segunda-feira, 13 de outubro de 2014

SOBRE AS ELEIÇÕES: até aqui, tudo "normal"...

Está dura a disputa? O nível tá ruim? É da vida, é da disputa... E se temos uma cultura política marcada pelo maniqueísmo, pelas oposições irredutíveis, não iria ser agora que as coisas iriam ser diferente, não é?

O interessante, para quem se dispõe a pensar a gramática social brasileira mais profunda, é o fato de que as matrizes discursivas que vão se revelando nos discursos que proliferam nas propagandas televisivas, nas redes e.. nos botecos e padarias nos remetem a algo que nos parecia em derrocada. Temos antipolítica, mas também a velha ojeriza ao universo dos que Florestan Fernandes denominava como "os de baixo". Claro!, o enviesamento eleitoral joga nuvens de fumaça que quase nos impedem de ver as figuras reais... Mas aí estão os nossos fantasmas de sempre a espreitar...

Então, pensando com mais objetividade, está tudo muito "normal". E entenda-se por "normal" estarmos em um país onde a distinção social e o reconhecimento estão subordinados às clivagens de hierarquias que apenas na superfície (eu diria que apenas na maquiagem e no perfume) assentam-se na meritocracia.

Há quem critique a meritocracia entre nós, e até esbraveje contra a sua entronização, que estaria a ocorrer... Para o bem e para o mal (e mais para o mal, acho), ainda não chegamos lá. Claro!, há a ideologia meritocrática... Mas, vejam só as críticas à suposta lusofonia do CIÊNCIA SEM FRONTEIRAS (viram a matéria no jornal VALOR ECONÔMICO de alguns domingos atrás?), elas mal encobrem o mal-estar com o rearranjo (ainda que tão pouco profundo, em que pesem as propagandas eleitorais...) na corrida pela cenoura no mundo universitário brasileiro.

E aí voltamos ao rame-rame... "Sabe com quem está falando?" Essa arenga sempre teve a sua contra-face, não é? E essa é: "Quem é você para falar alguma coisa?". Daí que colocar o mundo em suspensão, em questionamento, mesmo que na margem, é sempre muito custoso nestas plagas.

A matriz cristã tradicional, que embasa o discurso do PT em relação ao social, garante apenas um dique, pequeno, contra o "ponha-se no seu lugar" da nossa entranhada subcidadania. Até porque, para ficar nesse terreno, o reconhecimento possibilitado por essa matriz à "ralé estrutural"(copyright Jessé Sousa) é sempre ao "pobre". "Os pobres agora podem", dizem-nos. Os seus filhos até "chegam lá". Não é a matriz republicana (fantasia que  acalenta a vida e os sonhos  dos "de baixo" no welfare-state mais ao norte do planeta) que se projeta aí. Ela nem está na disputa. Ou pior, quando adentra, no discurso mais à direita, é para negar o fosso social que nos divide.

Não deixa de ser sintomática a propaganda do Aécio nesse quesito: o PT estaria dividindo o Brasil. Essa cantilena é tão velha quanto a brilhantina Glostora... O problema é exatamente o oposto, diria um cândido crítico: é que o PT não foi (ou não pode ir) mais fundo na explicitação dessa divisão. O seu custo (o custo de tocar nesse crescente tumor) , como disse é altíssimo. Basta pensarmos que até o presente momento ainda não tivemos completada a regulação dos direitos das empregadas domésticas...

Por falar em domésticas, lembrei-me de uma narrativa de Paul Rabinow, que pode ser mobilizada porque mexe com algo tão enraizada socialmente entre nós. Ele nos conta sobre um encontro com uma cientista social brasileira, de uma universidade renomada que eu não vou citar (nem tentem me pedir para faze-lo!), que ocorreu no apartamento da dita cuja em uma noite de final de semana. Enquanto a nossa colega dissertava sobre as vicissitudes do arsenal teórico de Pierre Bourdieu para analisar a dominação no Brasil, sua diligente empregada, certamente depois de ter trabalhado todo o dia, servia a mesa e atendia os pedidos da bourdieusiana.

Tem também uma antropóloga britânica (ou será jornalista, meu Deus?) que nos fala dos quartos de empregada nos edifícios do Rio de Janeiro. Ela explicita a sua sensação de desconforto com a violência arquitetônica naturalizada da "Cidade Maravilhosa". E tudo é tão natural que até o seu amigo inglês, residente no país há alguns anos, fala que o fato é encarado com... naturalidade. E quem diabos se incomoda com o fato social expressivo que é a condenação de milhares de mulheres a viverem parte de suas vidas em cubículos situados bem ao lado de onde "todos nós vivemos"?

Por isso, acho que estas eleições estão, finalmente, mostrando o Brasil "normal". E quem teve a sensibilidade de perceber isso, no twitter, foi o Luiz Bresser-Pereira: "No final, voltamos ao "normal": os ricos contra os pobres, os conservadores contra os progressistas, a razão das elites contra a utopia."

