonês, porém, recusou-se a voltar. Cercados por três destróieres britânicos, tripulação e passageiros foram abordados e revidaram com qualquer arma à mão – até com uma remessa de carne enlatada. Os britânicos mataram três pessoas.
Dias mais tarde, os passageiros foram transferidos para outro navio e enviados de volta para a Alemanha, para os campos de refugiados, com manchetes fulminantes nos jornais: “Regresso ao país da morte”, dizia uma delas.
Os acontecimentos no Mediterrâneo, mostrados pelos noticiários cinematográficos de então, suscitaram enorme simpatia do público, particularmente nos EUA, onde a Grã-Bretanha era considerada o antigo regime colonial. A cobertura da imprensa foi uma catástrofe para Londres.
Para o comandante do navio, Ike Aronowitz, a decisão de Ernest Bevin de repelir o Êxodo foi um presente de Deus – “que nos enviou Ernest Bevin para criar um Estado judeu”.
Contra a imagem de um navio repleto de sobreviventes do Holocausto sendo espancados por soldados, a Grã-Bretanha teve de bolar uma complexa história, muito complicada para um público que queria um relato simples de vítimas e opressores.
Os britânicos falaram das necessidades da população árabe da Palestina. Um Estado judeu no Oriente Médio, feito contra a vontade dos habitantes nativos, não seria o final feliz para a trágica história dos judeus. Entretanto, o Êxodo foi fundamental para cimentar o respaldo, dado mais tarde, com a votação na ONU sobre a partilha da Palestina. A imagem do navio foi mais poderosa do que as advertências da chancelaria britânica ou dos apelos dos líderes árabes.
O ataque ao grupo de navios que transportava ajuda humanitária para Gaza deve ter despertado as memórias dos líderes de Israel e de seus militares. A visão dos políticos, diplomatas e das Forças Armadas tentando divulgar uma história mais complicada do que a de civis inocentes brutalmente assassinados por um ato de pirataria não impressionou o público.
Por mais que mostrem vídeos de ativistas atacando os soldados israelenses que abordavam os navios, não responderão à pergunta: o que os soldados estavam fazendo lá e por que os passageiros não deveriam se defender de quem os atacavam, exatamente como fizeram os refugiados em 1947?
Os argumentos políticos de Israel, de que a Faixa de Gaza é controlada pelo Hamas, da ameaça constante que paira sobre Israel, representada por Gaza, no sul, e pelo Hezbollah, no norte, apoiados pelo Irã, que ambiciona a bomba nuclear, caíram em ouvidos surdos.
Os argumentos de especialistas em leis marítimas, de que Israel estava em seu pleno direito de atacar o barco em águas internacionais, perdem diante da presença de peso, em outro dos barcos, do romancista sueco Henning Mankell, que arriscou sua vida para ajudar Gaza.
Os movimentos de solidariedade palestinos, até o momento, não atingiram a massa crítica da campanha contra a África do Sul do apartheid. Talvez, como o Êxodo, em 1947, os barcos de ajuda a Gaza possam atingir o ponto crítico da longa agonia do povo palestino quando a opinião pública indecisa finalmente se voltar contra Israel e todo o projeto sionista de uma pátria para os judeus.
Quando a simpatia do público é ultrajada por um ato definido, como um massacre, a solução das reivindicações rivais de árabes e judeus sobre a mesma parte do território não vêm ao caso.
Olhamos para trás, para o Êxodo, e pensamos se nossos pais e avós não deveriam ter agido de maneira menos emocional. Emoções são incontroláveis. A empatia pelos encarcerados em uma imensa prisão ao ar livre, submetidos a punições coletivas, derrotará as advertências dos especialistas. A imagem dos barcos rumando para Gaza ficará gravada na mente, quaisquer que sejam as consequências do ultraje coletivo.
TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
É AUTORA DE “AS PESSOAS COMUNS: VISÃO DE ISRAEL POR UMA ESCRITORA”Tags:
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sexta-feira, 19 de março de 2010
Lula em Israel II
O saldo foi positivo, apesar de algumas derrapadas. Como diria aquele grande pensador brasileiro: "faz parte!". Veja o porquê na análise sempre arguta do jornalista Alon Feuerwerker.
No frigir dos ovos
Alon Feuerwerker
Lula fez o que os antecessores não tinham feito: uma visita oficial ao país nascido do movimento sionista. Viajou para lá, discursou no Parlamento — onde foi aplaudido — e homenageou as vítimas do Holocausto
Qual é o saldo da visita de Luiz Inácio Lula da Silva ao Oriente Médio? O presidente vinha de derrota em Honduras e estava enredado numa situação inexplicável ao tratar os direitos humanos em Cuba. Mas desta vez Lula conseguiu colher o principal objetivo político: um alvará informal de interlocutor com o Irã e de jogador global na pendência entre Israel e os palestinos. Na política, como no futebol, é sempre um jogo depois do outro.
Houve ainda avanços comerciais, que também são políticos. Os gestos na diplomacia têm importância, mas o lugar principal é dos fatos. Israel ser um bom aliado dos Estados Unidos faz o PT e a esquerda torcerem o nariz ao sionismo como movimento de emancipação nacional. É portanto digno de registro que as relações entre Israel e o Mercosul tenham se consolidado exatamente sob a batuta de Lula.
Serve de contrapeso à absorção da Venezuela no bloco, dirá o cético. Infelizmente, ainda não se descobriu — de um lado e de outro — como fazer omelete sem tirar os ovos da casca.
Mais um fato: Lula foi o primeiro presidente brasileiro a colocar os pés em Israel. Houve agora ali alguma turbulência e cotoveladas, quando ele recusou homenagear o fundador do moderno nacionalismo judaico, Theodor Herzl, enquanto aceitava reverenciar Yasser Arafat.
Que importância tem isso? Pouca. A História doravante vai registrar que Lula foi o primeiro presidente do Brasil a visitar oficialmente o país nascido do movimento sionista. Viajou para lá, discursou no Knesset (Parlamento) — onde foi aplaudido — e homenageou as vítimas do Holocausto.
O movimento de Lula no tabuleiro levantino só poderá ser avaliado após os resultados. É acaciano? Talvez. Se as potências não precisarem chegar à guerra para bloquear a emergência de um Irã nuclear, Lula vai estar nos livros de História como visionário, enquanto os críticos dele precisarão espremer-se nos rodapés desse episódio. Caso contrário, nosso presidente ficará nos anais como derrotado, um Neville Chamberlain de segunda linha.
A não ser que, repetindo Getúlio Vargas na Segunda Guerra Mundial, dê um jeito de estar do lado vencedor, qualquer que seja, na hora “h”.
