sexta-feira, 22 de outubro de 2010

TODOS OS BELOS CAVALOS

Foi o meu amigo José Júlio, professor de sociologia na Universidade Estadual de Londrina, há quase uma década, que me emprestou o livro. Deixei-o na estante. Não sei bem o porquê. Talvez isso também aconteça com você. Você compra ou ganha um livro e aí, sabes lá porque razões, fica adiando indefinidamente o início da leitura.

Foi o que aconteceu comigo em relação ao livro TODOS OS BELOS CAVALOS. Escrito por Cormac McCarthy, editado no Brasil pela Companhia das Letras, com a sempre caprichosa (eu diria sempre uma obra de arte!) tradução de Marcos Santarrita,descobri que o romance é como um bom vinho: você degusta até a última gota. Quanto mais você avança na leitura, mais lamenta que esteja chegando ao fim de um verdadeiro processo de iniciação.

TODOS OS BELOS CAVALOS tem alguma semelhança com O APANHADOR NO CAMPO, de J.D. Salinger. Ou, se você é mais ligado em cinema, com o filme CONTE COMIGO, estrelado pelo inesquecível River Phoenix. Com uma diferença bem básica: o livro de McCarthy, embora seja uma obra sobre a passagem para a vida adulta, é duro com as pedras das planícies cavalgadas pelo personagem principal. Tal como no livro de Salinger, é ambientado nos anos 1950. Mas McCarthy não foca no social, mas na força e nos desafios de construção do indivíduo. Nos seus sonhos, delírios, experimentações, decepções e vitórias.

Eu peguei o livro para ler na viagem para Brasília, no domingo. Quando cheguei no Aeroporto, após as três horas e meia que separam Natal da capital da república, já havia lido as cem primeiras páginas. Na segunda-feira, após o trabalho, enfurnei-me no quarto do hotel e terminei a leitura.

Foi um bom presente, esse que eu me dei: o de ler, em meio a loucura desta semana que vai chegando ao fim, esse grande romance. Se você o encontrar em qualquer livraria, não vacile: compre-o e deguste-o também.

Valeu, Júlio. Te devo essa, cara. Logo, logo, a gente toma umas cervejas no Gelobel para colocar os papos em dia.

Minha estréia no Terra Magazine

Em meio a uma semana meio louca, de muito trabalho aqui em Brasília, na Capes, estou estreando no TERRA MAGAZINE, editado pelo Bob Fernandes. Vocês podem conferir o que estou escrevendo por lá. Para tanto, cliquem aqui.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Trabalho duro, blog fica quase parando...

Trabalhando feito um louco nesta semana. Aí, como sempre, fica quase impossível manter o ritmo das postagens. Voltarei assim que possível.

Não deixe de dar uma olhadinha aqui, de vez em quando. Você pode se surpreender...

sábado, 16 de outubro de 2010

Artigo de Paulo Linhares

O jurista e Professor de Direito Paulo Linhares escreve regularmente, há décadas, para os jornais locais. Sua escrita já lhe rendeu um Prêmio Herzog. Escreve bem e com posicionamentos firmes. Confira em primeiro mão artigo que os jornais daqui publicarão amanhã.

TUDO QUE É PRÓXIMO...

PAULO AFONSO LINHARES

Nestes dias de açodamento e de tanta falta de compostura, tão comuns às pelejas eleitorais do nosso país, a exemplo da que está em pleno curso, neste ano de 2010, lembro-me com um certo amargor das palavras de Goethe em verso tornado célebre pela inserção em bela crônica de Jorge Luis Borges (A Cegueira): "Alles Nahe werde fern". "Tudo que é próximo se afasta". Referia-o o bardo alemão ao crepúsculo da tarde, mas, como nota Borges, poderia referir-se mais apropriadamente à vida, às perdas que a todos ela impõe com o passar dos anos. Ou como assevera o mais genial dos argentinos (depois do Che, é claro!), "Ao entardecer, as coisas mais próximas já se afastam de nossos olhos, [...] Todas as coisas vão-nos deixando. A velhice deve ser a suprema solidão, salvo que a suprema solidão é a morte". Melancólico é que o mundo visível tenha afastado-se dos olhos de Borges, no entardecer de sua vida tão prolífica, de tão belos escritos que fizeram do Nobel de Literatura uma repisada injustiça por se afastar dele, ano a ano, sem razão plausível. Nunca alguém mereceu tanto essa láurea e foi tão olvidado; nunca o Comitê sueco foi tão avaro e apequenado. De tão próximo dos seus tantos admiradores, Borges se afastou para a suprema solidão da morte, onde os Nobel todos não fazem qualquer diferença...

Esse "Alles Nahe werde fern" de Goethe tem a mesma significação do "tudo que é solido desmancha no ar" do seu conterrâneo Karl Marx. Pessoas e coisas estão sujeitas às mudanças mais surpreendentes, seja se desmanchando no ar, a despeito da solidez, seja se afastando dos que lhes eram próximos. O inverso destas situações limites são igualmente estonteantes: quem poderia supor que um humilde palhaço fosse ungido deputado federal pela soberana graça do povo-eleitor que lhe conferiu uma montanha de votos? O palhaço Tiririca, nem tão engraçado assim, obteve 1,3 milhão de votos dos eleitores de São Paulo, possibilitando a eleição de mais quatros deputados federais - inclusive do Dr. Protógenes Queiroz, aquele da Operação Satiagraha que tentou enquadrar (no xadrez mesmo, a sete chaves) o poderoso banqueiro Daniel Dantas - que sem essa exótica carona jamais chegariam à Câmara Federal. Como diria um alarmado Cícero nestes tempos de abundantes catilinas, "Oh, tempora, oh mores!" (Oh tempos, oh costumes!"). Que se pode dizer, então, de um operário que se torna presidente da República e desponta como um dos maiores estadistas brasileiros? É Lula sim, senhores.

Estamos há poucos dias do desfecho do processo eleitoral de 2010, com a realização do segundo turno de votação, em 31 de outubro, nas eleições presidenciais e para alguns governos estaduais. Os candidatos à presidência - Dilma Rousseff, representante do bloco progressista, de um lado, e José Serra, que representa um arco de aliança das forças políticas conservadoras, do outro - se esforçam em mostrar que tudo caminha nos lindes do ritual democrático, embora seus simpatizantes respectivos travem uma guerra surda no ciberespaço, sobretudo nas chamadas "redes sociais". Já saiu de tudo que se possa imaginar de baixarias, p. ex., no desiderato de denegrir a imagem da candidata Dilma e do seu padrinho político, o presidente Lula. O interessante é que enormes grupos de apoio a um ou outro desses lados, têm-se formado na Internet e vêm crescendo mediante a adesão (pela via eletrônica) de milhares de internautas. As campanhas eleitorais definitivamente ganharam o ciberespaço. Aguardemos os resultados de 31 de outubro, porém, na certeza de que independentemente do resultado "somos todos marinheiros desta Nau Catarineta", coisa que faz lembrar aquelas palavras candentes do Frei Caneca, o maior dos heróis nordestinos, ditas um ano antes de ser fuzilado na condição de mentor da Revolução Pernambucana de 1817: "Quando a nau da pátria se acha combatida por ventos embravecidos; quando, pelo furor das ondas, ela ora se sobe às nuvens, ora se submerge nos abismos; quando, levada do furor dos euripos, feita o ludíbrio dos mares,ela ameaça naufrágio e morte, todo cidadão é marinheiro(...)". Tenho sempre em mente a advertência lúcida de François Silvestre, de que a pátria não é de ninguém. É nossa, de todos nós brasileiros, nós que temos a tarefa de desatar todos os seus nós, como diria o astuto Barão de Itararé.


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O jogo no segundo turno

Foi o amigo Carlos Alberto, professor da UERN, quem me indicou primeiro o texto abaixo. Trata-se de uma análise política longa, mas de leitura obrigatória para quem quer se inteirar do que está em jogo. O texto já foi transcrito em diversos blogues (eu o peguei do "Escrevinhador").

O novo cenário do segundo turno
Antonio Martins.


I. O momento da guinada

Surpreendente, a candidata que lidera as intenções de voto abriu sua participação escancarando a “campanha de calúnias e mentiras” lançada contra si mesma. Tomou a iniciativa de introduzir o tema do aborto – principal peça usada pelos adversários para fustigá-la. Ousou referir-se à esposa de seu oponente, apontando-a como parte dos ataques (e não foi contestada…). Depois, partiu para o território mais desejado: as privatizações, ausentes da campanha até agora, foram tema de três perguntas em sequência, e certamente polarizarão as discussões, daqui para a frente.

Pouco traquejada em debates televisivos, Dilma Roussef teve momentos de nervosismo e lapsos, na noite do último domingo (10/10), primeiro confronto com José Serra após o primeiro turno. Mas ao final, havia alcançado dois objetivos. O mais visível foi retomar a iniciativa e voltar a pautar a disputa presidencial, depois de quase um mês apenas “segurando o resultado” e da frustração por não liquidar a disputa em 3 de outubro. Menos evidente, porém ainda mais importante, foi ter exposto a face pouco convencional – e por isso surpreendente e perigosa – da “nova” direita que a candidatura de José Serra articula. A frase que sintetiza esta descoberta ficará marcada. “Vocês estão introduzindo ódio na vida brasileira”.