Normal, tudo muito normal.

domingo, 17 de agosto de 2014

Uma oportunidade perdida: a matéria do suplemento do VALOR sobre o ensino superior

Sofrível. Ou, para ser mais generoso, uma oportunidade perdida. Refiro-me à matéria de capa do suplemento EU & FIM DE SEMANA do jornal VALOR ECONÔMICO. Intitulado “Superior, mas nem tanto”, o texto ambiciona fazer uma apresentação panorâmica dos desafios colocados para o ensino superior brasileiro. Pauta legal! Mais do que atual, registre-se.

Infelizmente, o autor, Eduardo Belo, escolheu o caminho mais fácil e, aparentemente seguro, ouvir alguns medalhões  (dentre eles, nada menos que três ex-reitores da USP) e uns três ou quatro especialistas, também ancorados em São Paulo (Simon Swartzman, Naércio Menezes e Renato Janine Ribeiro. O resultado não poderia ser pior: uma caricatura das caricaturas das críticas caricaturais da política de expansão do ensino superior brasileiro. Tivesse odor, o jornal cheiraria a mofo.

Entre preconceitos e boutades, alguns gráficos comparativos do desempenho das universidades brasileiras em relação aos países do norte e aos brics. Estes dados, de resto, são as coisas mais interessantes. Voltando às boutades, tem uma impagável (mas, sei bem, pode ser reproduzida como verdade nos cafés da Praça Vilaboim), emitida pelo Goldemberg a respeito do Programa CIÊNCIA SEM FRONTEIRAS. Vou citá-la:  “segundo ele, os estudantes não dominam outros idiomas e, em boa parte, acabam se concentrando em Portugal”. Aí nem o jornalista agüentou e esclareceu num envergonhado parêntese: “A página do programa  na internet mostra que Portugal conta hoje com 623 bolsistas brasileiros do Ciência Sem Fronteiras,  enquanto na Alemanha são 2.318 e nos Estados Unidos, 10.837)”. God Save Goldemberg!


Inacreditável! O incauto que se encantar com a capa do suplemento do VALOR, de resto sempre um bom jornal, vai comprar gato por lebre. Em meio a platitudes, das quais nem um cara sempre crítico e atilado como o Janine escapa, a gente fica se perguntando (e se amedrontando, pois, no fundo já sabemos a resposta) sobre o enraizamento social de visões tão empobrecidas e superficiais sobre a Universidade brasileira, especialmente sobre as IFES. Se gente que se diz especialista e que já foi gestor, tem esse tipo de apreensão das coisas, o que pensará o eleitor médio (existe?) do, sei lá!, Tucuruvi? 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A ciência política e o PT

Uma abordagem  crítica e provocativa sobre o significado político do PT para a democracia brasileira. Vale a pena conferir!

Da democracia participativa à pluralidade da representação: breves notas sobre a odisseia do PT na política e na ciência política brasileira*


Bruno P. W. Reis
Professor do Departamento de Ciência Política da UFMG, pesquisador do CNPq. <brunoreis@ufmg.br>

Participação e representação: uma preliminar conceitual
Houve tempo em que a esquerda rejeitava o valor, senão a própria ideia, da "democracia representativa". À medida que preservava o protagonismo de uma elite política, a representação não poderia ser compatível com uma democracia, se fôssemos devidamente rigorosos quanto à acepção do termo. No mínimo, ela produzia uma democracia manca, pouco democrática no fim das contas, particularmente quando contrastada com o valor e a presumível autenticidade da "democracia participativa".1 Já analisei este tema em outro trabalho (Reis e Bueno, 2006), não vou retomá-lo aqui longamente. Mas a remissão a ele é importante para dar perspectiva a um esforço de diagnóstico do processo de pluralização dos meios de representação política no Brasil recente, propósito deste trabalho.

Talvez o próprio conceito de "participação política" seja mais polissêmico do que nossa intuição (informada por nossas inclinações ideológicas) sugere. Afinal, o que fazer com uma ideia que abre um guarda-chuva tão extenso sobre coisas tão diversas quanto votar, frequentar associações, comparecer a comícios, difundir opiniões na internet, assinar manifestos, filiar-se a partidos, ir a passeatas, militar em sindicatos, aderir a boicotes, candidatar-se em eleições, resistir em barricadas, doar dinheiro a candidatos, voluntariar-se em ONGs, panfletar em campanhas e, talvez, explodir algumas bombas?

É inevitável que o esforço de teorização sobre participação acabe desdobrando-se em tópicos mais específicos, já que cada uma de suas várias manifestações pode ter efeitos - e causas - muito variados, e dificilmente conseguimos obter rendimento analítico e teórico de sua apreensão global, para além da idealização participativista.

