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quinta-feira, 12 de abril de 2012

O escândalo na miséria espiritual do forroó eletrônico

O texto abaixo, da lavra do escritor Ronaldo Correa de Brito, publicado no TERRA MAGAZINE, merece ser lido, discutido e reproduzido. Quem é professor, e alguns dos que me acompanham o são, pode pegar o texto e debater sobre ele com os seus alunos.

Teve “Garota Safada” na Semana Santa de Pernambuco
Ronaldo Correa de Brito


Vi o outdoor convidando para a Semana Santa de Gravatá, uma cidade serrana de Pernambuco, bem próxima ao Recife, onde a maioria das pessoas ricas possui casa. Houve tempo em que Gravatá esfriava, chegando aos 16 graus (acima de zero, é claro), nos meses de junho, julho e agosto. Os visitantes usavam casaco e botas, como se estivessem na Serra Gaúcha.

Por lá existem casas de coberta inclinada, como se fosse cair uma nevasca, igual na Dinamarca ou Suécia. De longe, se avista os telhados escandinavos, debaixo do sol quente. As propagandas convidam os turistas a curtir o clima serrano e as delícias do campo. O clima ainda é agreste, mas o campo… A especulação imobiliária transformou a cidade num amontoado de condomínios e vilas. Viaja-se a Gravatá para curtir um churrasco com os vizinhos, ouvir som brega e de forró, ou comer fondue se imaginando na Suíça.



O turismo é sempre enganoso, em qualquer lugar do mundo. O importante é que o turista faça sempre a mesma coisa, visite os mesmos lugares, sinta as mesmas emoções, fotografe e filme as mesmas imagens. E depois reúna parentes e amigos (coitados!) em casa, e mostre o enfadonho resultado da viagem. Afinal, viaja-se para quê? Para filmar e fotografar e trazer a prova aos incrédulos.



Em Gravatá existe uma grande programação de Páscoa, já ia esquecendo. Não pensem que se trata de vigílias nas igrejas, jejuns, penitências, procissão do Senhor Morto, Missa de Aleluia. Nas rádios e televisões a voz do locutor convoca as pessoas da seguinte maneira: “Semana Santa em Gravatá! Não perca os mega shows de “Forró da Pegação”, “Garota Safada”, “Cavaleiros do Forró”, “Zezé de Camargo e Luciano”… Venha curtir e se divertir! Apoio”… Segue-se o nome de uma cerveja.



Cristo nunca apareceu para expulsar os vendilhões do templo. Ou propor que acabassem a esbórnia, usando o calendário religioso para farras. A França avançou bastante ao impor o fim dessas hipocrisias. Mantenham os feriados – nada contra o descanso de ninguém –, mas não em nome de Jesus ou de um cristianismo que poucos praticam. Mal saímos de um Carnaval que dura dois meses – o caso do Recife, Olinda e Salvador –, e lá vem um segundo tempo. Poderiam chamar a zorra de “Carnaval 2, o retorno”, ao invés de Semana Santa. Empresas e secretarias de turismo dessacralizaram os rituais da Paixão e no lugar deles criaram mais um carnaval, com o intuito de atrair multidões, faturar dinheiro e – tem sempre essa conversa de fariseu – gerar empregos.



A maior vocação do povo brasileiro é mesmo o carnaval. Depois que as festas brasileiras se transformaram em grandes negócios para vender cerveja e cantores de brega, pagode, axé e forró, o calendário se confundiu e ninguém distingue mais Natal, São João, Semana Santa e Carnaval. O cenário é sempre o mesmo: um palco gigantesco ou um trio elétrico, iluminação feérica, som de estourar ouvidos e muita, muita cerveja.



E lucro, a única medida para o nosso tempo, não importando o custo.



Quando se tentou aprovar no senado e na câmara uma lei que proibisse a propaganda de álcool (cerveja, principalmente), as empresas de publicidade comandaram um levante geral, alegando que estavam cerceando a liberdade de imprensa, de livre expressão e por aí afora. Qual o quê! Defendiam a liberdade de encher os bolsos de dinheiro, não importando o mal que fazem aos jovens e às mulheres, os mais fragilizados pelas campanhas aliciantes.



Eita! Falo como um profeta bíblico, clamando no deserto. Bem que gostaria de fazer chover fogo. Mas não tenho poder nenhum, a não ser o de escrever nesse blog.



É claro que não interessa a ninguém pensar seriamente no quanto se tornaram falsas as comemorações religiosas. Não interessa à Igreja, pois ela perderia prestígio e poder. Nem aos fieis verdadeiros. Nem aos laicos, que desejam os feriados para descanso. Nem à indústria da diversão, pelos prejuízos que isso acarretaria. Nem aos fabricantes de bebidas, os fariseus barrigudos. Em suma: deixa como está.



E vamos ao “Forró da Pegação”, na Quinta-Feira da Ceia Larga, e ao show da “Garota Safada”, na Sexta- Feira da Paixão. Encham a cara e dancem à vontade. É tudo pago pela Prefeitura.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Um retrato do mercado de trabalho

Total de trabalhadores terceirizados duplica em São Paulo em sete anos
Autor(es): Por Carlos Giffoni De São Paulo
Valor Econômico - 18/10/2011



O número de trabalhadores terceirizados em empregos formais duplicou em sete anos no Estado de São Paulo, segundo a pesquisa Trajetórias da Terceirização, do Sindicato dos Empregados em Empresas de Prestação de Serviços a Terceiros (Sindeepres). Entre 2003 e 2010 (dado mais recente considerado pelo estudo), a quantidade de empregados pulou de 346,7 mil para 700,2 mil. No mesmo período, o número de empresas de terceirização cresceu 65%, chegando a 5.346 no ano passado.