Subestimar Lula tem-se revelado esporte de alto risco. Melhor então acompanhar o desenvolvimento da trama. E não se apressar nos palpites.
Além da assimetria no tratamento aos ícones nacionais, outro detalhe polêmico da visita foi o conteúdo da fala presidencial. Lula deu opinião sobre tudo, desde o muro que separa Israel da Cisjordânia até a luta interna dos palestinos, passando pela questão nuclear. Palpitou inclusive sobre as relações entre Israel e os Estados Unidos.
Não deixa de ser comportamento curioso à luz da “estrita observância do princípio da não ingerência”, que justifica, por exemplo, o silêncio e o imobilismo sepulcrais das nossas autoridades diante das violações de direitos humanos cometidas por governos amigos. Mas aí deve estar valendo o critério “anti-imperialista”. Deu sorte de entrar na categoria? Então meta ficha, que nem Lula nem nossa chancelaria vão dizer nada.
Ainda sobre discursos, o Itamaraty parece considerar positivo um eventual estremecimento dos Estados Unidos com Israel. Também aqui as coisas precisariam ser olhadas com cuidado e noção de timing. Líder de um governo fortemente nacionalista, Benjamin Netanyahu vem nas semanas recentes abrindo involuntariamente espaço para Barack Obama aparecer aos olhos do mundo árabe como alguém que “enfrenta Israel”.
No frigir dos ovos, americanos e israelenses são e serão aliados estratégicos. E os últimos desencontros engordam a conta de Obama com um capital político indispensável para impor a “pax americana” na região. Impor inclusive ao Irã. E talvez com a ajuda do Brasil.
Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (19) no Correio Braziliense.
No frigir dos ovos
Alon Feuerwerker
Lula fez o que os antecessores não tinham feito: uma visita oficial ao país nascido do movimento sionista. Viajou para lá, discursou no Parlamento — onde foi aplaudido — e homenageou as vítimas do Holocausto
Qual é o saldo da visita de Luiz Inácio Lula da Silva ao Oriente Médio? O presidente vinha de derrota em Honduras e estava enredado numa situação inexplicável ao tratar os direitos humanos em Cuba. Mas desta vez Lula conseguiu colher o principal objetivo político: um alvará informal de interlocutor com o Irã e de jogador global na pendência entre Israel e os palestinos. Na política, como no futebol, é sempre um jogo depois do outro.
Houve ainda avanços comerciais, que também são políticos. Os gestos na diplomacia têm importância, mas o lugar principal é dos fatos. Israel ser um bom aliado dos Estados Unidos faz o PT e a esquerda torcerem o nariz ao sionismo como movimento de emancipação nacional. É portanto digno de registro que as relações entre Israel e o Mercosul tenham se consolidado exatamente sob a batuta de Lula.
Serve de contrapeso à absorção da Venezuela no bloco, dirá o cético. Infelizmente, ainda não se descobriu — de um lado e de outro — como fazer omelete sem tirar os ovos da casca.
Mais um fato: Lula foi o primeiro presidente brasileiro a colocar os pés em Israel. Houve agora ali alguma turbulência e cotoveladas, quando ele recusou homenagear o fundador do moderno nacionalismo judaico, Theodor Herzl, enquanto aceitava reverenciar Yasser Arafat.
Que importância tem isso? Pouca. A História doravante vai registrar que Lula foi o primeiro presidente do Brasil a visitar oficialmente o país nascido do movimento sionista. Viajou para lá, discursou no Knesset (Parlamento) — onde foi aplaudido — e homenageou as vítimas do Holocausto.
O movimento de Lula no tabuleiro levantino só poderá ser avaliado após os resultados. É acaciano? Talvez. Se as potências não precisarem chegar à guerra para bloquear a emergência de um Irã nuclear, Lula vai estar nos livros de História como visionário, enquanto os críticos dele precisarão espremer-se nos rodapés desse episódio. Caso contrário, nosso presidente ficará nos anais como derrotado, um Neville Chamberlain de segunda linha.
A não ser que, repetindo Getúlio Vargas na Segunda Guerra Mundial, dê um jeito de estar do lado vencedor, qualquer que seja, na hora “h”.
Subestimar Lula tem-se revelado esporte de alto risco. Melhor então acompanhar o desenvolvimento da trama. E não se apressar nos palpites.
Além da assimetria no tratamento aos ícones nacionais, outro detalhe polêmico da visita foi o conteúdo da fala presidencial. Lula deu opinião sobre tudo, desde o muro que separa Israel da Cisjordânia até a luta interna dos palestinos, passando pela questão nuclear. Palpitou inclusive sobre as relações entre Israel e os Estados Unidos.
Não deixa de ser comportamento curioso à luz da “estrita observância do princípio da não ingerência”, que justifica, por exemplo, o silêncio e o imobilismo sepulcrais das nossas autoridades diante das violações de direitos humanos cometidas por governos amigos. Mas aí deve estar valendo o critério “anti-imperialista”. Deu sorte de entrar na categoria? Então meta ficha, que nem Lula nem nossa chancelaria vão dizer nada.
Ainda sobre discursos, o Itamaraty parece considerar positivo um eventual estremecimento dos Estados Unidos com Israel. Também aqui as coisas precisariam ser olhadas com cuidado e noção de timing. Líder de um governo fortemente nacionalista, Benjamin Netanyahu vem nas semanas recentes abrindo involuntariamente espaço para Barack Obama aparecer aos olhos do mundo árabe como alguém que “enfrenta Israel”.
No frigir dos ovos, americanos e israelenses são e serão aliados estratégicos. E os últimos desencontros engordam a conta de Obama com um capital político indispensável para impor a “pax americana” na região. Impor inclusive ao Irã. E talvez com a ajuda do Brasil.
Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (19) no Correio Braziliense.
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terça-feira, 16 de março de 2010
Lula em Israel
Transcrevo abaixo coluna do Alon Feuerwerker sobre derrapadas na curva de Lula em sua visita a Israel.
Lula e o protocolo (16/03)
Alon Feuerwerker
Há algum ruído porque Luiz Inácio Lula da Silva recusou ir ao túmulo de Theodor Herzl para colocar uma coroa de flores, no sesquicentenário (150 anos) do nascimento do jornalista austríaco. Herzl foi fundador do movimento sionista, que defende o direito de os judeus construírem um Estado na Palestina. Ou seja, Lula aceita Israel como um fato da política, mas não enxerga vantagem em associar a imagem dele —na esfera doutrinária— à legitimidade de os judeus terem seu país na região.