Sim, claro. Participação política, desde que não violenta, é direito de todos e não cabe menoscabá-lo ou fazer pouco dele, como se as pessoas melhor fizessem se não aborrecessem os políticos e fossem cuidar de seus afazeres particulares. Nada disso. Dado esse direito, cabe a cada cidadão decidir o uso que quer dar a ele - e cabe às instituições, e à elite política, não apenas proteger esse direito, mas propiciar meios suficientemente diversificados para seu pleno exercício, e tomar as providências devidas para dar-lhe consequência. De fato, isso torna fúteis eventuais diagnósticos de "excesso de demandas" num sistema político, tais como os que apareceram de maneira célebre em Crozier, Huntington e Watanuki (1975): concretamente, o volume de demandas é um dado, e será aquele que resultar da agregação das eventuais demandas a emergir na população. O esforço de contê-las será mero "represamento", temporário, e tenderá a resultar em violência, numa direção ou noutra.
No entanto, para além dessa afirmação de princípio, de caráter normativo, é difícil propor generalizações empíricas que possam recorrer, indistintamente, ao rótulo genérico da "participação política". Mais difícil ainda é sustentar uma contraposição de definições entre participação e representação. Afinal, como bem apontou Plotke (1997: 19, apud Reis e Bueno, 2006), o oposto da representação não é a participação, é a exclusão; o oposto da participação é a abstenção. A contraposição só é compreensível pela operação de um contraste intuitivo entre uma política hierárquica (dita representativa) e outra estritamente igualitária, não hierárquica (por hipótese, participativa).

Várias manifestações tópicas da participação, mesmo quando não se referem à participação eleitoral, quase sempre revelam uma estrutura relacional que envolverá, fatalmente, representação de interesses (materiais ou ideais) por terceiros. E as redes mobilizadas na participação política frequentemente envolverão topologia hierárquica - até pela distribuição não aleatória dos vínculos entre os vários nódulos da rede (Barabási, 2002).

A ubiquidade das hierarquias não deixou de ser apontada recorrentemente e, de maneira clássica, pelos assim chamados (não sem ambiguidade) "elitistas" de um século
atrás, como Mosca (1896), Michels (1911), Pareto (1916) e, mais notoriamente que eles, por Max Weber (1925). No entanto, a ambiguidade a que me referi não esteve presente só no nome que a posteridade deu àquela literatura: além de escrever sobre elites, e ocasionalmente postular a inamovibilidade da existência de posições de elite na política, seu fatalismo frequentemente levou-os (principalmente Mosca e Michels) a um desdém pela democracia que se mostraria intolerável para as gerações que viveram depois dos horrores da Segunda Guerra.

Mas, como se sabe, essa mesma adesão traumática ao regime democrático conduziu a teoria política liberal do Pós-Guerra a certa complacência pragmaticamente resignada quanto à viabilidade do ideal democrático: um governo do povo, pelo povo, para o povo. Este converteu-se, na melhor das hipóteses, numa ideia valorativa norteadora (Dahl, 1971) ou então foi abertamente renegado (Schumpeter, 1942, cap. XXI). Enquanto a Guerra Fria durou, a esquerda tendeu a distanciar-se desse fatalismo moderado. E um de seus motes favoritos nessa empreitada foi o elogio à participação, contraposto à denúncia da hierarquia embutida na natureza representativa do regime.

PT e petismo na política brasileira: quando novas elites entram em cena
A agitação política e cultural dos anos 1960 trouxe os movimentos sociais para o proscênio, intensificando a aposta na participação - principalmente quando ela ocorria à margem do sistema formal de representação eleitoral: "de costas para o estado, longe do parlamento", era o slogan dessa tendência por volta de 1980 (Evers, 1983).

Nesse caldo de cultura, formou-se o PT, no início da década de 1980. Porém, em vez de nos perdermos em considerações ideológicas de natureza doutrinária ou programática, de conexão sempre duvidosa com a prática dos partidos e de seus governos, proponho ir ao encalço de uma caracterização antes sociológica para o caso do PT, o que me parece bem mais fácil - e consistentemente mais relevante para a sua prática.

Fundamentalmente, o PT constituiu-se como um partido outsider em relação ao sistema político-institucional estritamente considerado. Com origem extraparlamentar, constituiu-se, em sua origem, a partir de três bases fundamentais:
1. uma poderosa base sindical no núcleo duro da indústria brasileira (os metalúrgicos do ABC paulista), que rapidamente ramificou-se rumo a um associativismo civil mais amplo, incluindo o virtual controle dos sindicatos e das associações de servidores públicos;
2. uma considerável capilarização Brasil afora, favorecida pela adesão (ou mera simpatia) dos setores politicamente mais engajados da Igreja católica, agrupados em torno da então relativamente influente Teologia da libertação, ocasionalmente mobilizados nas chamadas comunidades eclesiais de base; e ainda,
3. uma militância civil, que nas grandes cidades reuniu estudantes universitários, intelectuais e mesmo alguns remanescentes dos pequenos grupos armados que haviam confrontado a ditadura militar nos anos 1970.
Naturalmente, outros partidos de esquerda, antes do PT, já haviam também se constituído externamente ao parlamento e ao sistema político formal no Brasil, com inserção sindical e militância civil. O precedente mais óbvio deu-se no caso do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Faltara contudo, a este último, o endosso, mesmo que parcial, da Igreja - e, qualquer que seja a razão, a começar por sua proscrição legal, em 1947, o PCB jamais pôde disputar eleições com o mesmo apetite, que dirá lograr o mesmo sucesso eleitoral que o PT.