A reação de Dilma respondeu a uma emergência. Estacionado por meses no patamar de 25% dos votos, incapaz de despertar entusiasmo ou simpatia durante toda a campanha, José Serra mostrou que não estava morto a partir de meados de setembro. Os ataques subterrâneos que lançou contra a candidata petista foram incapazes de lhe transferir votos. Mas provocaram o segundo turno, porque um grande contingente de eleitores atingidos refugiou-se em Marina (leia também nossa análise análise sobre 3/10).

Embora tenha conquistado menos de 1/3 das preferências dos eleitores, o candidato do PSDB viu-se, de um momento para outro, em condições reais de se tornar presidente. Tal possibilidade foi demonstrada pela primeira pesquisa de intenção de votos para o segundo turno, do Datafolha. Em 7 e 8 de outubro, menos de uma semana após a primeira disputa, Serra avançara pouco: tinha 41% das intenções de voto, contra 40% na sondagem anterior. Mas Dilma caíra de 52% para 48%. A diferença estreitara-se cincos pontos – reduzindo-se a apenas sete. Para entender como tal reviravolta foi possível, é preciso examinar a fundo, a à luz dos novos fatos, as características da campanha de Serra.

II. Uma estratégia de despolitização radical

Subestimada durante meses, por fugir inteiramente à lógica das disputas políticas clássicas (e do que se esperaria de alguém com o passado do candidato), a trajetória do candidato tucano começa agora a fazer sentido. Inspira-se no Tea Party, a ultra-direita norte-americana que reemergiu com enorme força, em resposta à eleição de Barack Obama – e que tem como ícone Sarah Palin… Seu perfil não se confunde nem com o da direita clássica (que defendia com sinceridade as ideias conservadoras), nem com o do neoliberalismo (que postulava como valor máximo a supremacia dos mercados).

Corresponde a uma fase de impasse do capitalismo ocidental. Depois de verem seu projeto de sociedade questionado, e de o terem reciclado parcialmente nas décadas anteriores, as velhas elites parecem, em todo o mundo, incapazes de dar um novo passo propositivo adiante. Sua associação orgânica com o conservadorismo foi abandonada, na sequência a 1968; sua crença na “mão invisível”, que substituiu a antiga aliança a partir do fim dos anos 1970, acabou destroçada pela crise pós-2008; as periferias batem à porta – tanto as globais, quanto as metropolitanas. Resta resistir a elas: e como não é possível fazê-lo por meio de um projeto articulado, convocam-se os medos e ressentimentos: o irracional.

É uma aposta momentaneamente forte, porque as ideias de ampliação da democracia e transformação social rearticularam-se há muito pouco (na virada do século) e não puderam ainda fincar raízes no imaginário popular, nem formular conceitos sólidos. Lula, Obama ou Evo Morales; o Fórum Social Mundial, a sociedade civil global, o desejo de rever as relações entre o ser humano e a natureza; a cultura das periferias, a aparição em cena dos indígenas e negros, as novas classes médias; a blogosfera, o compartilhamento de cultura e conhecimento, a colaboração como valor decisivo para produzir – tudo isso são todos fenômenos contemporâneos. Não têm o peso da experiência, dos erros, dos recursos materiais e financeiros, da influência geopolítica que caracterizava a tradição de esquerda anterior – especialmente a social-democracia e o socialismo real.

Sem uma alternativa para contrapor a estas inovações que aspiram a construir futuro, a direita-Tea Party tenta despejar sobre elas os preconceitos do passado. Sua estratégia é evitar o debate político e, sobretudo, o choque entre projetos. Suas propostas são risíveis: nos EUA, insiste-se em manter duas guerras, ampliar os cortes de impostos decretados por Bush e, ainda assim, reduzir o déficit público. Seu método é substituir o debate racional pela mobilização de rancores e recalques, pelas denúncias caluniosas e não-assumidas, pelo ataque implacável a certas ideias e personalidades, pela desinformação deliberada e generalizada.

Seu poder não pode ser desprezado – especialmente em sociedades nas quais o acesso médio dos cidadãos à informação ainda é reduzido. Nos EUA, pesquisa recente mostrou que apenas um terço dos cidadãos sabe que Barack Obama é cristão; 20% pensam que ele é muçulmano; e o percentual dos que estão mal-infomados cresceu acentuadamente desde a posse do presidente. Além disso, boa parte da sociedade crê sinceramente que a crise financeira é responsabilidade direta de Obama, não das políticas de seus antecessores…

A candidatura Serra repete de modo impressionante, em seus aspectos centrais, este padrão. O postulante jamais apresentou programa — nem à Justiça Eleitoral1, nem, principalmente, aos eleitores. O sentido geral das propostas de Dilma e Marina é compreensível e razoavelmente conhecido: pode-se aderir a elas, deplorá-las, apoiá-las em parte, estabelecer diálogos. O presidenciável do PSDB apresenta, enquanto isso, uma coleção de promessas incoerentes ao longo do tempo e incompatíveis entre si.

Ele já foi contra e a favor da renda cidadã e do programa habitacional do governo. Ele diz que o Estado brasileiro tem uma dívida crescente (o que é falso…) e ainda assim propõe cortar impostos dos ricos e, ao mesmo tempo, ampliar os benefícios pagos à maioria (contrariando toda a sua prática anterior). Ele tenta sepultar debates incômodos com rompantes repentinos, cheios de bazófia e incompatíveis com seu arco de alianças (em 12/10, dois dias depois de Dilma introduzir na campanha as privatizações, prometeu reestatizar empresas…). A velha mídia jamais questiona estas incongruências. Mergulhada ela própria em crise, talvez deposite suas últimas esperanças numa contra-utopia orwelliana, num descolamento radical entre o discurso político e a realidade, em que a mediação jornalística assumiria por completo caráter de ficção – e seria recompensada por isso…

III. Desconstruir a adversária

Como lhe falta um programa coerente, a direita-Tea Party apela para a desconstrução das candidaturas que vê como inimigas. Nos EUA, contra todas as evidências e racionalidade, Barack Obama é apontado como um marxista e traidor da pátria – de nada lhe servindo, aliás, manter um orçamento militar superior ao de George W. Bush… No Brasil, o alvo é Dilma. A “nova” direita não ousa atacar nem a figura de Lula, nem o lulismo. Além de temer a popularidade do presidente, não tem projeto a contrapor. Por isso, sua preocupação central não é, sequer, destacar as possíveis qualidades de Serra – mas transformá-lo, por meio da eliminação política de sua adversária, numa espécie de candidato único.

A fase intensa da campanha para desconstruir Dilma começou no final de agosto e desdobrou-se em duas fases. Na primeira, o protagonismo foi do Jornal Nacional e de quatro publicações impressas que esqueceram suas rivalidades históricas para formar uma espécie de Santa Aliança: O Globo, Veja, Folha e Estado de S.Paulo.

Nesta fase, o método consistiu em bombardear a opinião pública com dois “escândalos”: o vazamento do sigilo bancário de Verônica Serra, do qual Dilma Roussef foi – sabe-se agora com certeza – injustamente acusada; e a agência de lobby mantida pelo filho de Erenice Guerra, que não obteve nenhum favorecimento real, embora usasse o parentesco com a mãe poderosa para impressionar clientes. O primeiro caso era uma ficção; o segundo, uma irrelevância. Mas ambos monopolizaram, por 30 dias, as manchetes dos três jornais de maior circulação do país; da revista semanal mais conhecida; e do noticiário de maior audiência na TV. Para atestar o caráter eleitoreiro das “denúncias”, basta lembrar que foram imediatamente esquecidas, ao cumprirem seu papel na campanha. Não visavam investigar a fundo um assunto importante – apenas iniciar atacar uma candidatura, para favorecer outra.

Dilma resistiu ao ataque. Mas nas três semanas que antecederam as urnas, a ofensiva midiática foi complementada por outra: a mobilização das bases conservadoras. Nos EUA, ela é uma caracteística da Tea Party: aproveitando-se da frustração inicial das expectativas geradas por Obama, a direita formou centenas de comitês em todo o país e promoveu ao menos duas grandes marchas em Washington. No Brasil, onde não há nada que se compare a esta força, recorreu-se à difusão de denúncias apócrifas por meio da internet – um espaço onde o PT e seus aliados desperdiçaram muitas oportunidades e ignoraram a blogosfera potencialmente aliada.

A campanha de Serra articulou o lançamento incessante de boatos anônimos. Mobilizou a classe média conservadora e ressentida, numa rede informal muito capilarizada. Imitando uma vez mais o exemplo norte-americano, apoiou-se (sob as vistas grossas da CNBB) no poder crescente que o fundamentalismo está conquistando no catolicismo institucional e em algumas seitas evangélicas.