É direito do presidente só ir aonde quiser. Ainda mais se o evento era extra-agenda. Mesmo que um brasileiro, Osvaldo Aranha, tenha presidido a Assembleia Geral da ONU quando, em 1947, o organismo decidiu dividir a Palestina entre um país árabe e um judeu. Foi naquela época uma vitória do sionismo, uma conquista derivada também do apoio dado pelos nacionalistas judeus aos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Enquanto o nacionalismo árabe ali emergente se associava ao nazifascismo.
Lula e o governo dele não são exatamente fãs desse tipo de solenidade.
Em novembro de 2008 o presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, visitou o monumento dos combatentes brasileiros mortos na Segunda Guerra, no Aterro do Flamengo, no Rio. Depositou ali a merecida coroa de flores em homenagem aos pracinhas. Nenhuma autoridade civil brasileira compareceu. Nem do governo federal, nem do estadual.
Conforme os registros da época, o motivo alegado pelo Itamaraty foi protocolar, pois ministros não podem se reunir com um chefe de Estado estrangeiro antes que ele se encontre com o mandatário brasileiro. E por que não mudaram a agenda, para nossas autoridades poderem participar da cerimônia? E se ministros não podem, por que generais podem?
O Brasil foi representado pelo então comandante do CML (Comando Militar do Leste), general Luiz Cesário da Silveira Filho, por outros militares da ativa e por ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Tivemos 2 mil mortos no conflito. Os soviéticos tiveram 20 milhões. Era, portanto, um baita gesto do presidente russo em direção a nós, brasileiros. Coisa de quem tem a dimensão de si próprio, sabe de onde veio e para onde vai.
Maio está chegando. O 65º aniversário da vitória aliada em 1945 vai passar, como de hábito. Será comemorado em muitos países vencedores da guerra, mas aqui tem tudo para ficar quase em branco, novamente. Quase? As Forças Armadas cultivam sozinhas a memória da participação brasileira naquele episódio decisivo para a humanidade.
Relevante em Lula não é chamar a si a prerrogativa de reverenciar —ou não— emblemas nacionais das nações visitadas. Isso é do jogo. O detalhe mais agudo é outro: o pouco cuidado em relação aos símbolos nacionais brasileiros. Talvez estejamos diante de um nacionalismo de tipo inteiramente novo, mais datado, com Lula acumulando todos os papéis, desde o Descobrimento.
São conhecidas as dificuldades da esquerda para entender a Independência, a Abolição, a República, a Revolução de 1930, e mesmo a participação brasileira no conflito de 1939-45. Foram todos episódios da nossa construção, mas na historiografia oficial há certa tendência de empurrar muitos deles à categoria das "manipulações da classe dominante", ao arquivo dos "exemplos de transições por cima". Sai a História, entram os clichês vulgares.
Os processos de emancipação nacional são bonitos nos (maus) livros ou nas falsificações intelectuais e acadêmicas. Na vida real implicam dor, perda, sofrimento, crueldade e tragédia. A vitória de uns sempre representa a derrota de outros. Não tem sido diferente em Israel e na Palestina. Mesmo assim, os países democráticos cultivam a memória dentro de certos limites de fidedignidade, ainda quando tendem a deformar os fatos por conveniência política.
Lula deixar de ir ao túmulo de Herzl é pouco relevante. É apenas uma posição político-ideológica, como qualquer outra. As relações entre nós e eles, especialmente no terreno comercial, vão bem e continuarão assim. Grave é inexistir no Brasil um túmulo importante para os mandatários estrangeiros fazerem visitas protocolares, para colocarem coroas de flores em homenagem aos nossos heróis. E quando, com muito esforço e persistência, finalmente acham um e vão lá colocar, fazem isso sozinhos. Por razões protocolares.
Sabe como é, né? Nós brasileiros somos especialistas em seguir os protocolos. É uma conhecida obsessão nacional.
Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (16) no Correio Braziliense.
Lula e o protocolo (16/03)
Alon Feuerwerker
Há algum ruído porque Luiz Inácio Lula da Silva recusou ir ao túmulo de Theodor Herzl para colocar uma coroa de flores, no sesquicentenário (150 anos) do nascimento do jornalista austríaco. Herzl foi fundador do movimento sionista, que defende o direito de os judeus construírem um Estado na Palestina. Ou seja, Lula aceita Israel como um fato da política, mas não enxerga vantagem em associar a imagem dele —na esfera doutrinária— à legitimidade de os judeus terem seu país na região.
É direito do presidente só ir aonde quiser. Ainda mais se o evento era extra-agenda. Mesmo que um brasileiro, Osvaldo Aranha, tenha presidido a Assembleia Geral da ONU quando, em 1947, o organismo decidiu dividir a Palestina entre um país árabe e um judeu. Foi naquela época uma vitória do sionismo, uma conquista derivada também do apoio dado pelos nacionalistas judeus aos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Enquanto o nacionalismo árabe ali emergente se associava ao nazifascismo.
Lula e o governo dele não são exatamente fãs desse tipo de solenidade.
Em novembro de 2008 o presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, visitou o monumento dos combatentes brasileiros mortos na Segunda Guerra, no Aterro do Flamengo, no Rio. Depositou ali a merecida coroa de flores em homenagem aos pracinhas. Nenhuma autoridade civil brasileira compareceu. Nem do governo federal, nem do estadual.
Conforme os registros da época, o motivo alegado pelo Itamaraty foi protocolar, pois ministros não podem se reunir com um chefe de Estado estrangeiro antes que ele se encontre com o mandatário brasileiro. E por que não mudaram a agenda, para nossas autoridades poderem participar da cerimônia? E se ministros não podem, por que generais podem?
O Brasil foi representado pelo então comandante do CML (Comando Militar do Leste), general Luiz Cesário da Silveira Filho, por outros militares da ativa e por ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Tivemos 2 mil mortos no conflito. Os soviéticos tiveram 20 milhões. Era, portanto, um baita gesto do presidente russo em direção a nós, brasileiros. Coisa de quem tem a dimensão de si próprio, sabe de onde veio e para onde vai.
Maio está chegando. O 65º aniversário da vitória aliada em 1945 vai passar, como de hábito. Será comemorado em muitos países vencedores da guerra, mas aqui tem tudo para ficar quase em branco, novamente. Quase? As Forças Armadas cultivam sozinhas a memória da participação brasileira naquele episódio decisivo para a humanidade.
Relevante em Lula não é chamar a si a prerrogativa de reverenciar —ou não— emblemas nacionais das nações visitadas. Isso é do jogo. O detalhe mais agudo é outro: o pouco cuidado em relação aos símbolos nacionais brasileiros. Talvez estejamos diante de um nacionalismo de tipo inteiramente novo, mais datado, com Lula acumulando todos os papéis, desde o Descobrimento.