Esse sucesso eleitoral, conquistado paulatinamente a partir de prefeituras de cidades médias rumo às das capitais, dali para o governo de alguns estados e finalmente a Presidência da República em pouco mais de 20 anos, significou em si mesmo - dada a condição outsider do partido - a promoção de novas elites políticas. Seja na Presidência da República, seja nos governos dos estados, mas de maneira ainda mais nítida nas prefeituras municipais por sua disseminação, a ascensão do PT ao poder terminou por produzir inovações institucionais que se configuraram, de maneira um tanto irônica, não apenas pela multiplicação das instâncias de representação política, mas sobretudo pela promoção de novos protagonistas. Negros, jovens, mulheres, homossexuais, sem-teto, ambientalistas, sem-terra, indígenas, uma vasta miríade de movimentos de "minorias" de todo tipo tendeu, ao longo dos anos 1980 e 1990, a convergir com os sindicatos rumo ao petismo, e plasmou no PT a sua identidade partidária típica. E onde pôde - da Prefeitura de Diadema ao Palácio do Planalto - , o PT tratou de criar os espaços necessários para abrigá-los no sistema político formal: embora a proliferação de conselhos já fosse uma tendência identificável na transição desde meados dos anos 1980, essa tendência se acelera e a presença de representantes da "sociedade civil" intensifica-se sob administrações petistas (Machado 2007).

É natural que tenha sido assim. Pode-se conjecturar que, ao chegarem ao poder, petistas eleitos tenham tendido a encontrar os nichos de representação política, formulação de políticas e tomada de decisões ocupados por seus adversários. Não me refiro a assentos parlamentares apenas, mas principalmente aos chamados "anéis burocráticos" que ligam informalmente Estado e burguesia, e cuja operação, no governo federal, Fernando Henrique Cardoso (1973) descreveu de maneira célebre durante o regime militar. Num cenário como esse, é natural que o novo detentor do poder crie espaços que promovam a representação dos seus aliados na sociedade - e é irresistível que isso se dê quando esses aliados já se encontrem organizados em associações civis. Eles irão exigir do novo governo a criação desses espaços.

Nesse aspecto particular, a experiência do PT não se distingue, em seus traços fundamentais, daquilo que se observou com a ascensão política de seus congêneres social-democratas em vários países europeus, quase um século antes. Também ali, partidos de esquerda, com forte base sindical, ao chegarem ao poder constituíram instâncias decisórias e/ou consultivas com a participação institucionalizada de sua base orgânica (Offe, 1985). De fato, a presença de arranjos corporativistas de intermediação institucional de interesses talvez tenha sido o principal legado político da experiência social-democrata na Europa (B. Reis 1995). Penso que podemos, sem problema, diagnosticar ambos os casos como formas variantes de representação corporativista. Embora se distingam do macrocorporativismo que costuma designar as centralizadas instâncias de negociação tripartite da experiência europeia, as inovações institucionais observadas no Brasil também registram a incorporação de novos atores organizados em associações civis - tipicamente aliadas, no caso brasileiro, do PT (Gurza Lavalle et alii, 2004).

Presumo que não faltarão puristas que queiram desqualificar a experiência como mera cooptação de lideranças civis por elites partidárias ou governos. Contudo, essa é sempre uma via de mão dupla. Lideranças civis tentarão emplacar suas demandas na forma de políticas públicas; e governos tentarão respaldar sua posição pela cristalização de apoio organizado na sociedade. As eventuais alianças que emergirem nesse processo são parte do jogo político, e aliás são um sintoma de vitalidade do sistema político, na medida em que possam ser tomadas como indicador de seu enraizamento social. Aquilo que a oposição chama de cooptação, os presumíveis cooptados poderão chamar de "conquista", pela concretização de uma legítima demanda por um governo que lhes parecerá sensível a suas aspirações, e portanto um aliado a quem desejarão apoiar.2 A presumível "cooptação" termina por se mostrar, principalmente em prazo mais longo, como uma natural - e saudável - corresponsabilização dos atores civis pelas políticas pelas quais eles tenham lutado (Offe, 1985). A dificuldade de assimilar com naturalidade este argumento banal é um dos sintomas da fragilidade da idealização horizontal da "democracia participativa" quando tomada em oposição a uma outra democracia, dita "representativa".

Não foi por acaso que o "orçamento participativo" (OP) obteve tanta visibilidade acadêmica, pois, se a analogia entre os nossos conselhos de políticas públicas e os arranjos corporativistas europeus é bastante intuitiva, o OP apareceu como experiência menos orgânica, de um ponto de vista corporativo, do repertório de inovações que se disseminaram com o PT, apoiada na livre participação das pessoas em assembleias dedicadas a decidir sobre prioridades orçamentárias, e tendeu a ser tomado (desde o seu próprio nome) como exemplo de experimento estritamente "participativo" - em contraste ostensivo com a natureza dita representativa do sistema político formal. Naturalmente, a experiência rapidamente afastou-se do espontaneísmo implícito no ideal participativo, e adotou (teve de adotar, como poderia predizer Max Weber) sua própria rotina administrativa. Com variações próprias em cada caso, observou-se sempre a formação de uma burocracia vinculada ao OP, com pessoal especializado e conselhos ou comissões ad hoc, sob a alçada do Poder Executivo municipal. Do ponto de vista do presente trabalho, porém, nem é isso o que mais importa. Até mesmo o OP tem seu principal valor não na mera ampliação da participação, mas sobretudo na provisão de uma nova instância de representação de uma parcela da população até ali ausente do processo de alocação orçamentária.