Para Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e coordenador do levantamento, a estabilidade monetária pela qual o país passa desde a criação do Plano Real, em 1994, garantiu a expansão de empresas terceirizadas. O avanço da terceirização ainda seria estimulado, na sua opinião, pela redução nos custos de contratação e por um enunciado do Tribunal Superior do Trabalho, de 1993, que definiu os setores cabíveis de terceirização da mão de obra e concedeu segurança jurídica às empresas. No entanto, a participação dos terceirizados entre os novos postos formais de trabalho abertos no Estado apresenta um movimento de queda desde 2000 e hoje equivale a 13,2% do saldo líquido de novos empregos.

Já o salário médio deflacionado dos trabalhadores terceirizados não variou muito nos últimos anos, tampouco variou a sua relação com o salário médio real do conjunto dos ocupados formais no Estado de São Paulo. Entre o ano 2000 e 2010, os valores deflacionados passaram de R$ 881,90 para R$ 972,40, o que representa um aumento de 10,2% em dez anos. "O aumento do salário mínimo tem influência direta nesse crescimento, já que ele tem maior impacto nos setores que pagam menos", diz Pochmann.

Segundo o estudo, a mudança no perfil do trabalhador terceirizado também afetou a média salarial real. "A terceirização perdeu força nos setores que exigem mão de obra menos qualificada, como na limpeza e segurança, e ganhou espaço em outros, como entre bancários e na indústria têxtil", afirma Pochmann.

Apesar do aumento nos salários, os terceirizados ainda estão longe de receber o que é pago aos demais trabalhadores - pelo menos em São Paulo. O salário médio real representou 53,6% da média recebida pelo conjunto de trabalhadores formais no Estado. Desde 1985, primeiro dado analisado pela pesquisa, 1994 foi o ano em que essa relação esteve mais favorável aos terceirizados: 55%
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domingo, 11 de abril de 2010

Transporte de passageiros no interior do RN: um mercado sem a presença regulamentadora do Estado

Uma boa reportagem, intitulada Falta de ônibus no interior dá margem à exploração, de autoria da jornalista Sara Vasconcelos, publicada na edição deste domingo do jornal TRIBUNA DO NORTE, dá conta do grave problema que é ausência de transportes públicos regulares entre muitos municípios do interior do Rio Grande do Norte e a capital. A reportagem, concluída com uma entrevista com Maristela Lopes de Sousa, do DNIT, trata de questões que deveriam merecer uma reflexão mais séria por todos que se preocupam com a questão do alargamento da cidadania nestas plagas. Dentre outras coisas, a matéria em tela aponta o alto custo financeiro e os sofrimentos dos que necessitam resolver problemas de urgência em Natal. Trata-se, enfim, de um bom apanhado sobre a lógica perversa que predomina no mercado de passageiros do interior do Estado.

Essa matéria poderia ser complementada com uma outra na qual se abordasse como a ausência de regulamentação e fiscalização séria por parte do Estado transformou esse mercado em um verdadeiro “território de ninguém”. A ausência de regulamentação levou a uma fragilização, quando não ao desaparecimento, das empresas regulares. No seu lugar, os “alternativos”. Estes, organizados em grupos que, não raro, têm fortes vínculos com políticos e autoridades locais, atuam, não raro, despeitando as legislações de trânsito, trabalhista e ambiental. Idosos, estudantes e portadores de necessidades especiais perdem direito a benefícios sociais, dado que os proprietários de vans sentem-se desobrigados de cumprir a lei.

Esse caso é revelador do caos para onde nos leva a ausência completa de regulamentação estatal. Por outro lado, indica também que mercados destituídos da presença regulamentadora do Estado sucumbem à força regulamentadora de “agentes informais” (situados numa zona gris entre a legalidade, a ilegalidade e o crime).

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Casamento e mercado

Ainda no terreno da sociologia do mercado, sugiro a leitura do texto Finding the Strength to Surrender Marriage, Market Theocracy and the Spirit of America, de autoria de Linda Kintz. Acesse o artigo aqui.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Uma boa notícia: a ANVISA enfrenta a indústria farmacêutica

A indústria farmacêutica, apoiada pelas agências publicitárias e pelas emissoras de rádio e TV, transformaram o comércio de remédios no Brasil nessa terra de ninguém onde tudo vale. Qualquer tentativa de regulação na área é imediatamente rechaçada. Mesmo a mais tímida das iniciativas governamentais, é sempre vista como uma terrível ameaça ao livre comércio e à liberdade de expressão. Nesse quadro, quando lemos notícias, como a que transcrevo partes abaixo, publicada hoje no jornal Folha de São Paulo, ficamos com a sensação de que, sim, podemos avançar no nosso processo de civilização. E, para sermos honestos, devemos reconhecer a coragem e disposição do Ministro José Gomes Temporão.