São conhecidas as dificuldades da esquerda para entender a Independência, a Abolição, a República, a Revolução de 1930, e mesmo a participação brasileira no conflito de 1939-45. Foram todos episódios da nossa construção, mas na historiografia oficial há certa tendência de empurrar muitos deles à categoria das "manipulações da classe dominante", ao arquivo dos "exemplos de transições por cima". Sai a História, entram os clichês vulgares.
Os processos de emancipação nacional são bonitos nos (maus) livros ou nas falsificações intelectuais e acadêmicas. Na vida real implicam dor, perda, sofrimento, crueldade e tragédia. A vitória de uns sempre representa a derrota de outros. Não tem sido diferente em Israel e na Palestina. Mesmo assim, os países democráticos cultivam a memória dentro de certos limites de fidedignidade, ainda quando tendem a deformar os fatos por conveniência política.
Lula deixar de ir ao túmulo de Herzl é pouco relevante. É apenas uma posição político-ideológica, como qualquer outra. As relações entre nós e eles, especialmente no terreno comercial, vão bem e continuarão assim. Grave é inexistir no Brasil um túmulo importante para os mandatários estrangeiros fazerem visitas protocolares, para colocarem coroas de flores em homenagem aos nossos heróis. E quando, com muito esforço e persistência, finalmente acham um e vão lá colocar, fazem isso sozinhos. Por razões protocolares.
Sabe como é, né? Nós brasileiros somos especialistas em seguir os protocolos. É uma conhecida obsessão nacional.
Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (16) no Correio Braziliense.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Aproximação, o novo filme de Amos Gitai
Acredito que você já deve ter assistido a algum dos filmes de Amos Gitai. Refiro-me ao O dia do perdão (Kippur) e Kedma. São dois bons filmes, pode acreditar e buscá-lo em locadoras. Aqui em Natal, consegui alugá-los na Yelllow.
Bueno, agora um novo filme do cineasta está sendo lançado no Brasil. Para atiçar a sua curiosidade, transcrevo abaixo matéria do Estadão. Mais abaixo, para aumentar a sua ansiadade, coloquei o trailer.
Em ‘Aproximação’, Amos Gitai traz drama pessoal e história
O ano é 2005, quando colonos judeus foram retirados à força da Faixa de Gaza por soldados israelenses
Reuters – O Estado SP
SÃO PAULO - Em “Aproximação”, drama que estreia em São Paulo e Rio de Janeiro, o diretor israelense Amos Gitai (”Kippur”, “Free Zone”) lida com a intersecção entre um momento histórico turbulento e a inquietação no plano intimista que abala os membros de uma família depois da morte do patriarca.
O momento histórico em que acontece o clímax é em 2005, quando colonos judeus foram retirados à força da Faixa de Gaza por soldados israelenses. Antes de chegar a esse ponto, Gitai, e sua roteirista habitual, Marie-Jose Sanselme (”Free Zone”, “Alila”), começam a história a partir de um personagem.
Um membro do Exército de Israel, Uli (Liron Levo, de “Munique”), vai para a França ao encontro de sua irmã adotiva, Anna (Juliette Binoche, de “Horas de Verão”), onde irão velar o corpo do pai.
A cena é acompanhada pela cantora lírica norte-americana Barbara Hendricks, que com seu canto cria um clima dúbio, colocando em dúvida se o que se vê é real ou é um delírio ou sonho de Ana. Mais tarde, o filme promove um encontro memorável do cinema contemporâneo. Juliette contracena brevemente – mas num momento-chave – com a veterana atriz Jeanne Moreau.
Ana é uma personagem estranha. Ela está alegre demais para um velório, parece se insinuar demais para o irmão adotivo. Aos poucos, ela passa por uma profunda transformação que irá questionar, acima de tudo, a sua identidade. Por questões familiares, ela acaba sendo obrigada a ir com o irmão para Israel.
Seus problemas começam logo na chegada ao país, onde ela tem dificuldades para entrar, é obrigada a separar-se do irmão e continuar a viagem sozinha. Seu maior desafio, no entanto, será enfrentar um passado que ela abandonou e encará-lo de frente. Essa foi uma das condições do testamento de seu pai.
Chegando à região do conflito entre colonos e soldados, Ana se depara com um realidade que não conhecia, que tanto a comove quanto a assusta. Um episódio do passado, que ela julgava esquecido, emerge com toda a força e ela é obrigada a lidar com isso. Nesse ponto, tal qual sua protagonista, “Aproximação” transforma-se visualmente.
Na primeira parte do filme, Gitai trabalha com planos longos, uma câmera que se move com elegância e certa lentidão. À medida que Ana se transforma, tomando contato com esse novo mundo, os planos tornam-se mais curtos, a câmera mais agitada, transmitindo a tensão do lugar e daquele momento. A fotografia é assinada pelo austríaco Christian Berger, o mesmo que neste ano foi indicado ao Oscar por “A Fita Branca”.
Sem nunca cair numa metáfora barata ou simbolismos ralos, Gitai traça um retrato multifacetado e profundo do Oriente Médio. Ana tem dificuldades de comunicação, pois não fala hebraico, e as poucas pessoas que entendem inglês mal conseguem se expressar. A tensão no ar faz parecer que algo vai se romper a qualquer momento.
Em alguns momentos, “Aproximação” pode lembrar “Free Zone”, no qual a personagem central, interpretada por Natalie Portman, sofria um choque cultural ao chegar a Israel. Ana passa por um momento parecido, mas o fato de ela ser mais madura do que a protagonista do outro filme, ressoa de outra forma.
Como é seu costume, o diretor faz um cinema político que encontra espaço para questões existenciais, ponderando não apenas sobre o papel do indivíduo na sociedade, como também a questão da identidade cultural e pessoal de cada um.
Gitai é um dos cineastas mais importantes em atividade atualmente. E “Aproximação” encaixa-se com clareza em sua obra.
A primeira cena do filme, um longo plano-sequência dentro de um trem, mostra Uli conhecendo e beijando uma palestina, interpretada por Hiam Abbass (”O Visitante”). Quando questionados por um oficial sobre a estranheza daquele envolvimento, o israelense diz que aquilo não é nada político. E ela completa: “Não é nada simbólico. Só estamos no mesmo trem.” Nesse momento, o diretor parece nos sorrir com a ironia bastante simbólica dessa constatação.