Prova de que a participação, em si mesma, não é o principal valor em jogo obtém-se de modo claro no experimento do orçamento participativo digital (OP digital), levado a cabo há alguns anos em Belo Horizonte, a partir de 2006. Ali permitiu-se a qualquer cidadão com acesso a internet votar na priorização de obras nas várias regiões administrativas da cidade. Se o critério relevante no OP fosse a participação direta, o OP digital teria sido um êxito incontestável, pois o número de votantes cresceu expressivamente em relação às assembleias do OP em anos anteriores. O número de votantes on-line girou em torno de 200 mil a cada ano, enquanto o número de participantes nas assembleias do OP nunca chegou a 45 mil/ano.3 

No entanto, independentemente de graves contestações quanto à segurança e à confiabilidade do processo de votação on-line adotado (Guimarães, 2010), ficou evidente um efeito de elitização relativa do OP digital, insuficientemente contrabalançado pela possibilidade de se votar também por telefone (Nabuco et alii, 2009: 151). O público das assembleias "presenciais" do OP tradicional era mais pobre que o internauta médio que terá chegado a votar no OP digital. Alguém ainda poderia alegar que as assembleias do OP produzem uma amostra mais distorcida da população de Belo Horizonte que o universo de votantes no OP digital. Mas, exatamente por isso, o episódio explicitou a justificativa que pode realmente validar o OP: não a constituição de um canal para a manifestação espontânea (não mediada politicamente) da população, mas sim a abertura de uma possibilidade de manifestação para parcelas específicas da população, habitantes das vilas e das comunidades mais pobres, que presumivelmente enfrentariam particulares dificuldades para se fazerem ouvir no processo de deliberação orçamentária.

Um ideal de democracia participativa privilegiaria, presumivelmente, o orçamento participativo; mas o orçamento participativo digital é mais relevante, sobretudo nas condições brasileiras, e estou convencido de que foi ela que moveu o petismo rumo às suas inovações. Aludir a um ideal participativo, ideologicamente "neutro", poderá ter sido, talvez, uma racionalização proveitosa, com sabor universalista, de um compromisso de classe específico - ainda mais em tempos dados a eufemismos "politicamente corretos".
(...)

Leia o texto integral aqui.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Barbies ou Fabianes?

A internet potencializa o melhor e o pior de todos nós. Em sociedades nas quais a cidadania incompleta e a fragilidade dos espaços públicos marcam a vida social, a rede mundial de computadores tanto enriquece as redes de sociabilidade e alarga o debate público quanto pode projetar, em níveis inimagináveis, a intolerância, a discriminação e o linchamento simbólico daqueles considerados socialmente indesejáveis.

As reproduções irrefletidas de notas produzidas por blogs não muito atentos às suas fontes, ou que tudo fazem por um pouco de audiência, contribui para que a internet, assim como o rádio e a TV, seja um espaço para temerários “justiceiros”.

Não se trata aqui de coisa de menor importância. Os assassinatos físicos, não raramente, são desdobramentos de mortes sociais.

A exposição irresponsável de apenas uma das muitas versões sobre acontecimentos ou atitudes de pessoas é uma dessas formas de mortes sociais proporcionadas pelas redes sociais.
Foi uma notícia  que detonou a histeria da qual resultou a morte da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, linchada no Guarujá, depois que uma página no Facebook divulgou irresponsavelmente um falso retrato-falado de uma seqüestradora de crianças .

No RN, nestes dias, jornais e blogs reproduzidos à exaustão nas redes sociais, alimentam um linchamento virtual do qual são vítimas mulheres de uma mesma família. Elas foram expostas, suas intimidades devassadas e ilações sobre supostas atividades criminosas construídas e divulgadas tendo por base acusações vagas e imprecisas. As suas vozes não aparecem, mas os seus rostos e corpos, sim.

Machismo, moralismo barato, ressentimento e ódio à beleza fermentam esse linchamento em andamento. Pessoas boas, que se auto-intitulam “do bem”, e que, sem duvida, condenaram o linchamento de Fabiane, estão agora a jogar pedras virtuais em pessoas que, para serem desumanizadas, foram pejorativamente identificadas como “Barbies”.  

Esse machismo, versão cruel da dominação masculina no Nordeste do Brasil, não é produto, diga-se de passagem, apenas da ação de homens. Sua força reside no fato de contar com a adesão cúmplice de muitas mulheres.

Há também o preconceito contra mulheres bonitas oriundas das classes populares. Nos esquemas da dominação masculina vigente nestas plagas, cabe a elas somente um papel passivo. No máximo, um casamento cinzento com algum filhinho de painho... Se elas vão a luta e assumem, nos nossos limitados espaços públicos, as suas belezas e as suas feminilidades, então, estarão, a priori, condenadas.

Forjam-se narrativas sobre prostituição, como se a prática fosse, em si mesmo, criminosa. Mas, sabemos todos, embora não seja fácil de tipificar juridicamente como crime, a prostituição é como pano vermelho que enfurece o touro para todos os moralistas, de ocasião ou de bolso. E mesmo quem, na noite, escorrega para um próstibulo, ou, na internet, é usuário contumaz de pornografia, nessas horas, ergue-se indignado para participar do linchamento.