Uma visita ao site sejaditaverdade, ou a leitura de cartaz, afixado diante de muitas igrejas, no dia da eleição (na foto, em Porto Alegre), dão uma pequena ideia do que se destilou. Segundo a montanha de spams políticos, a candidata teria participado de diversos assassinatos. Sua postulação visaria, fundamentalmente, aprovar a disseminação do aborto, o casamento gay e o ataque do Estado às Igrejas. Enfrentaria processo de uma ex-amante. Lançaria blasfêmias contra Cristo (“nem ele impede minha vitória”). Posaria com armas. Estaria impedida de entrar nos Estados Unidos, por atos terroristas. Teria mobilizado fabricantes de chips chineses para fraudar as urnas eletrônicas brasileiras. Sua candidatura estaria a ponto de ser impugnada pelo “ficha limpa”. Seu vice, Michel Temer, frequentaria seitas satanistas em Curitiba. Etc. Etc. Etc…

O jornalista Leonardo Sakamoto explicou, em seu blog como estas alegações inteiramente inconsistentes acabam adquirindo força, em conjunto. Disparadas às dezenas de milhões, cada uma delas acaba atingindo um público que se sensibiliza pelo tema em questão e acredita no argumento. Os integrantes deste grupo passam a reproduzir a “denúncia”, acrescentando a ela, agora, o peso de sua reputação e influência pessoal.

A montagem desta rede de boatos foi a função a que se dedicou o norte-americano de origem indiana Ravi Singh, sócio da transnacional de marketing político ElectionMall – que prestou consultoria por meses à campanha de Serra2. Em 2007, diante do sucesso de Obama na internet, o site progressista norte-americano Mother Jones entrevistou Michael Cornfield, vice-presidente da empresa. Indagado sobre a possibilidade de a direita servir-se da internet no futuro, ele a considerou inevitável. E frisou: “Há mais de uma maneira de usar a web. Muito mais que uma maneira”…

No exato momento em que a campanha de Serra mobilizava todas as suas energias, a de Lula e Dilma descansava. O movimento fazia sentido, se visto pela lógica das disputas eleitorais travadas até então. Num comício em Curitiba, a uma semana do primeiro turno, o presidente recomendou a seus apoiadores “segurar o jogo”. “Estamos ganhando de 2 x 0 e faltam dez minutos para terminar a partida. O adversário está nos chutando na canela e no peito e o juiz não apita falta. Querem explusar alguém do nosso lado. Vamos fazer como o Parreira, quando técnico do Corínthians, e prender a bola. Enquanto ela estiver nos nossos pés, o outro time não faz gol”.

Comemorara cedo demais a resistência de Dilma aos ataques midiáticos. Não se dera conta de que, em articulação com a boataria apócrifa, eles haviam constituído um ataque em pinça poderoso. Milhões de eleitores, que conheciam a candidata superficialmente, eram atingidos agora tanto pelo Jornal Nacional quanto por mensagens recebidas de pessoas próximas e confiáveis.

Um excelente texto publicado por Weden no site do Luís Nassif sintetizou o cenário. Além de provocar a segundo turno, a artilharia cerrada disparada durante semanas pela mídia e pela central de boatos apócrifos estava começando a desconstruir politicamente a candidata. Expressão destacada do lulismo, responsável pelo planejamento e articulação política de seu segundo governo, ela estava sendo sendo reduzida a uma escolha errada do presidente.

“Reconheço que nunca houve um governo tão bom para nós”, mas “esta mulher é um perigo para o país” foi o depoimento emblemático colhido por Weden junto a um taxista – que estava disposto a votar em Dilma até as vésperas do primeiro turno, mas migrou para Marina e tendia, naquele momento (7/10) a Serra. Embora ainda limitado (daí Dilma manter-se na dianteira), o movimento alastrava-se rapidamente. Weden abordou com realismo seu sentido potencial: “A candidata petista está perdendo o ‘efeito continuidade’ que conseguiu representar até semanas atrás. Se Dilma ficar na metade dos votos governistas, perde a eleição”.

IV. Por onde corre a repolitização

Como pode uma candidata repolitizar uma campanha, quando setores crescentes do eleitorado questionam sua própria legitimidade? A pergunta embaraçou até mesmo grandes especialistas. Entrevistado por Luís Nassif, Ricardo Guedes, diretor do Instituto Sensus, sugeriu que a chave era o tema do aborto. Dilma deveria fazer um pronunciamento “amplo e forte” contra a interrupção da gravidez. Era, evidentemente, um equívoco. Se fosse responder a cada uma das invenções lançadas contra si, a candidata não faria mais nada, até 31 de outubro. Além disso, cada resposta acabaria dando mais destaque ao próprio boato. A vítima de uma sequência de calúnias enfrenta um drama semelhante ao de quem cai num poço de areia movediça: quanto mais se debate, mais afunda. A única saída é buscar um ponto de apoio externo.

Dilma viu no debate da Band, em 10 de outubro, o momento para escapar do poço. Procurou o ponto de apoio mais potente – e, ao mesmo tempo, mais difícil e arriscado. Em sua primeira pergunta a Serra, questionou diretamente a desqualificação da campanha. Já na réplica, ainda mais incisiva, apontou a manipulação de suas opiniões relativas tema ao aborto. Voltou ao ele numa pergunta posterior, quando, para ampliar a veracidade do que alegava, mencionou o envolvimento de Mônica Serra no esforço de difamação.

Estava visivelmente tensa: naqueles instantes, qualquer escorregão em sua fala seria catastrófico. Mas completou bem o movimento, que lhe trouxe duas vantagens. Abriu caminho para que sua campanha continue denunciando a armação adversária – ou seja, produzindo antídotos contra a desconstrução de sua imagem. E mostrou grande coragem, desmentindo na prática a impressão – preconceituosa e machista – de que é mero produto de marketing de Lula. Estes dois pontos lhe deram o apoio necessário para abrir, em seguida, o questionamento político e programátrico a Serra. A escolha dos temas era óbvia: privatizações e programas de redistribuição de renda, símbolos máximos da diferença entre o projeto do lulismo e o das elites.

Dará certo? O objetivo principal dos candidatos, num debate como o da Band não é conquistar o eleitorado, mas redefinir os temas que polarizarão a campanha em seguida. Mesmo com apenas 2% de audiência, o evento cria fatos incontornáveis. Os primeiros efeitos foram logo sentidos. A campanha de Serra e os jornalistas que a bajulam tentaram desqualificar a nova postura da candidata – um sinal evidente que ela leva a disputa para um terreno que temem. Mais: o programa de TV do PSDB-DEM foi obrigado a referir-se à privatização. Não poderá manter por muito tempo a abordagem totalmente falsificadora que, como se viu, adotou – desde que a campanha de Dilma aprofunde o tratamento dado ao tema…

Uma coisa é certa: a três semanas da eleição, o giro executado pela candidata em 10 de outubro é um movimento sem retorno. A “Diminha paz e amor”, a continuadora quase natural do legado de Lula, deu lugar a um novo personagem político. Dele precisa fazer parte, também, a polemizadora; a mulher que demonstra vasto conhecimento técnico sobre os programas que coordenou no governo; a que, por estar profundamente envolvida no movimento de democratização expresso pelo lulismo, sente-se à vontade para provocar o choque pedagógico entre prejetos para o Brasil. Desta iniciativa dependem agora tanto a repolitização da campanha quando a consolidação ou recomposição da imagem de Dilma, entre a parcela do eleitorado que esteve ou está em dúvida sobre seu voto.

As reviravoltas de campanha levam algum tempo para produzir todos os seus efeitos. É possível que eles não sejam captadas pelas próximas pesquisas – ou seja, que a diferença entre os dois candidatos volte a diminuir ou mesmo desapareça. Será preciso muita calma nessa hora. O grande risco a evitar é o desespero, que levaria a reverter o giro de Dilma.

O programa de TV será, nesta reta derradeira, o palco central para este confronto de projetos. A trilha aberta em 10 de outubro só pode ser preenchida com muita informação. É preciso expor, por exemplo, – e sempre por meio de fatos – a resistência (política e simbólica) da base de Serra aos programas de redistribuição de renda; as tentativas de sabotar os projetos de lei que tratam do Pré-Sal (um ano depois de apresentados, só um foi transformado em lei pelo Congresso). Se feita com sabedoria e talento, a exposição dos absurdos assacados contra Dilma pela campanha apócrifa lançará o feitiço contra o feiticeiro.

Viveremos fortes emoções, nas próximas semanas. Mas o processo de transformações inciado há oito anos tem potência suficiente para voltar a se impor, entre a maioria do eleitorado. Se isso ocorrer, Dilma acrescentará a sua história pessoal a inteligência de ter sabido, a tempo, comandar o movimento necessário para derrotar a direita-Tea Party – este quase-fascismo pós-moderno que ronda o Brasil em 2010.

1Em 3 de julho, data fixada pelo TSE para que os candidatos apresentassem seus programas de governo, a coligação PSDB-DEM-PPS protocolou na Justiça Eleitoral apenas a transcrição dos discursos de Serra feitos na convenção conjunta das três agremiações. A mídia comercial acobertou tau ausência – enquanto destacava, por dias, o fato de a campanha Dilma ter alterado alguns dos itens do programa formalmente apresentado.

2Sempre tendente à mistificação e ao provincianismo, a velha mídia tratou Singh como um “guru”. Certamente, impressionou-se por sua origem indiana, ou pelo fato de usar o turbante típico da etnia sikh…

Um panfletário da Dilma

O Celso Rocha de Barros é o cara. Crítico e engajado. Com uma formação acadêmica de ponta e uma capacidade de comunicação invejável. É. Tudo isso. Então, o cara faz um chamado à razão aí abaixo. Especialmente dos petistas, que andam desanimadinhos.