Anvisa aprova novas restrições a propaganda de medicamentos
Resolução determina a veiculação de mensagens de advertência específicas


ANGELA PINHO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

As propagandas de medicamentos terão que seguir regras mais rígidas daqui a seis meses.
Resolução aprovada pela diretoria colegiada da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) prevê restrições à distribuição de amostras grátis e determina a veiculação de mensagens de advertência específicas para cada substância em rádio, televisão e meios de comunicação impressos.
O anúncio oficial está marcado para hoje. Ele deve ser feito pelo presidente da agência reguladora, Dirceu Raposo de Mello, e pelo ministro José Gomes Temporão (Saúde), autor de estudos acadêmicos a respeito do assunto.
As amostras grátis terão que conter a dose recomendada na bula para um período inteiro de tratamento. Se o médico receitar, por exemplo, que o paciente use uma determinada pomada por 30 dias, a amostra grátis do medicamento não poderá servir, como acontece hoje, apenas para uma semana.
(...)
Será proibida propaganda de medicamento em programas dedicados ao público infantil.

Consulta pública
A resolução da Anvisa é fruto de uma proposta submetida a consulta pública em 2005. O principal objetivo era restringir a automedicação.
Pesquisa da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) mostra que, em 2006, foram registrados 32,8 mil casos de intoxicação por medicamentos no país, número 30% superior ao registrado no ano anterior.
O texto final deve desagradar a indústria farmacêutica, que defende a auto-regulamentação do setor.
(...)
As empresas que descumprirem as regras estarão sujeitas a penalidades que vão desde a obrigatoriedade de veicular uma mensagem para corrigir a propaganda errada até a suspensão da venda do produto, caso não haja retificação.

(...)


ASSINANTE UOL LÊ A MATÉRIA COMPLETA AQUI.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Sobre o mercado de drogas

Leia abaixo matéria de autoria do sempre muito antenado Wálter Fanganiello Maierovitch. Foi publicado no Magazine Terra (o blog mantido pelo competente jornalista Bob Fernandes). Trata da alta do preço da cocaína nos EUA.


Preço da cocaína aumentou 65% nos EUA, diz DEA
Wálter Fanganiello Maierovitch
Especial para Terra Magazine


Mais um fracasso do governo Bush. Os norte-americanos continuam os maiores consumidores mundiais da cocaína e a demanda e a oferta continuam inalteradas. Isto mostra que as políticas de prevenção e repressão, que eles insistem em querer impor aos demais países, continuam a não produzir resultados.

O preço da cocaína no mercado norte-americano teria aumentado 65%, entre janeiro de 2007 e setembro de 2008. A conclusão saiu de uma reunião ocorrida no último final de semana em Bogotá.

Dessa supracitada reunião participaram a diretora da fracassada e desvirtuada Drug Enforcement Agency (DEA), Michele Leonhart, o procurador geral de Justiça do México, Eduardo Medina Mora, e o ministro colombiano da defesa, Juan Manuel Santos.

Como se sabe, na militarizada política norte-americana de War on Drugs (Guerra às Drogas), a grande meta perseguida - que começou no governo Clinton e prosseguiu no de Bush - era a erradicação forçada das áreas de plantio da folha de coca, que é a matéria-prima para a confecção do cloridrato de cocaína.

Segundo os generais elaboradores da estratégia, à frente o ex-czar antidrogas da Casa Branca general Bary Maccfrey, com a redução da oferta do produto no mercado, em face das erradicações, o preço do cloridrato de cocaína aumentaria e a sua compra se tornaria inviável.

Por evidente, o simplismo da estratégia não preocupou os chefões da miríade de cartéis de refino na Região Andina. Eles promoveram a migração das áreas de cultivo e o fornecimento da matéria-prima (folha de coca) não se reduziu. As fotografias por satélite demonstram isso.

O Plan Colômbia, que privilegiou o derrame por aviões de herbicidas em tradicionais zonas cocalieras colombianas, resultou num "iraquiano" fracasso. E o atual Plan Mérida, que produz no México mais civis do que traficantes mortos e não resolveu o problema da corrupção nas polícias, já coloca o presidente Calderon na mira das organizações de proteção a direitos humanos.

No México, os cartéis toparam a guerra contra as forças do Exército. A medida do governo, consistente em desarmar as polícias por suspeitar que trabalhavam para os narcotraficantes, foi desastrada. Em muitas cidades a população não sai mais das suas casas depois do pôr-do-sol.

Para se ter idéia, hoje foi afastado o segundo homem do comando da Polícia Federal do México, Vitor Gerardo Garay. Como vice-diretor de uma polícia composta por 25 mil agentes, competia a Garay a repressão às drogas.

O afastamento de Garay das funções, bem como a suspensão de outros altos dirigentes de departamentos, decorreu de acusação de que ele estaria ligado a um dos cartéis de drogas e permitia, no aeroporto internacional da capital mexicana, o desembarque de aviões carregados de cocaína: a cocaína desembarcada no México seguiria para os EUA, por terra.

Só para lembrar, no final dos anos 90, o general Gutierrez Rebolo, czar antidrogas do México e representante do país nos foros da ONU e OEA, foi preso por se associar ao potente cartel de Tijuana. Sua atuação é mostrada no filme Traffic, campeão de bilheterias. Para o papel de Rebolo, conseguiu-se um sósia.: no filme, Rebolo morre, mas isto apenas decorreu de uma cautela, pois o mesmo ainda não estava definitivamente julgado, apesar de réu confesso.

Com efeito, mais uma vez, a direção da DEA não apresentou os dados que levaram à sua conclusão de aumento de 65% no preço da cocaína disponibilizada nos EUA. Essa agencia limitou-se a colher o referendo mexicano e colombiano, países parceiros na política da War on Drugs.