Mais do que almas fraturadas, esse tipo de linchamento virtual  é cruel e poderoso pelos desdobramentos em violência física que pode se expressar, como vimos no caso de Fabiane. Também explicita a capacidade que as boas pessoas têm em fazer o MAL.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Os xingamentos contra Dilma na Arena Itaquera e a cara da nossa elite educada

Os preços dos ingressos para o jogo de abertura da Copa na Arena Itaquera (Itaquerão) foram uma espécie de triagem prévia, garantiram o lugar quase exclusivamente para os membros da nossa elite bem educada. E essa gente não se furtou ao seu encontro com a história. No Itaquerão, demonstrou toda a sua elevada civilidade, berrando xingamentos contra a Presidente Dilma. Os seus melhores filhos não se limitaram a vaiar, o que seria aceitável e até esperado, pois, no Brasil, vai-se até minuto de silêncio, mas, a xingar, de forma chula, a Presidenta.

Não vou reproduzir aqui as palavras de ordem dessa gente educada, que se acha superior  aos mal-educados das distantes periferias. Não! Não me dou a esse tipo de desfrute. Mas, permito-me meditar se essa baixaria, que diminuiu não a Presidenta, mas aqueles e aquelas que a protagonizaram, não é a mais perfeita expressão de que a oposição aos governos do PT, por incompetência de formular projetos, tornou-se refém de um ódio irracional que somente amedronta a quem poderia ser ganho por projetos consistentes e críticas minimamente objetivas e circunstanciadas. E espaço para estas últimas, repitamos o óbvio, há de sobra.

Quando o  ódio domina a disputa política, a própria política é dinamitada enquanto tal. E tudo pode acontecer. E quando tudo pode acontecer, você sabe, acontece sempre o pior. O desrespeito à figura da Presidenta da República é uma vileza, uma baixaria típica de trolls. Dominados pela ódio, agarrados às suas verdades perfeitas, embaladas em poucas verdades e muita mistificação, os xingadores do Itaquerão podem ter um resultado cujo efeito é contrário ao pretendido: o medo dos que ainda não esqueceram que a conquista de um espaço público na sociedade brasileira só ocorreu a partir de muita luta.

As reações de Aécio e Eduardo Campos aos xingamentos mostram o empobrecimento da disputa política que se avizinha. Os candidatos da oposição poderiam ter se mostrado superiores, mas preferiram alguns minutos de enlace com os trolls. Apequenaram-se.

Gostaria muito de saber o que a boa gente da Rede,  gente com a qual tenho muita afinidade pessoal e política, dirá da cafajestada que foi o posicionamento do seu candidato. Se estes se mantiverem silentes ou, o que seria pior, de acordo com esse rebaixamento da disputa política, aí, meus caros, aprontemo-nos para o pior. Porque, assim como nas relações interpessoais, também na política o ódio é sempre, ao mesmo tempo, o pântano onde viceja o que há de mais monstruoso em cada um de nós.  


Agora, se a nossa elite, bem educada e bem nutrida, se comporta como se comportou no Itaquerão, então, não haverá quem, em lugares recônditos, convença-se: se assim que “eles” jogam, então, tudo está permitido. Aí, a política terá terminado e outra coisa, horrenda, terá tomado conta da disputa eleitoral que se avizinha. Muita calma nessa hora! Por outro lado, quem sabe?, os brasileiros sejam melhores, bem melhores, do que a sua elite que expressou, com elevada franqueza, sua forma de fazer “política” ontem. 

sábado, 7 de junho de 2014

O jumento e o cachorro: as faces de uma mesma moeda

Andréa Monteiro*

Viagens significam partidas, e algumas delas podem ter o sentido de despedida. Quando viajamos, fazemos um percurso, uma trilha para algum lugar, buscando alguma coisa. Essas buscas demonstram que estamos tentando ir adiante e nos desvencilhar do que ficou para trás: situações, etapas da vida, e até de nós mesmo. Uma viagem pode ser a oportunidade de desatar ou refazermos algo, para então renascermos de uma melhor maneira.

Durante esses dias, caso você decida fazer uma viagem de carro pelo sertão nordestino, a imagem que penetrará pelos seus sentidos provocará o sentimento de desalento fruto do forte período de seca que a região está passando. Com nossos motores a milhares de rotação por minutos talvez não percebamos que a paisagem tórrida e cinzenta da vegetação encobre um dos animais que teve outrora relevância na dinâmica social, cultural e econômica do nordeste, e que já não damos a devida importância. Refiro-me ao jumento. Muito embora, na escala de valoração social dos animais, o jumento sempre esteve abaixo... Mesmo em relação às demais variações das espécies de equinos – éguas, burros, cavalos – não é demais relembrar que, na época das construções dos primeiros açudes do semiárido, o jumento tinha sua importância devido a sua capacidade de suportar cargas no seu “lombo”. Pessoas ou materiais de construção eram transportadas dentro dos chamados caçuar, espécie de cesto utilizado para ser colocado nas costas do animal. O burro, ao contrário, ainda tem certo valor comercial por sua capacidade de arrastar pesos, o jumento é pouco amoldado à tração apenas aguenta transportar cargas. Dado que nos últimos anos a motocicleta chegou aos lugares mais longínquos de toda e qualquer cidade nordestina, o jumento perdeu o único lugar que lhe cabia, e para a grande maioria das pessoas ele já não tem serventia. E, hoje, sua presença nas estradas do sertão é tomada como um incômodo, pois, cobra-nos, de nós motoristas, uma atenção redobrada devida a possibilidade de acidentes. 