Durante a Mostra de Cinema de São Paulo de 2007, quando o filme foi apresentado com o título “A Retirada” (que tem mais a ver com o original do que este usado no lançamento comercial no Brasil), Gitai, que visitava a capital paulista, contou que esta história começou a ser escrita em São Paulo, quando sua roteirista, Marie-Jose, participava da Mostra como jurada, em 2005. (Por Alysson Oliveira, do Cineweb)
Bueno, agora um novo filme do cineasta está sendo lançado no Brasil. Para atiçar a sua curiosidade, transcrevo abaixo matéria do Estadão. Mais abaixo, para aumentar a sua ansiadade, coloquei o trailer.
Em ‘Aproximação’, Amos Gitai traz drama pessoal e história
O ano é 2005, quando colonos judeus foram retirados à força da Faixa de Gaza por soldados israelenses
Reuters – O Estado SP
SÃO PAULO - Em “Aproximação”, drama que estreia em São Paulo e Rio de Janeiro, o diretor israelense Amos Gitai (”Kippur”, “Free Zone”) lida com a intersecção entre um momento histórico turbulento e a inquietação no plano intimista que abala os membros de uma família depois da morte do patriarca.
O momento histórico em que acontece o clímax é em 2005, quando colonos judeus foram retirados à força da Faixa de Gaza por soldados israelenses. Antes de chegar a esse ponto, Gitai, e sua roteirista habitual, Marie-Jose Sanselme (”Free Zone”, “Alila”), começam a história a partir de um personagem.
Um membro do Exército de Israel, Uli (Liron Levo, de “Munique”), vai para a França ao encontro de sua irmã adotiva, Anna (Juliette Binoche, de “Horas de Verão”), onde irão velar o corpo do pai.
A cena é acompanhada pela cantora lírica norte-americana Barbara Hendricks, que com seu canto cria um clima dúbio, colocando em dúvida se o que se vê é real ou é um delírio ou sonho de Ana. Mais tarde, o filme promove um encontro memorável do cinema contemporâneo. Juliette contracena brevemente – mas num momento-chave – com a veterana atriz Jeanne Moreau.
Ana é uma personagem estranha. Ela está alegre demais para um velório, parece se insinuar demais para o irmão adotivo. Aos poucos, ela passa por uma profunda transformação que irá questionar, acima de tudo, a sua identidade. Por questões familiares, ela acaba sendo obrigada a ir com o irmão para Israel.
Seus problemas começam logo na chegada ao país, onde ela tem dificuldades para entrar, é obrigada a separar-se do irmão e continuar a viagem sozinha. Seu maior desafio, no entanto, será enfrentar um passado que ela abandonou e encará-lo de frente. Essa foi uma das condições do testamento de seu pai.
Chegando à região do conflito entre colonos e soldados, Ana se depara com um realidade que não conhecia, que tanto a comove quanto a assusta. Um episódio do passado, que ela julgava esquecido, emerge com toda a força e ela é obrigada a lidar com isso. Nesse ponto, tal qual sua protagonista, “Aproximação” transforma-se visualmente.
Na primeira parte do filme, Gitai trabalha com planos longos, uma câmera que se move com elegância e certa lentidão. À medida que Ana se transforma, tomando contato com esse novo mundo, os planos tornam-se mais curtos, a câmera mais agitada, transmitindo a tensão do lugar e daquele momento. A fotografia é assinada pelo austríaco Christian Berger, o mesmo que neste ano foi indicado ao Oscar por “A Fita Branca”.
Sem nunca cair numa metáfora barata ou simbolismos ralos, Gitai traça um retrato multifacetado e profundo do Oriente Médio. Ana tem dificuldades de comunicação, pois não fala hebraico, e as poucas pessoas que entendem inglês mal conseguem se expressar. A tensão no ar faz parecer que algo vai se romper a qualquer momento.
Em alguns momentos, “Aproximação” pode lembrar “Free Zone”, no qual a personagem central, interpretada por Natalie Portman, sofria um choque cultural ao chegar a Israel. Ana passa por um momento parecido, mas o fato de ela ser mais madura do que a protagonista do outro filme, ressoa de outra forma.
Como é seu costume, o diretor faz um cinema político que encontra espaço para questões existenciais, ponderando não apenas sobre o papel do indivíduo na sociedade, como também a questão da identidade cultural e pessoal de cada um.
Gitai é um dos cineastas mais importantes em atividade atualmente. E “Aproximação” encaixa-se com clareza em sua obra.
A primeira cena do filme, um longo plano-sequência dentro de um trem, mostra Uli conhecendo e beijando uma palestina, interpretada por Hiam Abbass (”O Visitante”). Quando questionados por um oficial sobre a estranheza daquele envolvimento, o israelense diz que aquilo não é nada político. E ela completa: “Não é nada simbólico. Só estamos no mesmo trem.” Nesse momento, o diretor parece nos sorrir com a ironia bastante simbólica dessa constatação.
Durante a Mostra de Cinema de São Paulo de 2007, quando o filme foi apresentado com o título “A Retirada” (que tem mais a ver com o original do que este usado no lançamento comercial no Brasil), Gitai, que visitava a capital paulista, contou que esta história começou a ser escrita em São Paulo, quando sua roteirista, Marie-Jose, participava da Mostra como jurada, em 2005. (Por Alysson Oliveira, do Cineweb)
Lula no Haaretz
O Haaretz é, de longe, um dos melhores jornais que você pode ler na internet. Sempre que tenho um tempinho, procuro lê-lo. O jornal israelense e o espanho EL PAÍS são boas opções informativas. O inconveniente, para muitos, é de que ele publicado em inglês. Mas não desanime, faça um esforço e leia-o. Na sua edição de hoje, para desespero da Nova Direita brasileira (que ficou histérica com o fato), há uma grande matéria com o Presidente Lula. Transcrevo-a abaixo.
Brazil leader talks Mideast peace, how to be friends with both Israel and Iran
By Adar Primor
Tags: Israel news
In exclusive interview, Luiz Inacio Lula da Silva tells Haaretz it's time for more serious Israel-Palestinian talks.
SAO PAULO, Brazil - President Lula of Brazil, who in October will conclude his second term in office (and his last permitted by the state's constitution), is the most popular head of state in the country's history. His popularity rating stands at about 80 percent, and the universal consensus is that it's simply impossible not to like him. Even Brazilians who did not vote for him find him likable.
The reason becomes clear when Luiz Inacio Lula da Silva - his full name, which no one uses - enters the room. He smiles in all directions. In addition to the two Israeli journalists present, the third guest is a reporter for ANBA news agency, run by the Arab Brazilian Chamber of Commerce. Impartiality is the name of the game. Lula, as he is universally known, has to be loved by all. His visit to the Middle East next week will begin in Israel but will also take him to the Palestinian Authority and Jordan. And now he has a problem: Who will get to ask the first question? He decides to solve this by having us shoot for evens or odds. Amusing himself, he does this four times; only after the result is overwhelmingly clear does he declare the winner: Haaretz.