Por outro lado, a falta de credibilidade internacional da DEA é do tamanho da atual crise financeira. Seus agentes, a pretexto de auxiliar no combate às drogas ilícitas, realizam espionagem política, como ficou comprovado no Brasil, durante o governo FHC. Na Venezuela, e em razão de espionagem, o presidente Chavez expulsou os agentes da DEA e encerrou a "falsa" cooperação.

A suspensão da cooperação com a DEA também foi determinada pelo presidente boliviano Evo Morales, agora sujeito a retaliações, apesar de ter conseguido erradicar da região do Chapare áreas ilegais de cultivo, de modo a cumprir a promessa feita à comunidade internacional.

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Pano Rápido. Se a DEA quer inventar um aumento de preço para, no final do mandato de Bush, invocar o sucesso da estratégia da política de erradicação, o tiro saiu pela culatra. Nos EUA não caíram nem oferta e nem consumo. Se é assim, por que aumentou o preço?


Wálter Fanganiello Maierovitch é colunista da revista CartaCapital e presidente do Instituto Giovanni Falcone (www.ibgf.org.br).

Elmar Alvater e a crise



Elmar Alvater é um dos mais importantes pensadores contemporâneos. É díficil defini-lo do ponto de vista disciplinar. Economista? Sociólgo? Cientista Político? Bom, você escolhe. O importante é que ele tem produzido análises, digamos sociológicas, instigantes e provocadoras sobre a vida econômica. Leia aqui uma crítica feita por José Eli da Veiga a um de seus livros.

Bom, mas o que eu queria mesmo era chamar a atenção para uma matéria, publicada no Estadão, com um posicionamento dele a respeito da atual crise dos mercados.

"O mundo vive dois dramas: a crise financeira e a climática"
Para economista alemão, futuro do capitalismo está relacionado com combate ao aquecimento global

Márcia Vieira, RIO


Há 15 dias, a Agência Americana de Oceanos e Atmosfera soou o alarme: a temperatura no Ártico está 5°C acima da média, um recorde que demonstra uma forte diminuição do banco de gelo, provocada pelo aquecimento global. O fenômeno, divulgado em meio a crise econômica americana, preocupa o economista e cientista político alemão Elmar Altvater, de 70 anos. "Nenhum cientista imaginou aumento da temperatura nesse patamar. E todo mundo só fala da crise financeira", lamenta. Segundo ele, "o fenômeno é tão terrível quanto a questão econômica e ninguém está dando atenção", completa. Altvater está no Rio até amanhã para uma série de palestras.

Não que a crise não seja preocupante. Mas o professor de ciência política da Universidade Livre de Berlim e autor do livro O fim do capitalismo como nós o conhecemos, lançado em 2006, ainda sem edição no Brasil, defende que os governos e a sociedade tenham a mesma atenção com a crise climática. Altvater prega uma mudança radical na produção econômica e no estilo de vida moderno para reverter o aquecimento global. "Não há dúvida que precisamos nos adaptar rápido a um novo tipo de vida. O mundo vive dois dramas: a crise financeira e a crise climática. As duas estão interligadas", defende Altvater, um estudioso das relações entre economia e ecologia.

Ele defende um sistema de produção baseado no uso progressivo de energias alternativas, não poluentes, como a solar. "O que vai acontecer com o capitalismo depois desta crise ninguém sabe. Mas a única saída para a humanidade é o uso de energias renováveis." O etanol é uma das possibilidades. Altvater compartilha a opinião de uma corrente de ambientalistas que ataca o uso do etanol porque as plantações de cana-de-açúcar, beterraba, milho e trigo roubam espaço da produção de alimentos.

"Se continuarmos com estilo de vida com base no carro, se nossa arquitetura não se adaptar ao clima de cada região e se não reduzirmos o uso de energia, nosso futuro não será bom. São mudanças que se fazem ao longo de 30 anos. Mas só depende de nós. Nós somos os arquitetos do nosso futuro."

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Mais um artigo de Ricardo Abramovay.

Ricardo Abramovay, professor da FEA/USP, é um dos cientistas sociais mais criativos deste país. E, não menos importante, consegue se comunicar com o grande público. Escreve regularmente no jornal Valor Econômico. Seus artigos são imperdíveis. E ele, com generosidade, os disponibiliza em sua página. Leia aqui um dos últimos, intitulado "Resistências caem quando lucros aumenta".

sábado, 4 de outubro de 2008

Maconha, haxixe e o mercado

Para quem se preocupa em ir além da avaliação moral, a análise das transações que ocorrem no mercado de drogas ilegais é uma das temáticas mais espinhosas. Mas, nem por isso, menos excitantes. Como perscrutar os vetores institucionais desse mercado? quais os mecanismos de encaixe social desse mercado? Uma questão como essa demanda o manuseio de dados e informações as mais diversas. Além de uma certa coragem pessoal, o pesquisador dedicado ao tema deve se preparar para enfrentar tanto as ondas politicamente corretas quanto as suas co-irmãs, as patrulhas cada vez mais destrambelhadas dos neo-conservadores.

