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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A vida, para além da banalidade



Marcos Rolim, jornalista e especialista em direitos humanos e segurança pública, foi um dos deputados federais mais brilhantes que o PT já teve. Desencantado com o cenário político brasileiro, tem se dedicado, nos últimos anos, ao trabalho de consultoria. Mas não tem ficado distante da disputa de valores. Escreve regularmente para grandes jornais, especialmente sobre violência e direitos humanos, e mantém um ótimo site com artigos e documentos muito interessantes (acesse a página do Rolim aqui). Foi visitando esse site que pesquei o artigo abaixo, de autoria da sempre ótima Maria Rita Kehl.

Por uma vida menos banal
Maria Rita Kehl

Sou psicanalista há mais de vinte anos, mas até hoje me espanta que as pessoas ainda procurem a psicanálise para tentar resolver seus conflitos, sair do sofrimento repetitivo, decifrar seus sintomas.
Não que eu duvide da eficácia da psicanálise - pelo contrário. O que me espanta é que tanta gente ainda escolha o percurso lento e sofrido de uma psicanálise nesses tempos de terapias breves, guias de auto-ajuda, medicações milagrosas. A psicanálise é o avesso da pressa. Sua eficácia difere radicalmente da eficiência pragmática tão cara à nossa cultura neoliberal. O psicanalista não aconselha, não promove o ego de ninguém, não alivia (quase) nada. Numa outra vertente ideológica, o psicanalista diverge também do guru complacente, a conduzir seus adeptos pelos caminhos da morada interior, onde supostamente viveria o 'verdadeiro eu' - essa ficção tão cara à modernidade. Por isso ela me parece desajustada à vida contemporânea, na qual se acredita que um 'ego' bem cultivado seja condição do sucesso e da inclusão social. Afinal, a psicanálise também é o avesso do universo de imagens fulgurantes em que vivemos hoje, e com as quais tentamos nos identificar; ela é o império do significante, da palavra com seu fundo falso, sua parcela de vazio e de nonsense. Por fim, o objeto da psicanálise é o desejo inconsciente, não o 'ego'.

Não é confortável habitar o terreno do desejo inconsciente. Não é parecido com o palacete narcísico da 'morada interior', abrigo do (suposto) eu verdadeiro que alimenta as aspirações individualistas. No terreno escorregadio do desejo, o sujeito é um eterno sem-teto: vive acampado, nômade, mudando sua tenda de cá para lá de acordo com os ventos e as chuvas. É que o desejo inconsciente não é uma 'coisa' de que o analisando possa se apoderar e controlar, como um habitante incômodo da casa ao qual se reserva um quartinho nos fundos para que ele não perturbe o andamento geral das coisas. Nem é o que se chama hoje, vulgarmente, de desejo (sexual), ou seja: as fantasias (explícitas) de consumo e sexo que apelam para nós de fora para dentro, nos objetos e mensagens da indústria cultural. O efeito de uma psicanálise não é o controle racional do inconsciente, nem a 'realização' do desejo; não é liberar o sujeito da incômoda presença do desejo inconsciente, e sim propiciar que ele suporte desejar.

Neste sentido, a psicanálise me parece um tanto anacrônica. No aparente império do desejo em que vivemos, onde cada um se acredita no direito ('você merece'!, dizem as mensagens publicitárias) de realizar imediatamente todas as fantasias, a maior parte das pessoas parece ter vergonha de desejar. Por isso escrevi que o império do desejo é aparente: vivemos mesmo é no império do gozo - 'tudo ao mesmo tempo agora' - em que o desejo, que se realiza no trabalho de simbolização e não na posse das coisas, não tem muito lugar. Repito o que escutei em uma conferência do filósofo esloveno Slavoj Zizek: uma das tarefas fundamentais do psicanalista, hoje, é autorizar o analisando a não gozar - e se manter desejante. Nesse sentido, o dispositivo analítico - que mudou muito pouco em um século de existência - deve operar em uma direção oposta à dos tempos de Freud. Hoje já não se trata tanto de permitir a expressão das fantasias inconscientes recalcadas (cujo conteúdo era impensável para a moral vitoriana), e sim de levar o analisando a se perdoar por não conseguir realizar a profusão de fantasias que circulam nas mensagens e apelos da indústria cultural. Não se trata de proibí-lo de gozar e sim de autorizá-lo a não gozar. Pois o imperativo do gozo é tão severo e tão exigente quanto a proibição a toda forma de gozo. O super-eu, instância crítica e sádica que atormenta o eu com suas normas rígidas e suas ameaças de castigo, tanto obriga a gozar quanto proíbe o gozo. Do ponto de vista do supereu, o imperativo: 'goza!' é tão severo quanto a proibição: 'não goza!'. Autorizar o sujeito a não gozar é muito diferente de proibir o gozo: é trabalhar para que ele possa se libertar da relação e servidão com o supereu.