No meu tempo, sei lá quando?, acho que no começo dos anos 1980, uma eleição na qual o meu candidato tivesse o apoio e o número de votos que a Dilma, segundo as pesquisas, têm, ah!, era estar nos céus. E o que vejo? Um bocado de marmanjo desanimados. Vão se mexer!



Blogueiro diz que petista tem que panfletar
Celso Rocha de Barros


Tem um pessoal dizendo que até que eu era gente boa, mas agora fiquei panfletário. Vocês não viram nada, companheiros (essa foi de propósito). Desde ontem, comecei a dedicar parte de meu dia para fazer panfletagem aqui no centro da cidade do Rio.

Você, caro petista, está desanimado com a pesquisa Sensus? Está, assim, tristinho? Está, assim, solando, o nenê? É porque você está acompanhando a eleição pela TV e pelo Twitter, onde estão os 5% de rejeição do Lula. Mas porque você não está acompanhando na rua? Você é tucano?

Porra, ainda estamos na frente (perguntem a um estatístico se aquilo ali na Sensus é empate técnico), e já retomamos a iniciativa. A Dilma (que, pela Sensus, ganhou o debate confortavelmente) já fez as pazes com os religiosos, começando a desmontar o negócio que desequilibrou a eleição; mas os caras têm um exército mercenário correndo Igreja e dizendo que não. E você está esperando o que pra ir pra rua desmentir os caras? Que te paguem? Você é o que, DEMista?

Hoje inauguro a seção “diário da campanha”, contando minhas panfletagens, como fiz na época da campanha do Gabeira. Vai pra rua, rapaz, que você se anima. Ontem consegui distribuir meus panfletos em pouquíssimo tempo, a maioria das pessoas recebiam dizendo “é isso aí” (se você já fez panfletagem, sabe que isso é raro). O cara vendendo refrigerante com um isopor com adesivo da Dilma veio me dar parabéns. Claro, tem quem não goste, e imagino que você não vá distribuir panfleto na TFP.

Há 80% de brasileiros que quer a continuidade das políticas do atual governo. A gente só tem que ir pra rua fazer o anti-spam, e deixar as pessoas escolherem o que, segundo todas as pesquisas de satisfação, é o que elas tenderiam a escolher com tranquilidade e sem sacanagem de “Essa é a vagabunda do aborto?”, como me disse a única negra que não recebeu meu panfleto ontem sorrindo e dizendo que já ia votar na Dilma mesmo.

Está na hora de mostrar que isso aqui é partido de verdade, ao contrário de certos partidos da oposição que não têm partido nem no nome. É hora de mostrar como conseguimos, nesses anos todos, sobreviver como partido sem ter jornal. Lembrando que panfleto é o spam do sujeito com caráter: você vai lá e, literalmente, muitas vezes, dá a cara a tapa. Se o cara responder, melhor, conversa com ele, teste suas convicções dialogando respeitosamente.

Não deixe que a batalha te encontre no twitter. O PT só joga em casa na rua.

Enquanto isso, os trolls trollam. Nunca serão.

PS: pessoal do Rio, hoje tem panfletagem na Praça XV das 16 às 19 horas. Vou lá depois do serviço. À noite divulgo a agenda do fim de semana.

Deus e a eleição

Nada como um dia atrás do outro, ensina o dito popular. Na sua coluna de hoje do jornal Folha de São Paulo, o jornalista Fernando Barros e Silva reproduz famoso e decisivo diálogo, travada em debate às vésperas da eleição para prefeito de São Paulo em 1985 pelo então candidato (que viria a ser derrotado, dizem, exatamente pela resposta dada ao jornalista. Confira:

Boris Casoy - Senador, o senhor acredita em Deus?
FHC - Essa pergunta o senhor disse que não me faria.
Casoy - Eu não disse nada.
FHC - Perdão, foi num almoço, sobre esse mesmo debate.
Casoy - Mas eu não disse se faria ou não faria.
FHC - É uma pergunta típica de quem quer levar uma questão que é íntima para o público, uma pergunta típica de quem quer simplesmente usar uma armadilha para saber a convicção pessoal do senador Fernando Henrique, que não está em jogo. Devo dizer ao senhor Boris Casoy que esse nosso povo é religioso. Eu respeito a religião do povo, as várias religiões do povo, automaticamente estou abrindo uma chance para a crença em Deus.
Casoy - A pergunta não foi respondida. Não se trata de armadilha, nem de convicção pessoal.
O jornalista da Folha, após rápida análise, conclui:

Ao vestir a fantasia do neocarola, o tucano age mais ou menos como aqueles que acusavam FHC de ser ateu há um quarto de século.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Serra e o aborto: um tiro que pode sair pela culatra

Tivesse emigrado para os EUA o Professor Roberto Hugo Bielschowky poderia ter optado por ajuntar uma imersão profunda na sociologia e na ciência política sem ter que necessariamente tirar o pé de sua primeira pátria disciplinar, a matemática. Mas, como vive ao sul da linha do Equador, onde as fronteiras disciplinares são tão respeitadas, esse tipo de prática termina sendo pouco estimulada.

O Beto, como os amigos o chamamos, tem uma capacidade de análise das coisas do mundo da política bem acima da média daqueles que se auto-intitulam "cientistas políticas". Modesto, refugia-se na condição de matemático para não transformar em elaborações mais sistematizadas os insights analíticos com que nos brinda através dos seus e-mails. Perdemos todos com isso...

Bom, mas como ele não pediu sigilo, divido com vocês uma avaliação que ele faz sobre a emergência do tema do aborto na disputa eleitoral em curso.


Serra e o aborto: um tiro que pode sair pela culatra
Professor Roberto Hugo Bielschowky

Caríssimos,

já que eu tenho o privilégio de ter como amigos cientistas sociais e políticos tão sagazes como vocês, deixem-me checar um pouco como vocês avaliam minha impressão que a questão do aborto pode ser um tiro a sair pela culatra de Serra, a depender de como seja encaminhado o tema pela campanha de Dilma. Tudo bem que a campanha de Dilma se cerque de todos os cuidados com as diversas igrejas no pedaço, pois é bem provável mesmo que a virada de Dornelles em cima de Jandira nas eleições para o senado do RJ na última semana de 2006 tenha vindo por ali mesmo, daí que todo cuidado é pouco. Contudo, minha impressão é que talvez os votos que escorregaram de Dilma para Marina não são em sua maioria votos conquistados nas paróquias e igrejas, mas sim, majoritariamente, do tipo que expressam algum desgaste do PT nos setores médios, em parte natural, mas em boa parte impulsionado por denúncias tipo as que vinham lá da casa civil via Erenice Guerra, bem como uma boa performance de Marina na reta final da campanha... Tanto o mapa destes votos, quanto a última pesquisa DataFolha parecem indicar isto. Isto significa, talvez, que boa parte destes votos hoje indecisos sejam votos sensíveis a se tratar o tema do aborto também como uma questão de saude pública e não apenas como uma questão de natureza religiosa. O que acham? Se assim for, acho que saimos ganhando com o tema, se Dilma conseguir se manter na linha do último debate na televisão e partir para a ofensiva na caracterização do atraso que é o foco excessivo no tema e sem nenhum compromisso com a questão da saúde pública, como está sendo a posição de Serra, e se identificar, inclusive como mulher, embora de forma vaga, com uma preferência pessoal por atender a prender a mulher que praticou o aborto e sofreu alguma sequela, bem como tentando ser o mais verdadeira que puder ao fazer os devidos salamaleques às diversas igrejas e dar-lhes todas as garantias possíveis que não vai enviar nada ao Congresso na direção de descriminalizar o aborto. Afinal, ao que parece, uma entre cinco mulheres neste país praticaram o aborto...

Por outro lado, me parece que este tema do aborto tampouco é consensual na igreja, enquanto capacidade de mobilização na defesa da visão fundamentalista contra o aborto e por cima de todas as demais questões, principalmente tendo em vista as garantias que Dilma está explicitando de não enviar nada ao Congresso nesta direção, o fato que em 8 anos o governo Lula tampouco o fez, a posição muito correta e esperta, por sinal, de Marina de não tratar a questão como questão de princípio e remetê-la a um plebiscito, bem como a posição, beirando o cinismo, de Serra na questão. Minha dificuldade aí é que me parece muito difícil avaliar até onde podem ir as forças por trás das igrejas e paróquias na sua mobilização contra o aborto num formato fundamentalista, potencializadas pelas forças anti-Dilma que tentam explorar o tema e até onde as forças em contrário podem se contrapor a elas. Se o jogo por ali pelo lado da mobilização das forças das igrejas na questão do aborto for minimamente neutralizado, tenho a impressão que Serra sai perdendo ao explorar o tema, por conta dos eleitores de Plínio e do perfil dos que escorregaram de Dilma para Marina.

Que acham?

a[]s RHB

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O debate eleitoral na análise de Marcos Rolim

Já apresentei o Marcos Rolim neste espaço. Foi um quadro político de primeira. Digo "foi" porque após ter sido vereador, deputado estadual e deputado federal, Rolim abandonou a política partidária. Este ano, com a campanha da Marina, voltou a participar, como um dos consultores, da candidata do PV.