Pelo que foi dito acima, vale a pena, sempre, dar uma conferida em textos que nos ajudem a contextualizar um pouco os elementos em jogo no mercado de drogas. Assim, aproveito para propor-lhe a leitura do trecho abaixo:

“Grande parte do interesse público foi despertado pelos artigos de jornais que apareciam de vez em quando sobre os males do abuso da maconha, ou haxixe, e foi dada mais atenção do que a necessária a casos específicos relatados de abuso da droga. Essa publicidade tende a exagerar a extensão do mal e dá margem à conclusão de que há uma disseminação alarmante do uso impróprio da droga, enquanto o aumento real de ta uso pode não ter sido desordenadamente grande.”

Então, para você quem é o autor do texto acima? Não, não é do Gabeira, antes da sua conversão à companheiro de viagem dos demos e tucanos. É o Departamento do Tesouro americano, em um relatório de 1931. O título do documento é Traffic in Opium and Other Dangerous Drugs for the Year Ended December 31. E a citação acima foi tomada de empréstimo do livro “Uma teoria da ação coletiva”, de Howard S. Becker. Publicado há mais de três décadas no Brasil, com uma cuidadosa tradução feita por Márcia Bandeira de Mello Leite Nunes e revisão técnica de ninguém menos que o antropólogo Gilberto Velho, o livro é uma leitura formativa para estudantes de história, ciências sociais, direito e comunicação.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

1929 - o ano que não terminou...



Daqui a 27 dias completam 79 anos daquele fatídico dia. O dia do crash. Na foto acima, operadores da bolsa de Nova York naquele dia. Se você é chegado em numerologia ou joga na loteria, quem sabe, esses números não o inspirem. Aos defensores do liberalismo radical, ao que tudo indica, eles ensinaram pouco.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O mundo não vai acabar, sentencia Maria da Conceição Tavares.

Veja, abaixo, matéria publicada no Magazine Terra. Bom, bom, bom, não está não, mas tá bom. Então, se o mundo não vai acabar, vou aceitar convite do meu amigo Beto Hugo, esquecer o repouso pós-cirurgia, e tomar um bom vinho. Ninguém é de ferro, não é mesmo?


Maria da Conceição: "O mundo não vai acabar"
Diego Salmen

Segundo a economista Maria da Conceição Tavares, o mundo não vai acabar após a rejeição do Congresso norte-americano ao pacote de ajuda econômica. Em entrevista exclusiva a Terra Magazine, Maria da Conceição afirma que a crise vivida pelo capitalismo internacional está restrita, por ora, aos vizinhos do norte e ao continente europeu. E que, por isso, o apocalipse está distante.

- O mundo não vai acabar. A crise até agora está centrada nos Estados Unidos e na Europa.

Nesta terça-feira, 30, os mercados financeiros - Brasil incluso - abriram em alta depois de um conturbado início de semana nos mercados financeiros.

Cenário distinto da segunda-feira, 29, quando a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos rejeitou por 228 votos a 205 um conjunto de medidas econômicas estimado em US$ 700 bilhões para debelar a crise econômica no país. Reação "totalmente eleitoreira", na análise de Maria da Conceição.

Até mesmo os republicanos, partidários do presidente George W. Bush, foram contrários ao pacote. "Ele (George W. Bush) não é uma pessoa nada qualificada, e o que ele diz ou não diz não tem a menor importância", afirma a economista. "Ele efetivamente acabou como líder".

Maria da Conceição salienta que o poder de intervenção do Estado norte-americano não depende exclusivamente da aprovação do pacote de ajuda econômica.

"Em pânico, os caras se preveniram, antes mesmo de o pacote ser votado e do Wachovia (NR: banco que perdeu quase metade do seu valor de mercado em uma semana) ser comprado pelo Citigroup. Quer dizer, estão agindo rápido", diz. "Mas, evidentemente, isso não tira o pânico.

Leia a seguir a entrevista com Maria da Conceição Tavares:

Terra Magazine - O Congresso norte-americano rejeitou o pacote de ajuda econômica para a crise no país. O que deve acontecer agora?
Maria da Conceição Tavares - O mundo não vai acabar. Ontem já ocorreu uma deflação de ativos global, já perderam trilhões de dólares. Agora o Banco Central dos Estados Unidos e o Tesouro emprestaram mais dinheiro, e empurraram o Wachovia - que estava como um banco sólido, mas não está sólido, evidentemente - para o Citigroup. Aliás, os japoneses também entraram na jogada. Na Ásia o pau não foi o mesmo. A crise até agora está centrada nos Estados Unidos e na Europa.

A crise tem um efeito previsto já pelo próprio Karl Marx, de induzir à monopolização do sistema financeiro...
Está cada vez mais centralizado (o sistema financeiro). O fato, o que é óbvio, é que isso aí é uma coisa geográfica. A Ásia não pegou uma porrada tão grande. E os japoneses estão comprando o diabo. São bancos globais, então quando os EUA ficam de calça curta, o Japão, que tem muitas reservas e já superou sua própria crise bancária, vai às compras. Mas por enquanto está nessa gangorra; o que vai acontecer eu não sei. Objetivamente, o Banco Central americano já pôs US$ 450 bi, mais da metade do pacote. Claro, não iam ficar sem fazer nada, né?

Em pânico, os caras se preveniram, antes mesmo de o pacote ser votado e do Wachovia ser comprado pelo Citigroup. Quer dizer, estão agindo rápido. Mas evidentemente isso não tira o pânico.