O jumento nas estradas sertanejas é a expressão da coexistência contraditória entre passado e futuro, a tradição e a modernidade. Mas, essa é uma percepção que nem sempre é percebida pelos viajantes. E isso é até compreensível devido ao sentimento que orienta a nossa vida diária que nos impede de ter um olhar mais atento sobre a construção social de uma realidade que promete ser melhor. As obras de infraestrutura operacionalizadas nas estradas do nordeste nos últimos anos, como a BR 101 ou a BR 116, juntamente com a urbanização das cidades de pequeno e médio porte da nossa região, ainda deixa vestígios de um contínuo processo de aceleração econômica. E essa realidade pode ser tomada como uma possibilidade ou uma referência para o exercício sociológico. 

Mas os jumentos continuam lá. Seja de dia ou à noite, na condição de renegados, estão sendo um após o outro, exterminados, atropelados e, mais dramático ainda, esquecidos às margens das estradas agonizando com as dores causadas pelos choques contras os veículos. Esses animais fazem parte de um passado que não nos interessa. Tudo se passa como se esse passado, que desejamos que fique para trás, dado que caminhamos para um suposto futuro melhor, apontasse que não existe mais lugar para eles no nosso presente. O mesmo não vale para os cachorros. 

As folhas do calendário voam, o tempo, parece, está passando vertiginosamente. E como não dá para dedicarmos um momento para consertar falhas do passado, optamos por embarcar num voo no qual não sabemos para qual direção está indo, mas acreditamos termos o controle, rumo a um possível futuro promissor. Nesse futuro, lá estão os lindos, admiráveis e amados e estimados cachorrinhos. Pequenos, médios, grande, mestiços ou com pedigree, detalhes que ficam em segundo plano comparando as capacidades e qualidades que nós humanos atribuímos, enxergamos e até sentimos em relação aos caninos, não é mesmo? Eles, agora, viraram nossos amigos confiáveis, irmãos e até filhos queridos. Ocupam lugar privilegiado na vida, em casa e até na decisão de quem vai sentar no banco do carona do carro. Entre ele e aquela garota bacana, sabe? Uma amiga, irmã ou namorada, certamente, você vai escolher como companhia de carona, quem? O seu Pet. E a garota? Virá no banco de trás, claro! 

Uma pesquisa recente buscou comparar os benefícios entre cuidar de uma criança e criar um pet de estimação por pessoas idosas. Criar uma criança faz com que você esteja conectado com o mundo e o que acontece nele. A vida diária te cobra o estabelecimento de vínculos sociais entre você e a criança, entre você e a escola, na convivência com outras moralidades e com as outras perspectivas e expectativas dos outros diferentes de você; e a dedicação aos cachorros também exige a possibilidade de conexão. O cachorro por se tratar de um ser vivo te cobra cuidados, atenção às necessidades: passeios, comida, etc. Enfim, faz você ter ligação com o movimento, com a vida. Um tipo de ligação que trás retribuição, você encontra feeddack em respostas para as quais você é quem atribui sentidos, de acordo com suas expectativas. Para o homem moderno criar cachorro faz bem! 

A partir desses elementos poderíamos nos perguntar: o que pode estar por trás dessa redefinição de valor e lugar social em relação a simples animais como os jumentos e os cachorros? Onde estariam as pistas, que sendo instrumentalizadas analiticamente, nos levariam a uma compreensão que não se limitasse apenas a descrição da realidade? Aliás, por falar em sociologia descritiva, eis uma forma sociológica tão banalizada nos discursos de representantes do saber doutor e que em nada contribui para fundamentar um verdadeiro fazer sociológico. Concorda?
Segunda-feira, 6h45min da manhã, um dos comentaristas da rádio CBN apresenta os números mais recentes do mercado de produtos pets no mundo. Do rádio, ecoa uma voz que diz: O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking de consumo de produtos pets no mundo, perdendo apenas para o ícone da cultura de consumo, o mercado americano. Em 2013 o faturamento no Brasil ultrapassa a casa dos R$ 15 BILHÕES enquanto que as cifras do mercado mundial alcançou a casa dos U$ 100 BILHÕES DE DOLARES. Trata-se de um mercado econômico tão promissor que trabalha com índice de crescimento acima de 8% ao ano. Não temos como não reconhecer, o brasileiro gosta mais dos cachorros do que dos jumentos. Rssss.