Há quase uma década visito o ótimo site que ele mantém. Dele, de vez em quando, retiro algum material e disponibilizo aqui. Outras vezes, coloco o link de colunas que acho interessante. É o que faço agora. Estou lhe indicando a leitura da avaliação que ele faz do processo eleitoral em curso. Clique aqui e confira.

O PT de Minas e o jogo do segundo turno

Segundo a pesquisa de inteção de voto para a eleição presidencial, realizada pelo DATAFOLHA e publicada na edição de domingo domingo do jornal paulistano, a diferença pró-Dilma é, neste momento, de 07 pontos. Quando analisamos os dados, percebemos que há uma consolidação do voto. Daí, qualquer marolinha pode decidir a coisa. E é aí que entra o perigo, para Dilma.

Em Minas Gerais, estado que garante a vitória da petista na região sudeste, a base dilmista foi derrotada. Se a costura do palanque foi traumática, com o PT local (onde despontam Patrus Ananais e Pimentel) sendo forçado a embarcar na canoa do peemedebista Hélio Costa, agora, após a derrota de todos eles, o clima, segundo dizem, está irrespirável. Falta comando e campanha está com dificuldades. Logo agora que, eleitos, Aécio e Anastasia estão livres para combater a Dilma sem o medo de perder os eleitores lulistas.

O que vai acontecer? Ora, petista, quando entra numa briga, esquece o entorno e os objetivos maiores. Por enquanto, em Minas, aos petistas interessa mais um acerto de contas interno do que levar adiante a campanha presidencial. Claro que essa escolha é desastrosa, mas para quem está no jogo é como se não existisse possibilidade de outra coisa.

Por tudo isso, essa história de que o voto religioso será decisivo é meio insustentável. Há, como diz a letra da música da Maria Bethania, "tantas coisinhas miúdas roendo aos poucos o nosso ideal..."

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Família: qual o seu papel na sociedade atual?

O título aí de cima bem que poderia ser o de um curso para noivos, não é? Achastes piegas? Eu também, mas não encontrei outro melhor. Fiquemos com ele, então.

Você está acompanhando a discussão política neste segundo turno? Nossa! Como a temática da família está em voga, não? Bom, já que vai se discutir o assunto, já que é o ponto de pauta, então vamos ajuntar alguns elementos para fazer essa discussão sair do atoleiro.

Vejam só! Hoje, na edição eletrônico do EL PAÍS, foi publicada uma pesquisa sobre como os espanhóis pensam a família e os papéis dentro dela. Aporta elementos para uma reflexão. Confira abaixo!


Casi la mitad de los ciudadanos cree que el papel principal de la familia es "criar y educar a los niños"
El 67,6% considera que la familia ideal es la formada por una pareja en la que trabajan los dos y se reparten las tareas del hogar y el cuidado de los hijos, según el CIS.- El 45% opina que es la mujer quien debe reducir su jornada laboral para atender el hogar
EL PAÍS - Madrid - 11/10/2010

El papel más importante de la familia en la sociedad actual es, a juicio de casi la mitad de los españoles, el de "criar y educar a los niños". Así lo cree el 49,3%, frente al 27,7% que opina que su rol principal es el de "proporcionar amor y afecto"; el 7,3% que considera que es el de "mantener los valores culturales y morales"; y el 5,9% que piensa que es el de "cuidar la salud de sus miembros". Son datos de la última encuesta del Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS) conocida hoy y realizada a 2.500 personas mayores de 18 años.

El ideal de familia para el 67,6% de los ciudadanos es la formada por una pareja con un trabajo remunerado similar y en la que ambos se repartan las tareas del hogar y el cuidado de los hijos, si los hay. En caso de que uno de los dos tenga que trabajar menos horas para ocuparse de las labores domésticas y de la descendencia, el 45,7% piensa que ese miembro de la pareja debería ser la mujer; frente al 20,9% que opta por "cualquiera, indistintamente"; el 10,2% que opina que quien tenga el trabajo peor remunerado; o el 1,8% que cree que debería ser el hombre. Un 14,7% defiende, como ideal, la familia en la que solo trabaja un integrante de la pareja y el otro se encarga de atender el hogar y de la eventual prole.

El 30,6% de los consultados vive en un hogar formado por dos personas; son tres en el 26,1% de los casos; cuatro en el 23,1%; y una sola persona en el 10,3%. Con independencia de su situación actual, si pudiera elegir, el 51,4% preferiría vivir con su pareja (casado o no) y con sus hijos; el 28,3% con su pareja (casado o no); y el 10,8%, solo. El 64,9% vive con su cónyuge, frente a un 9% que lo hace con su pareja sin estar casado. En ambos casos, con una media de convivencia de 22,3 años.

Cuando está con su familia, el 67,8% se siente "casi siempre cómodo"; el 22,5% la "mayoría de las veces"; y el 8%, "algunas veces cómodo y otras a disgusto". Cuando habla de su familia, el 66% se refiere a los hijos; el 65,5%, al cónyuge o pareja; el 63,9%, a los hermanos; el 61,5%, al padre o la madre; el 17,5%, a los abuelos; y el 16,6%, a los tíos. En el 29,2% de los casos, la mayor parte de la familia vive en la misma localidad del encuestado; en el 28,3%, toda la familia; y en el 18,6%, aproximadamente la mitad, con la otra mitad viviendo fuera de esa localidad.


La salud y la familia, lo primordial

Los españoles consideran lo más importante de su vida la salud y la familia, por este orden, al puntuarlas con un 9,64 y un 9,54 en una escala del cero al 10, respectivamente. De hecho, el 44% sostiene que la familia es lo fundamental, seguida de la salud (33,4%) y el trabajo (12,2%). Las relaciones de pareja solo las destaca el 4,7%. Sin embargo, al preguntar sobre a quién acudiría en primer lugar en caso de encontrarse enfermo, el 47,5% recurriría a su pareja y el 23,4% a la madre, que también es la elegida por un 36,6% de los consultados para cuidar de los hijos menores. En caso de necesidad económica, un 23% pediría ayuda al padre y un 17,7% a la madre.

Un 44,8% asegura hablar con su familia sobre asuntos personales con bastante frecuencia, y un 46,9% visita a sus familiares bastante a menudo aunque no exista ningún motivo especial para ello. Un 47,2% cree que sin el apoyo de su familia no podría superar las situaciones difíciles y un 50,1% dice celebrar las fechas señaladas (cumpleaños, Navidades) en familia.

Los consulados señalan como actividades habituales con los hijos menores de 14 años: "darles muestras de cariño" (91,5%); cenar (88,9%); "preguntarles por sus cosas o charlar con ellos" (70,7%); comer (68,5%); ver la televisión (68,1%); jugar (59,2%); llevarles al colegio (53,8%); ayudarles en los estudios (52,3%) o leerles un cuento (42,5%).

Solo un 18,1% de los interpelados se declara "completamente satisfecho" con su vida, aunque un 46,5% da una calificación alta a su situación vital, entre siete y ocho puntos sobre 10. Un 29,9% le da un aprobado, entre 4 y 6 puntos. Un 63,4% cree que nunca se es lo suficientemente cuidadoso en el trato a los demás, mientras que el 32,2% opina que se puede confiar en la mayoría de las personas.

domingo, 10 de outubro de 2010

Jânio de Freitas põe as coisas no seu devido lugar

Transcrevo abaixo trechos da coluna de hoje do jornalista Jânio de Freitas escrita na Folha de São Paulo. Lá embaixo, coloco um link para que os assinantes do jornal ou do UOL possam lê-la integralmente.

JANIO DE FREITAS

Na porta de entrada

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Em uma República presente no século 21, a eleição de seu presidente reduz-se ao aborto, se crime ou não
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ENTRE PRÉ-SAL, Brasil no jogo político planetário, células tronco, construção de foguetes, submarinos nucleares, feitos esplêndidos e silenciosos de laboratórios científicos, liderança mundial em exportação de vários alimentos -enfim uma República presente no século 21 sob tantos aspectos, de repente a eleição de seu presidente reduz-se ao aborto, se crime ou não. Os candidatos tremem, docilizam-se, mentem. Os bispos e pastores, no velho e no novo púlpito da tv, troam passando-se pela voz divina. Um país com meio milênio de atraso.

O caminho para a conquista do eleitor não são os projetos, não são as ideias, não são os circunstantes técnicos e políticos, não é o diagnóstico do presente e a visão de futuro. É a benção. Proveniente de sedes de bispados e cardinalatos, dos palcos e templos onde os que fazem riqueza inventando seitas recolhem os 10% "de dízimo".
(...)
Se o eleitor se convence da insinceridade dos candidatos, testemunha que é da submissão oportunista em quem deveria demonstrar inteireza, ignoro a existência de argumento respeitável para convencê-lo do contrário. Ignoro e duvido que haja.
A eleição dita republicana leva o Brasil ao portal do mundo dos fundamentalismos, essa patologia cujos fins e formas variados são idênticos nas marcas deixadas na história: sempre guerras, mortes impiedosas, sofrimento de inocentes em massa, dominação, e atraso -tantas vezes irreparável no possível caminho do crescimento humano.
(...)
Mas o que os candidatos à Presidência disputam é a sua possibilidade de influir, decisivamente em inúmeros casos, no futuro de quase 200 milhões de pessoas. Adeptos de religião ou não. E a maioria dos adeptos, só para fins de declaração.