E postura do presidente George W. Bush?
Ele não é uma pessoa nada qualificada, e o que ele diz ou não diz não tem a menor importância. Porque ele efetivamente acabou como líder e não tem mais política nos Estados Unidos, porque deram o azar de essa crise surgir no período eleitoral. Então a reação do Congresso é totalmente eleitoreira. Todo mundo está convencido de que o pacote é bom para os bancos, o que é verdade, e não resolve nada. Pode resolver, mas talvez não, enfim. É uma medida de emergência, de maneira que o Bush não tem liderança. Os Estados Unidos estão sem liderança política e as instituições bancárias deles estão muito mal. A crise americana é uma crise de mentira, no meu ponto de vista. (Os EUA) Vão pagar o preço. Da outra vez foi o Japão, agora serão eles.

Mudou o eixo...
Há uma multi-polaridade que está se convertendo numa perda cada vez maior da importância do centro americano.

Essa crise é fruto do processo de desregulamentação financeira iniciado na década de 1980, com o Consenso de Washington?
(risos) Claro, claro. Isso é resultado da política, como diz o candidato Obama. Quando se faz uma política desastrosa, o resultado é esse. Não se trata de um terremoto provocado pela natureza, não. O sistema bancário estava tão desregulado e fazia tais barbaridades, que na verdade já se chamavam de shadow banks, bancos das sombras. Eles alimentaram uma moda cheia de arapucas, e agora as arapucas estão atingindo bancos mais sólidos. O Wachovia era um banco comum, banco de depósito. Mas não agüentou. E aí como o Congresso fica paralisado, o Tesouro e o Banco Central tomam providências na hora. Eles estão o tempo inteiro para ver quem vai quebrar e antes que quebre, eles socorrem, está claro? Tanto o socorro global quanto o socorro caso a caso. Como todo dia tem ou dois casos, ou três, ou quatro...e os mercados mais ativos nessa brincadeira são Nova Iorque e Londres, que são os mais desregulados. Hong Kong, Tóquio, Seul não estão correndo riscos. Não é um sistema tão desregulado.

Uma das arapucas seria essa questão da alavancagem? (NR: grau de utilização de empréstimos em determinadas operações) Os bancos norte-americanos podem alavancar mais de dez vezes seu patrimônio líquido...
Dez vezes coisa nenhuma: 12 vezes é a tolerância para banco comercial, o sistema bancário é de 20 a 40 (vezes).

Isso é dinheiro que não existe.
Pois é. Não existe. O sujeito tomou empréstimo e comprou papéis que não existiam.

Terra Magazine

Michael Moore analisa a crise.




Não vou muito com a cara do cineasta Michael Moore. Acho o gordinho simpático, mas muito, muito demagogo demais para o meu gosto. E um tanto quanto maniqueísta. Entretanto, cultivo, neste blog, um certo pluralismo. Assim, coloco abaixo, em espanhol, artigo do dito cujo "analisando" a crise das bolsas. Ou, mais precisamente, a (não) aprovação da lei proposta por Bush, o pacote, para salvar o "mercado". Trata-se de matéria publicada no Página 12 de hoje. Vale a pena conferir!

Nos quieren meter miedo
Michael Moore

Todos decían que la ley sería aprobada. Los expertos del universo ya estaban haciendo reservas para celebrar en los mejores restaurantes de Manhattan. Los compradores personales en Dallas y Atlanta fueron despachados para hacer los primeros regalos de Navidad. Los Hombres Locos de Chicago y Miami estaban descorchando botellas y brindando entre ellos mucho antes del desayuno.

Pero lo que no sabían era que cientos de miles de estadounidenses se despertaron ayer a la mañana y decidieron que era tiempo de rebelarse. Los políticos no la vieron venir. Millones de llamadas telefónicas y correos electrónicos golpearon al Congreso tan fuerte como si Marshall Dillon (Comisario Dillon, personaje de una serie) y Elliot Ness hubieran descendido en Washington D.C. para detener los saqueos y arrestar a los ladrones.

La Corporación del Crimen del Siglo fue detenida por 228 votos contra 205. Fue raro e histórico; nadie podía recordar un momento cuando una ley apoyada por el presidente y el liderazgo de ambos partidos fuera derrotada. Eso nunca sucede. Mucha gente se está preguntando por qué el ala derecha del Partido Republicano se unió al ala izquierda del Partido Demócrata para votar en contra del robo. Cuarenta por ciento de los demócratas y dos tercios de los republicanos votaron en contra de la ley.

Esto es lo que sucedió:

La carrera presidencial puede estar todavía muy pareja en las encuestas, pero las carreras en el Congreso están señalando una victoria aplastante para los demócratas. Pocos discuten la predicción de que los republicanos van a recibir una paliza el 4 de noviembre. Hasta 30 bancas republicanas en la Cámara de Representantes se perderían en lo que sería un increíble repudio a su agenda. Los representantes del oficialismo tienen tanto miedo de perder sus bancas, que cuando apareció esta “crisis financiera” hace dos semanas, se dieron cuenta que habían entregado su única oportunidad de separarse de Bush antes de la elección, mientras hacían algo que los hiciera parecer como que estaban del lado de “la gente”.

Estaba mirando ayer C-Span, una de las mejores comedias que he visto en años. Ahí estaban, un republicano después de otro que habían apoyado la guerra y hundido al país en una deuda record, que habían votado para matar cualquier regulación que hubiera mantenido a Wall Street en control —¡ahí estaban, lamentándose y defendiendo al hombrecito común!—. Uno tras otro se pararon en el micrófono de la Cámara baja y tiraron a Bush bajo el ómnibus, bajo el tren (aunque habían votado por quitarles los subsidios a los trenes también), diablos, lo hubieran tirado bajo la aguas crecientes de Lower Ninth Ward (barrio de Nueva Orleans) si hubieran podido conjurar otro huracán.

