Alba Zaluar dispensa apresentações. É uma grande cientista social. Tem uma obra qualificada e, melhor de tudo, publica artigos legíveis para além dos muros do mundo acadêmico. Escrevia sobre criminalidade e violência semanalmente no jornal do Folha de São Paulo. Não sei se cansou ou se cansaram dela, mas deixou de ser colunista. Sinto falta dos seus artigos. Eram muito bons. Agora, parece-me, escreve esporadicamente para o jornalão. Dando uma olhada nas edições anteriores (lembre-se: estou de molho, pós-cirurgia), encontrei um ótimo artigo dela, publicado no caderno MAIS de domingo passado. Abaixo, partes do artigo:
Vivendo em Gotham City
"Fobópole" e "Não Matarás" discutem a violência urbana e soluções para combatê-la
ALBA ZALUAR
ESPECIAL PARA A FOLHA
Não poderiam ser mais diferentes as perspectivas dos dois livros recém-publicados sobre a violência.
Um foca apenas o Rio de Janeiro, o outro revê a literatura sobre homicídio de quatro continentes para discorrer sobre a necessidade de teorias próprias na América Latina, embora ao final sugira apenas que tais teorias são imperativas. Um discute teorias no teste de hipóteses, o outro, nem um número sequer.
O livro de Gláucio Soares, "Não Matarás - Desenvolvimento, Desigualdade e Homicídios" (ed. FGV, 200 págs., R$ 35), exige um leitor versado em termos estatísticos que o autor não explica nem disseca e, muito freqüentemente, representa apenas com uma letra, de preferência grega.
Não é para leigos nesse idioma exato e hermético. No entanto o autor realiza o trabalho muito necessário de discutir as teorias que explicam as diferentes taxas de homicídios pelo mundo afora, sem esquecer séculos anteriores ao nosso. Só que o faz de um modo muitas vezes surpreendente, passando rápido por séculos de história ou por distâncias continentais em uma mesma página.
Esse grande esforço tem um ponto de vista claramente apresentado desde o início: as tentativas de entender o homicídio que se valem apenas de palavras, mas não de números, fracassam.
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terça-feira, 2 de setembro de 2008
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Seminário de Fátima revela miopia da esquerda brasileira
Recebi um e-mail com convite para seminário da campanha da Deputada Fátima Bezerra (PT). No convite, informa-se que doze grupos temáticos discutirão temas que, acredito, constituirão os eixos articuladores da campanha da deputada à prefeitura da cidade do Natal. Estaria tudo bem se não tivesse constatado, não sem um certo desapontamento, que não haverá espaço para a discussão da segurança pública no referido evento. Desapontado, mas não surpreso. Talvez fosse realmente pedir demais que máquinas eleitorais, encimadas por projetos eleitorais e não políticos, abrissem espaço para discussões realmente substantivas. Por outro lado, essa é uma ausência reveladora. Expressa a incapacidade da esquerda brasileira em enfrentar, com algo mais do que figuras retóricas, uma questão central das grandes metrópoles nos dias atuais: a sensação generalizada de insegurança e de aumento da criminalidade da maioria da população. É como se, de forma um tanto dissimulada, permanecesse aquele velho e empobrecido jargão de que a segurança pública se resolverá quando se solucionar a questão social. Além de um convite para o imobilismo, trata-se de um caminho que distancia tal esquerda das questões que afligem cotidianamente a maioria dos cidadãos. Como conseqüência, ao seguir essa trilha, a esquerda deixa uma avenida aberta para que o discurso autoritário e demagógico, sedento de ações repressivas, cresça e conquiste corações e eleitores.
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