ASSINANTE UOL OU FOLHA LÊ O TEXTO INTEGRAL AQUI.

Brincando com o fundamentalismo

E os ditos formadores de opinião começam a se chocar com a criatura que eles começaram a cevar. Refiro-me ao fundamentalismo religioso. Agora, no processo eleitoral, é conveninte açular carismáticos e evangélicos contra a Dilma. E, ao PT, faz-se necessário mostrar-se aliado dos eleitores religiosos. Mas, amanhã, a fatura dessa brincadeira pode ser mais alta do que ambos os lados pensam pagar.

Os jornalistas modernosos (ou pós-modernos da Folha) e os produtores culturais tucanos, tão avançados e contra a caretice petista, dão-se conta de que serão os seus amigos (ou eles próprios) as primeiras vítimas de um mundo no qual as regras morais sejam ditadas pelos pastores da Assembléia de Deus. Nesse admirável mundo novo, não tenho dúvidas, espaço nenhum haverá para performances desconstrucionistas. Parada Gay, Caderno "Mais", Segundo Caderno, dinheiro para programas de prevenção à AIDS e contra a violência homofôbica e similares desaparecerão. Como nos EUA da era Bush, o dinheiro público ira financiar campanhas de abstinência sexual. Pois, religiosos extremistas vêm nessas campanhas o caminho para enfrentar a AIDS...

Vejam o Afeganistão. Para escorraçar os russos de lá, os norte-americanos treinaram uma figurinha chamada Osama Bin Lader e deram dinheiro a rodo para a guerrilha islâmica. Pariu a Al Qaeda e o Talibã. E toda a vida social laica, que um dia fez do Afeganistão um país respirável para as mulheres, foi destruído. E o resto, você já sabe.

Quem goza com o gozo fariseu dos pastores e os seus vídeos escatológicos, como aquele de um proto-fascista curitibano, tem que se lembrar que, para os representantes políticos evengélicos, ainda ontem, quando da discussão sobre a nova Cosntituição brasileira, era inaceitável a tipificação de ato sexual forçado no casamento como estupro. Por quê? Ora, porque o casamento é sempre sagrado. Imaginem o retrocesso na discussão sobre a respeito da violência doméstica que vem embutido por trás desses discursos em defesa da família.

O PSDB, mais até do que o PT, tem os pés fincados na classe média. Parte dela se pensa ilustrada. Adora, em São Paulo, os programas culturais corretamente custeados pelo dinheiro público. Alguém pensa que no admirável mundo novo da Assembléia de Deus haverá dinheiro para coisas que não aquelas do "louvor"?

Quem brinca com fundamentalismo, podem apostar, paga um preço alto. E, nestas eleições, estamos indo além da conta.

sábado, 9 de outubro de 2010

Anotações sobre a pesquisa do DATAFOLHA de hoje

Ainda não tive acesso aos dados detalhados da pesquisa DATAFOLHA divulgada nesta tarde, mas vale a pena comentar rapidinho duas ou três coisas (ou mais um pouquinho...).

1) Dilma, na pesquisa, não vai além do que alcançou nas urnas (46,7% nas urnas vs 48 na pesquisa). É o esperado. Pelo menos para mim. Acho que esse é o mínimo da candidata. Eu disse "minimo"? Sim, mínimo. Não acho que ela baixe além disso. É a soma do eleitorado tradicional do PT (algo em torno de 25 a 30%) mais o reforço da base social lulista (reconhece o bom governo do presidente, mas não morre de amores pelo PT).

2) Serra abiscoita grande parte do eleitorado de Marina. Sair de 36% na eleição de domingo e chegar a 41% parece um crescimento desmesurado. Coisa para desesperar petista. Mas, analisando com sangue frio, não é, não. É o esperado. Quem duvidava que o voto conservador de Marina iria para Serra? Esse eleitorado estava meio orfão e percebeu na candidata do PV a chance de demonstrar a sua existência social. Agora, surfa na onda. Todos o querem, mas o seu coração já tem dono: Serra. Este pode subir ainda uns dois pontos nas próximas pesquisas? Acredito que sim. Mas, esse crescimento se dará em cima dos indecisos (eles são exagerados 11% neste momento).

3) Os eleitores agora indecisos serão o fiel da balança? Não exageremos, ok? Destes, menos de 04% se decidirão. O restante, como mostram os resultados de domingo, tenderão a não votar ou a anular conscientemente o voto. Aí, temos desde o sub-politizado ao crítico do sistema eleitoral. Ou, ainda, o completamente indiferente a esse mundo que tanto nos atrai (a política).

4) A eleição será decidida nos detalhes. Portanto, muito cuidado com os eventos sazonais (he, he, he). Dia 31 de outubro, um domingão, antecede (oh, Acácio!) uma segunda-feira impressada (terça é feriado). Muita gente boa simplesmente não irá votar. Irá viajar. Para homenagear os seus mortos, ou simplesmente curtir. E as conseqüências da alta abstenção serão regionalmente diferentes. No sudeste, prejudica o Serra. No nordeste, a Dilma. Aqui "prá cima", como dizem alhures, a abstenção não será muito maior do que foi no primeiro turno. O pessoal do interior que trabalha nas capitais nordestinas, com certeza, aproveitará o feriadão para rever os parentes e participar do Finados. Já o paulistano médio (existe?) tenderá a aproveitar o feriadão, especialmente se no Guarujá estiver fazendo um baita dum solão (ajuda aí, São Pedro!).

6) Nunca em uma eleição presidencial anterior, casada com eleições para governador, o voto será tão solteiro quanto no dia 31. O que isso quer dizer? Que na maioria dois estados, para o bem ou para o mal, a fatura já foi liquidada. As eleições já foram decididas. E essa realidade tem um grande impacto. Vejam só: a mobilização para as pessoas votarem, podem ter certeza, será menor. Aqui, como sempre, o eleitorado mais mobilizado do PT poderá fazer a diferença. Indo prá rua, fazer a campanha. Os caciques, vitoriosos ou derrotados, darão boas declarações, mas, tal como a governadora Rosalba Ciarline, irão se refugiar em algum cantinho... na Europa. Ninguém é de ferro, não é?

7) O voto nulo tenderá a ser menor no dia 31. Para presidente, em alguns estados nordestinos, os votos nulos e brancos, na eleição presidencial, alcançaram a casa dos dois dígitos. Como, com exceção da Paraíba, Piauí e Alagoas, a eleição será solteira, as pessoas terão uma maior facilidade para votar. Conseqüência? Menos votos nulos. Isso beneficia Dilma. No sudeste, o total de votos nulos foi, em média, menos da metade do índice alcançado aqui em cima.

Amanhã, de posse dos detalhes da pesquisa, postarei mais comentários.

Até lá!

Propaganda eleitoral na TV

Gente, que diabos é isso, hein? Ops! Falei no nome do "coisa ruim", sem querer... Sim, como eu ia dizendo: que coisa, não? Tanto a Dilma quanto o Serra estão forçando a barra com esse lance de demonstrar fé. Já postei algo aqui antes sobre isso. Mas, vendo o material publicitário para a TV, fiquei chocado.

É cada um mais cristão do que o outro, não é? E depois muita gente boa aí se achando no direito de comentar sobre fundamentalismo islâmico. Ora, tenham paciência...

Dilma na frente na pesquisa DATAFOLHA deste sábado

Pesquisa Datafolha para a corrida presidencial, divulgada neste final de tarde, coloca Dilma (PT) com 48 % dos votos e José Serra (PSDB) com 41%.

A notícia foi divulgada no site do UOL. Lá, como você poderá confirir abaixo, é feita uma comparação do resultado da pesquisa de agora com uma pesquisa sobre um eventual segundo turno, antes de domingo. O UOL ressalta a queda de Dilma de 50% para 48% e a subida de 1 ponto do Serra;

Ora, ora, nada mais falso do que esse tipo de comparação. Não são eles mesmos que vivem a apreogoar que o segundo turno é outra eleição?

Nada de desespero, portanto. E nem de euforia, claro. Ainda há muito tempo até o dia 31 de outubro...


Datafolha mostra Dilma sete pontos à frente de Serra

Da ReutersA pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (9) aponta a candidata Dilma Rousseff (PT) à frente no segundo turno das eleições, com 48 por cento das intenções de voto, enquanto José Serra (PSDB) tem 41 por cento.

No levantamento do Datafolha realizado entre 1 e 2 de outubro, antes da realização do primeiro turno, Dilma aparecia com 52 por cento, e Serra, com 40 por cento no segundo turno marcado para 31 de outubro.

A pesquisa, divulgada e contratada pelo jornal Folha de S.Paulo, foi realizada no dia 8 de outubro junto a 3.265 eleitores, com margem de erro de 2 pontos percentuais.

Na eleição de primeiro turno, realizada em 3 de outubro, Dilma recebeu 46,91 dos votos e Serra ficou com 32,61 por cento.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Ainda não fui. Por isso, mais uma prá você ficar de bem neste final de tarde...

Bom final de tarde... e de semana.

Assim que possível, estarei de volta. Fui! Fique com um presente divino...

Livre pensar...