Mas, o que é economia? E o que é mercado econômico? Bem, poderíamos dizer que economia é um modelo de produção, distribuição, circulação e consumo de bens e serviços que um determinado grupo social adota. A cultura ocidental chega ao século XXI com uma proeza sem precedentes na história: a construção de um modelo econômico que se consolidou com tal força a ponto de servir de referência para unificação das economias em praticamente todo o planeta. Salvo alguns pequenos grupos sociais africanos e indígenas, praticamente todas as sociedades atuais compartilham do chamado sistema econômico capitalista. A partir do sec. XX, a economia capitalista potencializa em escala múltipla o surgimento de formas diversas de mercados. Mas o que é mesmo Mercado? Bem, é possível pensar um Mercado com sendo em espaço determinado, onde pessoas estabelecem relações de trocas, negociações e transações regidas pelo dinheiro. 

Análise sociológica se faz a partir de conceitos, ou seja, um determinado ponto de vista de leitura da realidade. Do que poderíamos denominar de esquemas conceituais. Esses esquemas conceituais auxiliam na compreensão dos mecanismos ou estruturas que constroem a realidade como ela é. Na Sociologia existem vários conceitos para ler um mesmo fenômeno social. A economia de mercado capitalista é um exemplo disso. Na sociologia há aqueles que a percebem enquanto força econômica que cria ou impõe determinadas necessidades às pessoas comuns. Outros a entendem enquanto um modelo de produção de mercadorias, que possui uma dinâmica própria e que possui a capacidade de colonizar as diversas esferas e aspectos da vida social, procurando torná-las bases para atividades lucrativas. Bem, esses constructos sociais não existem enquanto um dado da natureza. Existem porque estão em meio à vida das pessoas comuns. E conceito que não indica a ação humana trata-se de conceito sem muita força analítica. Na tentativa de construir um esquema de percepção que extraia as potencialidades das duas formas de compreensão citadas, podemos entender que o mercado não é uma força que impõe isso ou aquilo às pessoas, mas, sim, que o mercado se apropria de necessidades e desejos que são ou estão contidos em todos nós. Desejos que são potencializados nos diversos tipos de relações sociais que existem. 

Voltando aos números e milhões de moedas que o mercado pet consegue mobilizar, uma pergunta simples: porque as pessoas estão gastando tanto dinheiro com cachorros e por que esse mercado de alimentos, cuidados médicos e estéticos, cresce exponencialmente?

Levando em consideração o crescimento econômico do Brasil nos últimos vinte anos, o qual alavancou um cenário e um estilo de vida de consumo para uma parte considerável dos brasileiros, vivemos em uma sociedade com certa margem de recurso. Bom! Temos dinheiro e desejamos felicidade. Thomas Hobbes, ainda no século XVII, refletindo sobre a natureza humana, escreveu na primeira parte de O Leviatã que, sem a busca pelo desejo, o homem chega ao seu fim. A busca por esse algo que nos conforta é o que nos dá movimento, movimenta nossas sensações, imaginações e paixões. A felicidade é um contínuo progredir de desejos. A natureza humana que Hobbes se dedicou a pensar faz do homem um ser preocupado exclusivamente em satisfazer os seus interesses. Ora, se vivemos em um modelo cultural o qual prima pela individualidade, o mercado (ou melhor, o conjunto de pessoas que se dedicam às transações orientadas pelo dinheiro, buscando manter o controle dos espaços que garantam a manutenção de suas relações, tendo como fim último controlar riquezas) terá sempre a criatividade de apresentar aos indivíduos um objeto/coisa/experiência que lhe proporcione satisfação, conforto e segurança existencial que tanto buscam. E isso, é claro, é trocado por dinheiro. A partir dessas prerrogativas, temos a seguinte equação: homem + desejo + dinheiro = satisfação (satisfação = cachorro).

O brasileiro faz um cálculo racional do quanto consegue criando um cachorro e, ao fim, percebe que pode encontrar uma resposta positiva para os seus gastos. “Eu gasto dinheiro com o meu cachorro, mas ele é fiel, me dá carinho e me serve de companhia.” Esse cálculo de investimento existe porque o cachorro dá um retorno. E que retorno é esse? O retorno em estabelecer e confirmar relações emocionais. O cruel é perceber que em uma sociedade que legitima o interesse individual, é mais esperado que se gaste com cachorro do que com atividade ou investidas que possam construir algo coletivo.

O que podemos concluir é que a vida que temos está provocando um vazio e estamos buscando preenchê-lo dedicando nosso dinheiro e nossa potencialidade afetiva aos cachorros porque eles nos dão um retorno. Enfim, eles têm uma serventia. 

Assim, num mundo em que o amor, o afeto e o cuidado são medidos e calculados apenas pelo seu retorno individual e insistimos em não doar um pouco do melhor de nós a quem nos chama, a lógica do mercado continuará exterminando os jumentos e valorizando o lugar dos cachorros em nossa vida. E para você ter uma ideia melhor dos afetos e emoções possíveis sobre a lógica do mercado, assista ao filme O Lobo de Wall Street. Mas aí já é uma outra sociologia...

* Professora de sociologia no IFRN - Campus Santa Cruz.

domingo, 1 de junho de 2014

O que é a análise relacional para Viviana Zelizer

Em uma entrevista a um blog, a visão da socióloga Viviana Zelizer a respeito da análise relacional nas ciências sociais. Leia-a aqui. O blog? Clique aqui e confira. Abaixo, transcrevo a entrevista.