Lula was one of the first leaders to host President Mahmoud Ahmadinejad after Iran's blood-stained election of June 2009. Brazil was also one of only five countries to abstain from an International Atomic Energy Agency vote last November on a condemnation of Iran.
He is set to visit the Islamic Republic in May, where his hosts will repay him in kind for the red carpet he laid out for them in Brasilia last November. When asked how he'll be able to win over the Israelis, whose vantage point is related to the trauma of the Holocaust, Lula replies: "I spoke with the president of Iran and made it clear to him that he cannot go on saying that he wants Israel's liquidation, just as it is untenable for him to deny the Holocaust, which is a legacy of all humanity. I added that the fact that he has differences with Israel does not allow him to deny or ignore history."
In a way that will undoubtedly disturb those who will host him in Israel next week, Lula draws a direct association between the failure to advance Israeli-Palestinian peace and his planned visit to Tehran; between the need to ensure that Iran will not manufacture nuclear weapons and the need to resolve the Middle East conflict; and between the failed attempts at mediation led by international players, first and foremost the United States, and the need to bring in fresh new players - Brazilians, in all likelihood.
"I talked about Iran with many leaders, and particularly with those whose countries have a seat on the Security Council," he explains. "The Americans, the French, the British, the Russians and the Chinese all want to advance the Middle East peace process. But I also feel that the parties to the conflict and the people involved in the process have long since grown tired of it. So, the time has come to bring into the arena players who will be able to put forward new ideas. Those players must have access to all levels of the conflict: in Israel, in Palestine, in Iran, in Syria, in Jordan and in many other countries that are associated with this conflict. This is the only way we will be able to advance Israeli-Palestinian peace, and at the same time be able to say clearly to Iran that we are against the manufacture of nuclear weapons."
'People have to look at each other'
Lula does not overlook any of the elements in this comprehensive linkage when asked about the fact that Israeli patience regarding Iran seems to have worn thin. "The leaders I spoke to believe that we must act quickly, otherwise Israel will attack Iran. I do not want Israel to attack Iran, just as I do not want Iran to attack Israel. In an orderly world, people have to learn to talk to one another." Here he seems to be alluding critically to the "proximity talks" about to get underway between Israel and the Palestinian Authority.
"The appropriate partners from each country have to be found, and more serious talks conducted," he continues. "The importance of talks between third- and fourth-rank officials [does not hold] even 1 percent of the importance of tete-a-tete talks between leaders. Politics is mainly contact. People have to look at each other, sense each other. A leader has to look into the eyes of his interlocutor instead of communicating with him through lower-level individuals.
" The Brazilian president says he is disappointed that all that remains of the Oslo Accords is "Nobel Prizes and photographs of people hugging each other," as well as the fact that the Annapolis conference of November 2007, in which Brazil participated, did not have any follow-up. "This gives me serious doubts: Who really wants peace in the Middle East? Who has an interest in achieving a solution and who would like the conflict to continue? The impression is that someone is constantly working here as though he has hidden enemies, people who simply do not want an agreement to be reached."
Lula describes himself as a negotiator, not an ideologue, a person who manages to get along with both Hugo Chavez and George W. Bush, with Shimon Peres and Mahmoud Ahmadinejad. He says he has never read a book in his life, even though everyone admires his "supreme wisdom" and "creative mind." As a chairman of the workers union during the years of military rule in Brazil, he encountered and resolved many difficult conflicts.
"I was born into the politics of dialogue, I became president of this country through dialogue and I have conducted my entire presidency by means of dialogue. I believe that through dialogue we will succeed in solving all the conflicts which today appear to be unsolvable," he says.
He is well aware that he will be regarded as "naive" by his Israeli interlocutors. He is also familiar with the counter-rhetoric of Prime Minister Benjamin Netanyahu - who likens Ahmadinejad to Hitler, Iran to the Nazi regime and the world of 2010 to that of 1938. Lula's assertive response is likely to surprise even those familiar with his arguments: "Anyone who compares Ahmadinejad and modern-day Iran to Hitler and the Nazis is having the same kind of radicalism of which Iran is being accused. Anyone who takes that line is not contributing in the least to the peace process which we want to create for the sake of the future. You cannot do politics with hate and resentment. Anyone who wants to do politics with hate and resentment should get out of politics. Nobody can rule a country through the liver. You have to rule a country with your head and your heart. Other than that, it's best to stay somewhere else other than in politics."
Lula wears a blue suit with a Brazilian flag pinned to its lapel. After each question he takes out a small pair of glasses, places them on the edge of his nose and jots down a few points. He has a particularly husky bass voice; when he whispers, every syllable can still be heard in the big hall.
"My personal thesis is that we must not allow what happened in Iraq to happen in Iran," he says. "Accordingly, before sanctions of any kind are imposed, we must make every effort to rebuild the peace in the Middle East. That is what is behind my visit to Israel, Palestine and Jordan - and that is what will also take me on a visit to Iran later. After all, the Middle East conflict is not bilateral and does not pertain only to Israel and Palestine. There are other interests in the Middle East, interests which must be represented so that we can find a solution. Iran is part of all this, and therefore someone must talk to them."
Harmony in diversity
The atmosphere in Sao Paulo's Albert Einstein Hospital is somewhat despondent. Built in the mid-1970s, this vast medical institution, which dominates a hill in the prestigious Morumbi district, is considered the largest and most advanced medical center - not only in Brazil but in all of Latin America. The city's Jewish community (80,000 strong, out of 120,000 in the entire country) regards the hospital as its flagship. The institution operates on a nonprofit basis and its every fiber bespeaks giving: Giving to the country that absorbed the members of the community, and giving above all to its downtrodden, many of whom live just a stone's throw from the luxurious villas of Morumbi.
About 80,000 people live in the Paraisopolis favela (shantytown), one of about 500 favelas within a 10-kilometer radius of the hospital. The garbage is piled up on both sides of the streets, the homes are crumbling and sewage flows openly in the streets. Four hundred volunteers from the hospital are working to transform Paraisopolis into a place that will better fit the meaning of its name ("city of paradise"). Hospital staff recently opened a clinic here, and there is an old-age home, enrichment and learning groups, a library, sports facilities and an auditorium. The volunteers distribute condoms and give advice to pregnant girls. There's a colorful cardboard box into which people are asked "to throw all the curse words" they customarily utter every day.
In November 2009, the Jewish community was in an uproar when Lula deliberately chose not to invite its president, Claudio Lottenberg, to a luncheon in honor of a visiting President Shimon Peres. The reason: an article by Lottenberg attacking Lula that had been published in Brazil's largest newspaper, Folha de Sao Paulo.