Los 95 valientes demócratas que rompieron con Barney Frank y Chris Dodd era los héroes reales, igual a aquellos pocos que se pararon y votaron en contra de la guerra en octubre de 2002. Miren los comentarios de ayer de los republicanos Marcy Kaptur, Sheila Jackson Lee, y Dennis Kucinich. Dijeron la verdad. Los demócratas que votaron por el paquete lo hicieron en gran parte porque estaban temerosos de las amenazas de Wall Street, que si los ricos no recibían su dádiva, los mercados enloquecerían y entonces adiós a las pensiones que dependen de las acciones y adiós a los fondos de retiro. ¿Y adivinen qué? ¡Eso es exactamente lo que hizo Wall Street! La caída más grande de un solo día en el Dow en la historia de la Bolsa de Valores de Nueva York. Anoche los nuevos presentadores de televisión lo gritaban: ¡los estadounidenses acaban de perder 1,2 billón de dólares en la Bolsa! ¡Es el Pearl Harbour financiero! ¡Se cae el cielo! ¡Gripe aviar! Por supuesto, la gente cuerda sabe que nadie “perdió” nada ayer, que los valores suben y bajan y que esto también pasará porque lo ricos comprarán ahora que están bajos, los sostendrán, luego los venderán, y luego comprarán nuevamente cuando estén bajos. Pero por ahora, Wall Street y su brazo de propaganda (las redes y los medios que poseen) continuarán tratando de meternos miedo. Será más difícil conseguir un préstamo. Algunas personas perderán sus empleos. Una débil nación de peleles no durará mucho bajo esta tortura. ¿O sí podremos?

Esto es lo que creo: el liderazgo democrático en la Cámara baja esperaba secretamente todo el tiempo que esta pésima ley fracasara. Con las propuestas de Bush hechas añicos, los demócratas sabían que entonces podían escribir su propia ley que favorece al promedio de los estadounidenses y no al 10 por ciento más rico que está esperando otro lingote de oro. De manera que la pelota está en la manos de la oposición. El revólver de Wall Street todavía le apunta a la cabeza. Antes que den el próximo paso, déjenme decirle lo que los medios silenciaron mientras se debatía esta ley:

1. La ley de salvataje NO tiene provisiones para el llamado grupo de supervisión que iba a monitorear los gastos de Wall Street de los 700.000 millones;

2. NO consideraba multas, sanciones o prisión para ningún ejecutivo que pudiera robar algo del dinero del pueblo;

3. NO hizo nada para obligar a los bancos y a los prestamistas a reescribir las hipotecas del pueblo para evitar ejecuciones ¡Esta ley no hubiera detenido ni UNA ejecución!

4. En toda la legislación NO había nada ejecutable, usando palabras como “sugerido” cuando se referían a que se le devolviera el dinero del rescate al gobierno;

5. Más de 200 economistas escribieron al Congreso y dijeron que esta ley podría empeorar la “crisis financiera y causar aún MAS de una caída.

Es hora que nuestro lado establezca claramente las leyes que nosotros queremos pasar.

Traducción: Celita Doyhambéhére.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Artigo de Boaventura sobre a crise no mercado financeiro

Leia, abaixo, trechos de um artigo de autoria do sociólogo Boaventura de Sousa Santos. Publicado na edição de hoje do jornal Folha de São Paulo, o texto trata da atual crise que assola o mercado financeiro.

O impensável aconteceu
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS


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Esta não é a crise final do capitalismo e, mesmo se fosse, talvez a esquerda não soubesse o que fazer dela
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A PALAVRA não aparece na mídia dos EUA, mas é disso que se trata: nacionalização.
Perante as falências ocorridas, anunciadas ou iminentes de importantes bancos de investimento, das duas maiores sociedades hipotecárias do país e da maior seguradora do mundo, o governo federal norte-americano decidiu assumir o controle direto de uma parte importante do sistema financeiro.

A medida não é inédita. O governo interveio em outras crises profundas: 1792 (no mandato do primeiro presidente do país), 1907 (o papel central na resolução da crise coube ao grande banco de então, J.P. Morgan, hoje, Morgan Stanley, também em risco), 1929 (a Grande Depressão: em 1933, mil norte-americanos por dia perdiam suas casas para os bancos) e 1985 (crise das associações de poupança e empréstimo). O que é novo na intervenção em curso é sua magnitude e o fato de ela ocorrer ao fim de 30 anos de evangelização neoliberal conduzida com mão-de-ferro em nível global pelos EUA e pelas instituições financeiras por eles controladas, FMI e Banco Mundial: mercados livres e, porque livres, eficientes; privatizações; desregulamentação; Estado fora da economia, porque inerentemente corrupto e ineficiente; eliminação de restrições à acumulação de riqueza e à correspondente produção de miséria social.
(...)

À luz disso, o impensável aconteceu: o Estado deixou de ser o problema para voltar a ser a solução; cada país tem o direito de fazer prevalecer o que entende ser o interesse nacional contra os ditames da globalização; o mercado não é, por si, racional e eficiente, apenas sabe racionalizar a sua irracionalidade e ineficiência enquanto estas não atingem o nível de autodestruição.