" Não é verdade que o sofrimento nos purifica, nos faz melhores, mais sábios e compreensivos. Nós nos tornamos frios, iniciados e indiferentes. Quando compreendemos, pela primeira vez na vida, o destino, nos tornamos quase serenos. Serenos e solitários no mundo, de um modo singular e assustador."
SÁNDOR MÁRAI

O peso das abstenções nas eleições de domingo

Confira aqui um documento, em excel, produzido pelo Anderson Santos, mestre em Ciências Sociais e consultor político, sobre o peso das abstenções nas eleições do domingo. Vale a pena conferir!

O PT entre o céu e o inverno

Leia o porquê no artigo abaxo, da pena sempre muito lúcida do jornalista Alon Feuerwerker.

Do tudo ao nada
Alon Feuerwerker.


O PT está entre o céu e o mais absoluto inferno. O céu não virá tão bonito quanto a ideia original, dada a força da oposição nos estados. Mas o inferno seria de lascar

Em seu já célebre discurso de 18 de setembro em Campinas (SP), quando anunciou que “nós somos a opinião pública”, Luiz Inácio Lula da Silva produziu uma passagem reveladora. Na época passou meio despercebida.

- Vocês sabem que tucano come até filhote no ninho. Quando o (Aloizio) Mercadante se eleger governador, vou criar um Bolsa Família para os tucanos não passarem fome.

Lula é bom de palanque, e sempre é preciso dar um desconto. Mas o trecho lança luz sobre a essência da política. Nas eleições, tribos entram em luta pelo domínio do aparelho de estado. Vencida a eleição, o grupo terá poder sobre orçamentos e cargos, essenciais para alimentar os exércitos vencedores.

Sempre foi assim, desde que a política e a guerra eram uma coisa só. Nunca mudou na essência. Se hoje há normas a civilizar a repartição do butim, ele continua sendo repartido. Com a possibilidade de alternância, abre-se a porta para um revezamento.

Qual era a situação das tropas antes do primeiro turno? A fortaleza federal estava teoricamente bem defendida pelas forças petistas, que acossavam os dois maiores redutos do inimigo, São Paulo e Minas Gerais.

Em Minas, montou-se uma mega aliança contra os tucanos. Se não em número de partidos, na amplitude do arco simbólico. A lista impressiona. Lula, José Alencar, Dilma Rousseff, Fernando Pimentel, Patrus Ananias, Hélio Costa.

Nas terras paulistas a tática foi diferente. O PT investiu na fragmentação do campo adversário, para fugir da bipolarização e tentar provocar um segundo turno.

Mas não deu, o PSDB garantiu já no primeiro turno mais quatro anos no comando de suas principais máquinas político-eleitorais. E a incerteza mudou rapidamente de endereço.

Dilma foi bem numericamente no primeiro turno, ficou perto de ganhar a eleição e precisa agregar quantitativamente menos do que José Serra. Mas suponhamos, só para especular, que o PT perca a disputa presidencial no segundo turno. Onde suas tropas encontrariam abrigo?

Ao contrário do PSDB, o PT venceu no domingo passado em unidades da federação com relativamente pouca autonomia diante do governo federal, estados que estão longe de ser potências orçamentárias.

O PT conseguiu boas bancadas na Câmara dos Deputados e do Senado, mas se derrapar no segundo turno será perfeitamente possível ao novo governo tucano articular uma maioria. Bastará atrair o grosso da base de Lula/Dilma e isolar o petismo.

Não deverá exigir muito esforço. Será quase natural. O que o PT teria a oferecer aos aliados para impedir que mudassem de lado?

O PT está entre um certo céu e o mais absoluto inferno.

O céu não virá tão bonito quanto a ideia original, dada a força da oposição nos estados e a fragmentação partidária no Congresso, que verá em 2011 aumentado seu poder de barganha.

Mas o inferno seria de lascar. O PT regrediria em peso político, e com um detalhe: antes de chegar ao Planalto a legenda tinha mais poder na esfera local do que tem hoje.

Lula operou esta eleição na base do tudo ou nada. Conseguiu matar politicamente alguns adversários não tão fortes, mas quem sobreviveu está com musculatura.

Já para o PT, o tudo ficou fora de alcance, e agora o partido foge de ser colhido pelo nada. Tem uma chance razoável de conseguir, mas eleição é eleição.

Piorou

Lula livrou-se de um grupo de senadores que discursavam contra ele. Ficaram fora Heráclito Fortes, Mão Santa, Artur Virgílio. Livrou-se ainda de senadores que discursavam pouco e nunca lhe criaram problemas reais, como Tasso Jereissati e Marco Maciel.

Em compensação, o possível governo Dilma receberá de presente um Senado bem mais perigoso, com o PMDB em posição de dominância incontestável e a oposição reforçada por políticos craques em falar macio e operar nos bastidores.

Chico Alencar e Ivan Valente

Chico Alencar e Ivan Valente se elegeram. Para a comemoração de todos quantos, como eu, mesmo não concordando com muito do que eles defendem, entendem que as suas atuações combativas e corajosas, alicerçadas na defesa de princípios e valores de esquerda, contribuem para tornar menos cinzento um espaço dominado por gente como... (você completa...).

Luciana Genro



Torci pela eleição dela. Não deu. Embora tenha tirado mais de 150 mil votos, a Luciana Genro não se elegeu deputado federal porque o seu partido, o Psol, não alcançou o quociente eleitoral mínimo no Rio Grande do Sul. Na mesma eleição, que ironia!, em que o seu pai, Tarso Genro, elegeu-se governador logo no primeiro turno.

Faz parte do jogo, mas dói.

Não, não e não. Não sou do Psol e não concordo com quase nada do que defende a deputada, mas entendo que a sua presença combativa enriquece (enriquecia) o parlamento brasileiro.

Ah! Não, não estou a lamentar a derrota da Heloísa Helena. O seu moralismo histérico não me bate bem. Coisa de pele, sei lá!

O show de Kristal, por Luciana Chianca

A Professora Luciana Chianca, nossa amiga e ex-professora do Departamento de Antropologia da UFRN (agora, para felicidade dos paraibanos e tristeza nossa, ela é da UFPB), manda o seu comentário sobre o show da cantora Kristal. Reproduzo abaixo. Leia-o. Acho que, agora, após a leitura você terá um programa para a noite.

"Não, não vou falar em Dilma, nem em Marina e muito menos em Serra. Talvezdevesse, que o momento é sério. Não vou falar de eleição, mas deespetáculos.Espetáculos artísticos, com gente que põe a alma no que faz, com atitude,coragem e cuidado consigo, com sua obra e com seu público. Sabem quem é Krystal? Pois bem: ontem fomos ver o seu novo show; “Trem”.

Se pras bandas eleitorais o trem tá feio, saí do show de alma lavada: Ô banda boa! ô trem bom!Fui correndo comprar o disco- e pena que não estava à venda. Percebe-se nesse show autoral o quanto o artista se expõe- à crítica, ao público, aosprodutores, à vida enfim. A música de abertura do show já deixa entrever como se vive numa profissão que nenhuma mãe sensata deseja ao filho: sercompositor. E ainda por cima, Kristal canta.

Tadinhos, seus pais... que nada: ela também toca bem o seu violão, misturando ritmos locais ainfluencias musicais de outras bandas. Só sei que o show passa leve e rápido, como um trem-bala.Vemos que a artista vai trilhando o seu caminho, entre parceirias e algumas interpretações de músicas consagradas. Mas o show não perde o destino nem a hora. Sem descarrilhar, Kristal dá conta da viajem e vou dizer mais: não é muito mais caro que duas passagens de ônibus: por R$5,00 você faz uma viajem de mais de uma hora. Finos músicos, afinados arranjos e uma maquinista de voz marcante vão e voltam com você. Vive-se,nesse Trem.Às 20hs na Casa da Ribeira, hoje, 6ª feira, dia 08/10."

Abraços
Luciana Chianca

Sobre os marqueteiros...

Do Ex-Blog do César Maia, que continua fornecendo informações e provocações com a mesma qualidade de antes, em que pese a derrota eleitoral do seu piloto, colho o artigo abaixo, publicado originalmente no jornal espanhol EL PAÍS. Leia, você vai se divertir.

"CANDIDATOS, PESQUISAS E FEITICEIROS"!

Trechos do artigo (El País-20/09) de José Andrés Torres Mora, professor de Sociología e deputado socialista.

1. Quando eu penso sobre a relação dos sociólogos eleitorais (analisando pesquisas), com os políticos, sempre me recordo de uma piada contada pelos antropólogos sobre uma aldeia de índios Hopi, perto de um observatório meteorológico. Depois de uma longa seca, os índios começaram a pressionar o novo feiticeiro da aldeia para que fizesse a dança da chuva. O bruxo tentou adiar a cerimônia para ver se chovia. A pressão da tribo culminou em ameaças sérias. Encurralado, o feiticeiro organizou a cerimônia e depois da tribo dançar até tarde da noite, disse aos índios que antes de dormir tirassem todos os seus potes para coletar água. Quase ao amanhecer, o feiticeiro fugiu da aldeia. Mas antes foi até o observatório meteorológico e ali viu um homem com um casaco branco, se aproximou dele e perguntou: "Você poderia me dizer se vai chover hoje?". O homem respondeu sem hesitar: "Sim". O feiticeiro perguntou ao cientista: "Como você pode ter tanta certeza?", ao que o cientista respondeu: "Porque os índios da aldeia lá embaixo colocaram seus potes para recolher a água da chuva."