Now, on the eve of Lula's visit to Israel, the community is playing down the incident. Lottenberg himself says he has "very close relations" with the president. "He makes a point of visiting the community every year on Holocaust Day and on Rosh Hashanah. All told, we have held 22 cordial meetings with him." Lottenberg adds that "Lula is an important rising player in the international arena, and Israel should take account of this. It is important for Israel to have partners and allies besides the United States."
In separate conversations, Brazil's ambassador to Israel, Pedro Motta Pinto Coelho, and his Israeli counterpart in Brasilia, Giora Becher, note that since Emperor Dom Pedro II visited in 1876, no Brazilian head of state has been to the Holy Land. Lula will be the first president to visit. The ambassadors note the "significant improvement" in economic and political relations between the two countries during Lula's term in office, demonstrated by increased cooperation and many visits on the part of high-ranking officials from both sides.
Lula's ambition to make a deep imprint in the Middle East goes beyond his country's international status, to what he describes proudly as "a long Brazilian history of peace and a life of brotherhood in a region of diverse cultures. More than 120,000 Jews live here in full harmony with 10 million Arabs. It would seem that people can learn from us." Brazil terms itself "the world's largest Lebanese country" (some six million of Brazil's Arabs are of Lebanese origin), "the second-largest African country in the world" (after Nigeria), and also the second-largest Italian and Japanese countries. It is a huge blend of peoples and cultures that do not know the meaning of friction.
Message of unity
You'd be hard-pressed to find someone in Rio de Janeiro who hasn't heard of Saara Street, where Jews and Arabs sell clothing, toys and other items side by side. Whenever tension in the Middle East rises, local television crews show up to film the Brazilian version of coexistence. "All Brazilians are brothers," they say - hence their ability, in their view, to bring brotherhood to all other nations.
These days, local TV stations are broadcasting a commercial produced by Bank Itau, which sponsors the Brazilian national soccer team. The camera zooms in on a bustling market, obviously in the Old City of Jerusalem. A 7- or 8-year-old boy is dribbling a soccer ball. He has sidelocks. He dribbles and dribbles until he loses control of the ball, which hits a sack of corn belonging to Arabs and knocks it over. Standing next to the fallen sack is a another boy. An Arab, of course. He looks at the Jew. Everyone falls silent. The viewers are tense, waiting for war to break out. But then the two boys discover they are both wearing the yellow T-shirt of the Brazilian national team. The Arab boy picks up the ball, bounces it and gives it back to the Jewish kid. Then they pass it back and forth. The slogan flashes on the screen: "Itau - uniting cultures through soccer." Cut.
It's the beginning of a beautiful friendship. The same friendship that Lula wants to bring with him on his visit. The same message, naive or not, that he wants to imbue in the conflicted nations.
Brazil leader talks Mideast peace, how to be friends with both Israel and Iran
By Adar Primor
Tags: Israel news
In exclusive interview, Luiz Inacio Lula da Silva tells Haaretz it's time for more serious Israel-Palestinian talks.
SAO PAULO, Brazil - President Lula of Brazil, who in October will conclude his second term in office (and his last permitted by the state's constitution), is the most popular head of state in the country's history. His popularity rating stands at about 80 percent, and the universal consensus is that it's simply impossible not to like him. Even Brazilians who did not vote for him find him likable.
The reason becomes clear when Luiz Inacio Lula da Silva - his full name, which no one uses - enters the room. He smiles in all directions. In addition to the two Israeli journalists present, the third guest is a reporter for ANBA news agency, run by the Arab Brazilian Chamber of Commerce. Impartiality is the name of the game. Lula, as he is universally known, has to be loved by all. His visit to the Middle East next week will begin in Israel but will also take him to the Palestinian Authority and Jordan. And now he has a problem: Who will get to ask the first question? He decides to solve this by having us shoot for evens or odds. Amusing himself, he does this four times; only after the result is overwhelmingly clear does he declare the winner: Haaretz.
Lula was one of the first leaders to host President Mahmoud Ahmadinejad after Iran's blood-stained election of June 2009. Brazil was also one of only five countries to abstain from an International Atomic Energy Agency vote last November on a condemnation of Iran.
He is set to visit the Islamic Republic in May, where his hosts will repay him in kind for the red carpet he laid out for them in Brasilia last November. When asked how he'll be able to win over the Israelis, whose vantage point is related to the trauma of the Holocaust, Lula replies: "I spoke with the president of Iran and made it clear to him that he cannot go on saying that he wants Israel's liquidation, just as it is untenable for him to deny the Holocaust, which is a legacy of all humanity. I added that the fact that he has differences with Israel does not allow him to deny or ignore history."
In a way that will undoubtedly disturb those who will host him in Israel next week, Lula draws a direct association between the failure to advance Israeli-Palestinian peace and his planned visit to Tehran; between the need to ensure that Iran will not manufacture nuclear weapons and the need to resolve the Middle East conflict; and between the failed attempts at mediation led by international players, first and foremost the United States, and the need to bring in fresh new players - Brazilians, in all likelihood.
"I talked about Iran with many leaders, and particularly with those whose countries have a seat on the Security Council," he explains. "The Americans, the French, the British, the Russians and the Chinese all want to advance the Middle East peace process. But I also feel that the parties to the conflict and the people involved in the process have long since grown tired of it. So, the time has come to bring into the arena players who will be able to put forward new ideas. Those players must have access to all levels of the conflict: in Israel, in Palestine, in Iran, in Syria, in Jordan and in many other countries that are associated with this conflict. This is the only way we will be able to advance Israeli-Palestinian peace, and at the same time be able to say clearly to Iran that we are against the manufacture of nuclear weapons."
'People have to look at each other'
Lula does not overlook any of the elements in this comprehensive linkage when asked about the fact that Israeli patience regarding Iran seems to have worn thin. "The leaders I spoke to believe that we must act quickly, otherwise Israel will attack Iran. I do not want Israel to attack Iran, just as I do not want Iran to attack Israel. In an orderly world, people have to learn to talk to one another." Here he seems to be alluding critically to the "proximity talks" about to get underway between Israel and the Palestinian Authority.
"The appropriate partners from each country have to be found, and more serious talks conducted," he continues. "The importance of talks between third- and fourth-rank officials [does not hold] even 1 percent of the importance of tete-a-tete talks between leaders. Politics is mainly contact. People have to look at each other, sense each other. A leader has to look into the eyes of his interlocutor instead of communicating with him through lower-level individuals.