Na contracorrente do senso comum, muita gente continua procurando os consultórios dos psicanalistas atrás de um tipo de tratamento que, se não é o mais eficiente, a meu ver é o mais ético, já que ao sair de uma análise o sujeito deve ser capaz de se responsabilizar pela sua condição desejante. O que me espanta é que a sedução dos dispositivos de adaptação das pessoas à cultura do narcisismo e do consumo ainda encontre resistências entre os que procuram os consultórios dos psicanalistas. Não: a palavra 'resistência' lembra sacrifícios, barreiras morais, ascese, recusa do prazer. As pessoas não procuram a psicanálise para 'resistir' aos prazeres oferecidos pela sociedade do espetáculo e do consumo. Procuram análise porque não conseguem se adequar a eles. É claro que cada candidato a uma análise tem suas queixas e seus sintomas particulares. Mas escuto com muita freqüência queixas do tipo: 'eu não consigo me divertir tanto quanto eu deveria'. As pessoas, maduras ou jovens (acho que os jovens sofrem mais) vivem em dívida com o gozo. Alguém disse, uma vez: 'é como se em algum lugar estivesse acontecendo uma festa espetacular, onde todos estivessem se divertindo além de todos os limites, só que eu não tenho o endereço'. O neurótico, hoje, não se sente um pecador, um impuro, como no início do século XX: sente-se otário. Barrado no baile.

A psicanálise é a cura dos otários? Talvez sim: só que o psicanalista não oferece o endereço da tal festa a ninguém. Ele nem sabe o endereço. No máximo, o analista sabe que o cara que se imagina otário não está perdendo festa nenhuma; a festa do gozo permanente não é proibida, nem é restrita aos mais espertos. Ela é simplesmente impossível de se realizar. Mas isso, o analisando vai descobrir por ele mesmo - se quiser deixar de ser otário.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Sobre a AIDS. Boa notícia!

Retirei do blog do Dr. Paulo Lotufo, a notícia abaixo. Vale a pena ler.

Em breve, mais gente vivendo do que morrendo de aids

Com certeza, o título é um exagero. Mas, uma vitória, o controle da aids foi saudado como um problema. Esse é um problema de quem trabalha em algumas áreas como doenças infecciosas, desnutrição e doenças da infância: não sabem vencer!
U.N. Says AIDS Epidemic Stable Amid Fewer Deaths, Infections Associated PressJuly 29, 2008 4:29 p.m. LONDON -- Fewer people are dying of AIDS, more patients are on HIV medication and the global AIDS epidemic is stable after peaking in the late 1990s. But the United Nations AIDS agency warned in its yearly report Tuesday that governments will need to continue setting aside millions of dollars for AIDS in the coming decades as patients live longer on AIDS treatment. "We've achieved more in the past five years than in the previous 20 years," said Peter Piot, the agency's executive director. "But if we relax now, it would be disastrous. It would wipe out all of our previous investments." UNAIDS estimates the number of AIDS case world-wide at 33 million; its previous estimate of 40 million was revised last year because of changes to how it counts cases. Countries in sub-Saharan Africa including South Africa, Botswana and Swaziland, remain the center of the AIDS epidemic. The region has about 67% of all people infected with HIV and 72% of all AIDS deaths. Outside sub-Saharan Africa, AIDS mainly affects drug users, gay men and sex workers. Officials estimate that two million people died from AIDS last year, down from approximately 2.2 million in 2005. The most dramatic figures are in treatment: The number of people on AIDS medication jumped by 10 times in the last six years, with some 300,000 taking AIDS drugs in 2003 compared to about 3 million in 2007. AIDS drugs have become much cheaper and more available because of a variety of government and private programs. But millions of others still do not have access to the drugs, and those who do will need to remain on them to stay alive. Still, millions of new cases of HIV infection are reported every year, the agency said. HIV is rising in several countries beyond Africa, including China, Germany, Indonesia, Russia and Britain, according to the report, which was issued in advance of next week's international AIDS conference in Mexico City. The good news is that the global number of new infections was down to about 2.7 million people in 2007 from a peak of about 5 million new cases annually in the early 2000s. However, the report -- based on government data from 147 countries -- warned there could be future waves of infection. The agency said it would be difficult to predict whether the AIDS epidemic might spike again. Last week, the U.S. government tripled the amount of money it will spend on AIDS and other diseases around the world to $48 billion over five years. The slow decline of AIDS-related deaths is "dismally disappointing," said Selina Lo, medical coordinator for Medecins Sans Frontiere's Access to Essential Medicines campaign. The group also is known as Doctors Without Borders.
Postado por Paulo