Esta não é a crise final do capitalismo e, mesmo se fosse, talvez a esquerda não soubesse o que fazer dela, tão generalizada foi a sua conversão ao evangelho neoliberal. Muito continuará como dantes: o espírito individualista, egoísta e anti-social que anima o capitalismo; o fato de que a fatura das crises é sempre paga por quem nada contribuiu para elas, a esmagadora maioria dos cidadãos.
Mas muito mais mudará. Primeiro, o declínio dos EUA como potência mundial atinge novo patamar. O país acaba de ser vítima das armas de destruição financeira maciça com que agrediu tantos países nas últimas décadas e a decisão "soberana" de se defender foi afinal induzida pela pressão dos seus credores estrangeiros (sobretudo chineses) que ameaçaram com uma fuga que seria devastadora para o atual "american way of life".

Segundo, FMI e Banco Mundial deixaram de ter autoridade para impor suas receitas, pois sempre usaram como bitola uma economia que se revela fantasma. Daqui em diante, a primazia do interesse nacional pode ditar, por exemplo, taxas de juro subsidiadas para apoiar indústrias em perigo (como as que o Congresso dos EUA acaba de aprovar para o setor automotivo).
(...)
Terceiro, as políticas de privatização da segurança social ficam desacreditadas: é eticamente monstruoso acumular lucros fabulosos com o dinheiro de milhões de trabalhadores humildes e abandonar estes à sua sorte quando a especulação dá errado.
Quarto, o Estado que regressa como solução é o mesmo que foi moral e institucionalmente destruído pelo neoliberalismo, o qual tudo fez para que sua profecia se cumprisse: transformar o Estado num antro de corrupção. Isso significa que, se o Estado não for profundamente reformado e democratizado, em breve será, agora, sim, um problema sem solução.
Quinto, as mudanças na globalização hegemônica vão provocar mudanças na globalização dos movimentos sociais e vão certamente refletir-se no Fórum Social Mundial: a nova centralidade das lutas nacionais e regionais; as relações com Estados e partidos progressistas e as lutas pela refundação democrática do Estado; as contradições entre classes nacionais e transnacionais e as políticas de alianças.

BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, 67, sociólogo português, é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal). É autor, entre outros livros, de "Para uma Revolução Democrática da Justiça" (Cortez, 2007).

Assinante UOL lê o artigo completo aqui.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

As descobertas de petróleo e a briga de cachorros grandes

Você tem acompanhado a discussão sobre as descobertas petroliféras no litoral sul do Brasil? Tem alguma posição sobre a criação ou não de uma nova empresa estatal para tratar dessa nova área de exploração? Bom, esse não é um debate qualquer. Ele diz muito sobre o que nós queremos ser quando crescermos, para usar aqui um velho e surrado lugar-comum. Então, para início de conversa, é bom ir se acostumando aí com informações sobre o pré-sal (saiba mais sobre o Campo de Tupi e o pré-sal aqui) e sobre o que está por trás da discussão sobre a criação de uma nova estatal. É briga de cachorro grande, pode apostar. Então, não podemos ficar a ver navios, como se diz em terras d'além mar, não é mesmo? Passo, então, a partir de agora, a coloar alguns links com posições de atores sociais e políticos os mais diversos. Vamos lá?

Bueno, você pode começar sabendo o que pensa a respeito o ex-ministro Palocci. Em artigo, publicado no site do PT, o atual deputado defende uma posição que tem crescido em determinados setores do Governo Lula. Acesse o artigo aqui. Siga adiante e veja o que pensa um dos diretores da Casa das Garças, um think tank tucano, em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo. Leia-o aqui. Se ainda tiver disposição, então leia uma entrevista do Beluzzo, publicada no Estadão de ontem. Eu coloco aqui o link para a entrevista no Jornal da Ciência. Por dois motivos: não conseguiu localizar o artigo no jornal paulista e, não menos importante, porque, quem sabe, você não passa a se tornar um eleitor assíduo dessa ótima publicação eletrônica (o JC).

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O etanol brasileiro e o mercado internacional na ótica da NSE

O Professor Ricardo Abramovay, generosamente, disponibiliza em sua página na internet artigos publicados na imprensa diária e em periódicos. Professor da FEA/USP, Abramovay é um dos mais importantes cientistas sociais brasileiros da atualidade. Suas pesquisas sobre o rural brasileiro são conhecidas pelo público da área. Nos últimos anos tem incorporado fortemente os aportes da Nova Sociologia Econômica às suas análises. Neste post, destaco, pela importância do assunto, artigo por ele publicado no jornal Valor Econômico. Intitulado "A construção política das instituições de mercado", o texto trata basicamente procura responder à seguinte questão: "Como explicar a tão forte oposição internacional ao etanol brasileiro?". Leia-o aqui.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Amor, sexo e dinheiro segundo a NSE

A nova sociologia econômica (NSE) tem sido um dos mais férteis movimentos teóricos da sociologia nos últimos anos. Investigações singulares têm sido desenvolvidas ancoradas em suas contribuições teóricas. Das redes criminosas ao mercado de serviços sexuais, passando pela construção social do consumo do vinho, é vasta a possibilidade de aplicação dos insights da NSE. Há algum tempo, publiquei artigo na revista Política & Sociedade sobre turismo e mercado do sexo no qual busquei incorporar alguns dos aportes da NSE. Leia aqui o meu artigo.