" The Brazilian president says he is disappointed that all that remains of the Oslo Accords is "Nobel Prizes and photographs of people hugging each other," as well as the fact that the Annapolis conference of November 2007, in which Brazil participated, did not have any follow-up. "This gives me serious doubts: Who really wants peace in the Middle East? Who has an interest in achieving a solution and who would like the conflict to continue? The impression is that someone is constantly working here as though he has hidden enemies, people who simply do not want an agreement to be reached."
Lula describes himself as a negotiator, not an ideologue, a person who manages to get along with both Hugo Chavez and George W. Bush, with Shimon Peres and Mahmoud Ahmadinejad. He says he has never read a book in his life, even though everyone admires his "supreme wisdom" and "creative mind." As a chairman of the workers union during the years of military rule in Brazil, he encountered and resolved many difficult conflicts.
"I was born into the politics of dialogue, I became president of this country through dialogue and I have conducted my entire presidency by means of dialogue. I believe that through dialogue we will succeed in solving all the conflicts which today appear to be unsolvable," he says.
He is well aware that he will be regarded as "naive" by his Israeli interlocutors. He is also familiar with the counter-rhetoric of Prime Minister Benjamin Netanyahu - who likens Ahmadinejad to Hitler, Iran to the Nazi regime and the world of 2010 to that of 1938. Lula's assertive response is likely to surprise even those familiar with his arguments: "Anyone who compares Ahmadinejad and modern-day Iran to Hitler and the Nazis is having the same kind of radicalism of which Iran is being accused. Anyone who takes that line is not contributing in the least to the peace process which we want to create for the sake of the future. You cannot do politics with hate and resentment. Anyone who wants to do politics with hate and resentment should get out of politics. Nobody can rule a country through the liver. You have to rule a country with your head and your heart. Other than that, it's best to stay somewhere else other than in politics."
Lula wears a blue suit with a Brazilian flag pinned to its lapel. After each question he takes out a small pair of glasses, places them on the edge of his nose and jots down a few points. He has a particularly husky bass voice; when he whispers, every syllable can still be heard in the big hall.
"My personal thesis is that we must not allow what happened in Iraq to happen in Iran," he says. "Accordingly, before sanctions of any kind are imposed, we must make every effort to rebuild the peace in the Middle East. That is what is behind my visit to Israel, Palestine and Jordan - and that is what will also take me on a visit to Iran later. After all, the Middle East conflict is not bilateral and does not pertain only to Israel and Palestine. There are other interests in the Middle East, interests which must be represented so that we can find a solution. Iran is part of all this, and therefore someone must talk to them."
Harmony in diversity
The atmosphere in Sao Paulo's Albert Einstein Hospital is somewhat despondent. Built in the mid-1970s, this vast medical institution, which dominates a hill in the prestigious Morumbi district, is considered the largest and most advanced medical center - not only in Brazil but in all of Latin America. The city's Jewish community (80,000 strong, out of 120,000 in the entire country) regards the hospital as its flagship. The institution operates on a nonprofit basis and its every fiber bespeaks giving: Giving to the country that absorbed the members of the community, and giving above all to its downtrodden, many of whom live just a stone's throw from the luxurious villas of Morumbi.
About 80,000 people live in the Paraisopolis favela (shantytown), one of about 500 favelas within a 10-kilometer radius of the hospital. The garbage is piled up on both sides of the streets, the homes are crumbling and sewage flows openly in the streets. Four hundred volunteers from the hospital are working to transform Paraisopolis into a place that will better fit the meaning of its name ("city of paradise"). Hospital staff recently opened a clinic here, and there is an old-age home, enrichment and learning groups, a library, sports facilities and an auditorium. The volunteers distribute condoms and give advice to pregnant girls. There's a colorful cardboard box into which people are asked "to throw all the curse words" they customarily utter every day.
In November 2009, the Jewish community was in an uproar when Lula deliberately chose not to invite its president, Claudio Lottenberg, to a luncheon in honor of a visiting President Shimon Peres. The reason: an article by Lottenberg attacking Lula that had been published in Brazil's largest newspaper, Folha de Sao Paulo.
Now, on the eve of Lula's visit to Israel, the community is playing down the incident. Lottenberg himself says he has "very close relations" with the president. "He makes a point of visiting the community every year on Holocaust Day and on Rosh Hashanah. All told, we have held 22 cordial meetings with him." Lottenberg adds that "Lula is an important rising player in the international arena, and Israel should take account of this. It is important for Israel to have partners and allies besides the United States."
In separate conversations, Brazil's ambassador to Israel, Pedro Motta Pinto Coelho, and his Israeli counterpart in Brasilia, Giora Becher, note that since Emperor Dom Pedro II visited in 1876, no Brazilian head of state has been to the Holy Land. Lula will be the first president to visit. The ambassadors note the "significant improvement" in economic and political relations between the two countries during Lula's term in office, demonstrated by increased cooperation and many visits on the part of high-ranking officials from both sides.
Lula's ambition to make a deep imprint in the Middle East goes beyond his country's international status, to what he describes proudly as "a long Brazilian history of peace and a life of brotherhood in a region of diverse cultures. More than 120,000 Jews live here in full harmony with 10 million Arabs. It would seem that people can learn from us." Brazil terms itself "the world's largest Lebanese country" (some six million of Brazil's Arabs are of Lebanese origin), "the second-largest African country in the world" (after Nigeria), and also the second-largest Italian and Japanese countries. It is a huge blend of peoples and cultures that do not know the meaning of friction.
Message of unity
You'd be hard-pressed to find someone in Rio de Janeiro who hasn't heard of Saara Street, where Jews and Arabs sell clothing, toys and other items side by side. Whenever tension in the Middle East rises, local television crews show up to film the Brazilian version of coexistence. "All Brazilians are brothers," they say - hence their ability, in their view, to bring brotherhood to all other nations.
These days, local TV stations are broadcasting a commercial produced by Bank Itau, which sponsors the Brazilian national soccer team. The camera zooms in on a bustling market, obviously in the Old City of Jerusalem. A 7- or 8-year-old boy is dribbling a soccer ball. He has sidelocks. He dribbles and dribbles until he loses control of the ball, which hits a sack of corn belonging to Arabs and knocks it over. Standing next to the fallen sack is a another boy. An Arab, of course. He looks at the Jew. Everyone falls silent. The viewers are tense, waiting for war to break out. But then the two boys discover they are both wearing the yellow T-shirt of the Brazilian national team. The Arab boy picks up the ball, bounces it and gives it back to the Jewish kid. Then they pass it back and forth. The slogan flashes on the screen: "Itau - uniting cultures through soccer." Cut.
It's the beginning of a beautiful friendship. The same friendship that Lula wants to bring with him on his visit. The same message, naive or not, that he wants to imbue in the conflicted nations.
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