2. Ao se escolher um candidato exclusivamente a partir das pesquisas se produz uma tautologia: o melhor candidato é aquele que segundo a pesquisa tem maior probabilidade de vencer. No entanto, é possível pensar que o melhor candidato, coincidindo ou não com a pesquisa, é aquele que tem mais competência na hora de resolver os problemas, aquele que demonstra maior coragem moral frente à injustiça, aquele que tem o melhor projeto ou qualquer outra qualidade que você acha ser importante para governar, e que sendo conhecida será também reconhecido pelos eleitores como algo valioso. As coisas mudam como resultado de nossas ações, e muitas vezes em um sentido diferente do que o esperado.

3. Em pesquisa, a uma pergunta impossível, uma resposta inútil. A política não pode ser reduzida a uma ciência, seja econômica, sociológica ou qualquer outra. A política tem de responder aos problemas que não tenham uma solução científica. A política tem a ver com as decisões cujas consequências são incalculáveis, para as quais não existe uma resposta verdadeira, mas um acordado razoável e apoiada por uma maioria. Alguns acreditam que é suficiente contratar as melhores agências de marketing eleitoral para ganhar uma eleição, que há um método científico para eleger os candidatos e fazer os programas.

4. Nada disso é verdade. Uma decisão política é mais parecida com a aposta de um empreendedor do que com um cálculo matemático. Nenhum sociólogo assumiria, por fazer a estimativa de um resultado eleitoral, a mesma responsabilidade que um arquiteto para a estabilidade de um edifício. Não haverá ninguém a quem reclamar se elegermos o candidato que diz a pesquisa e não o que temos vontade. Não há uma apólice de seguros ou uma empresa que seja responsável pelos danos, são os militantes que terão de arcar com as consequências.

5. Por isso, o melhor conselho que podemos dar a aqueles que vão escolher, é que votem naquele que conscientemente consideram o que melhor os representa e a sua causa, e não aquele apontado por um feiticeiro disfarçado com um jaleco branco de sociólogo. Algo tem as pesquisas que, em nosso país, o legislador proibiu publicá-las alguns dias antes da eleição. A pesquisa que se apresentava, mostrava um mapa da opinião antes da deliberação, mas a democracia não consiste somente em votar, mas sim fazê-lo depois de ter deliberado livremente.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Eleições e democracia

O Professor Ivonaldo Leite, professor da UFPB, é um cara crítico e muito criterioso. Estudioso da educação, ele não deixa de faze incursões analíticas em outras searas. Até porque, convenhamos, essas fronteiras disciplinares e temáticas existem para ser quebradas, não é?

Bueno, assim, convido-lhe a ler o texto abaixo, que é da pena do referido Professor.

A MISÉRIA DA DEMOCRACIA: TRISTES CENAS DO PROCESSO ELEITORAL

Ivonaldo Leite

Disse Sérgio Buarque de Holanda que “a democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido”. Se, por um lado, é verdade que o “desencanto” sergiano advém fundamentalmente do modo como a ideia de democracia foi gestada no País (com, entre outros acontecimentos, o liberalismo subordinando-se aos interesses das elites agrárias), por outro lado, não há como negar que a sua assertiva continua encontrando eco nos dias de hoje. A este respeito, episódios do processo eleitoral no primeiro turno, e também agora no segundo, são paradigmáticos. Vejamos alguns.

Em primeiro lugar, tenhamos em conta o desempenho do judiciário. Este poder, que tem protagonizado a proeza de conceber, em menos de 24 horas, habeas corpus para réus manifestamente culpados, atolados em montanhas de dinheiro para ações ilícitas, como no caso Daniel Dantas, se revelou incapaz de arbitrar sobre o marco jurídico que regeria as eleições. A lei da chamada ficha limpa valeria ou não para as eleições de 2010? Às vésperas do pleito, os meritíssimos, após prolixos debates, se empataram: cinco a cinco. Caberia o voto de minerva, de desempate, ao Presidente do Supremo. No entanto, a matéria ficou para depois, e esse depois significou o pós-eleitoral, de modo que a população votou em candidatos sem saber se os votos estariam valendo. E assim produziu-se um Frankenstein jurídico-eleitoral: a existência de candidatos que obtiveram votação suficiente para assegurar os mandatos, mas ninguém sabe se eles estão eleitos.

Para completar, a Suprema Corte decidiu, em cima da hora, que não eram necessários dois documentos para votar, mas o título, por não ter foto, não seria suficiente, de maneira que se fazia necessário um segundo documento, com foto, o que dispensaria o título eleitoral. Contudo, concluiu-se que este último não estava a ser descartado. Se ele apresentado sozinho para nada serve e um documento com fotografia o dispensa, ficamos então por saber qual é a função do título a partir de agora.

O segundo episódio atenta contra a laicidade do Estado, numa situação em que a mistura entre política e religião faz com que esta deixe de ser um assunto de natureza privada – do plano pessoal – e passe a condicionar/instrumentalizar os fundamentos da República, o que significa a negação do ideário republicano. Nessa marcha, vamos terminar chegando a um ponto em que os governantes, apesar de eleitos, de per se, já não mais decidirão nada, apenas limitar-se-ão a serem porta-vozes de autoridades religiosas. Ocorre que existem questões que são bastante terrenas, e ocultá-las com o véu de discursos transcendentes é um despropósito. A questão do aborto, por exemplo, é, antes de tudo, um problema de saúde pública, e certamente não será enfrentado adequadamente com medidas medievais, como a do ex-bispo de Olinda e Recife, José Cardoso: excomungando pessoas e decretando que elas vão para o inferno.

Ora, não se deve esperar ou exigir que os agentes religiosos defendam, em suas pregações, as evidências científicas da teoria da evolução; assim, por outro lado, em atenção às premissas do ideário republicano, não é aceitável que os governantes se comportem como sacerdotes. Do contrário, passaremos a ter regimes políticos teocráticos, tal qual ocorre em países islâmicos, ou voltaremos ao Brasil pré-1889, quando a instituição do padroado unia o Estado e a Igreja Católica.

Last but not least, o terceiro episódio. Chega a ser um misto de comicidade e frustração que, após 25 anos do fim da ditadura militar, pessoas que lutaram contra a repressão, colocando inclusive a própria vida em risco (sendo presas e torturadas), sejam, agora, cobradas e questionadas, em razão da militância que desenvolveram durante os anos de chumbo. E são cobradas e questionadas por agentes que integram os antigos segmentos políticos que deram sustentação à ditadura, agentes que, em alguns casos, apesar de serem novos cronologicamente, lançam mão da mesma verborragia dos seus predecessores: brandem os velhos discursos da ordem contra a baderna, contra a agitação e as ações terroristas. Ao que parece, pretendem realizar um novo julgamento e serem algozes pela segunda vez. O mais paradoxal é exatamente isto: na verdade, são esses segmentos que têm débitos para com a democracia, por terem dado sustentação e sido cúmplices de um regime que prendeu, torturou e ceifou vidas empenhadas na defesa das liberdades individuais e coletivas.

Três episódios que denigrem a República e a construção democrática no Brasil. Como assinalei inicialmente, os ecos do lamentável mal-entendido de que nos falava Sérgio Buarque de Holanda. Três tristes cenas produzidas, no processo eleitoral, pela miséria da democracia.

Argentinos, podem rir da gente.

Vocês têm toda a razão de rir de gente. Nós os metidos aqui de cima, nos achamos o máximo. Rimos das escolhas políticas argentinas, de vez em quando. Chamamos os Kichners de populistas e nos sentimos superiores. Que balela!


O nosso conservadorismo tacanho é enrustido. Adoramos É o tchan, mas trememos de medo do casamento gay. Sonhamos em transar com a Roberta Close (lembram dela?), mas silenciamos, cúmplices, diante da homofobia.


E a campanha eleitoral? Tá um debate tão empobrecido, mas tão empobrecido, sobre sexualidade, aborto e valores morais, não é? Só estou esperando a hora em que tucanos e petistas irão propor transformar a nossa República em um Estado Teocrático.


Então, para aliviar, curta aí a tirinha do Laete. Que saúda a Argentina, com muita razão.




Ainda em defesa do Tiririca

Sérgio Malbergier, competente articulista do UOL, escreve um petardo em defesa do palhaço. Com indignação, o artigo é um tiro certeiro no preconceito. Confira abaixo!


Deixem o palhaço legislar
Sérgio Malbergier

Tiririca é o novo herói nacional. A expressão mais raivosa e consistente do voto de protesto contra o corpo político brasileiro. Que a Justiça esteja já acionada para cassá-lo por suposto analfabetismo revela como o palhaço/deputado federal mais votado do país ameaça o sistema. O deboche e o humor são armas poderosas.

E que boa piada: uma Justiça sem dentes para barrar os eternos abutres da política afia suas garras diante do palhaço nordestino que, como nosso consagrado presidente, veio de muito baixo na pirâmide social para afirmar-se de forma retumbante em São Paulo.

Quem conhece e representa melhor o Brasil profundo do que o palhaço Tiririca hoje na política? Só Lula. Que elitismo suspeito esse preconceito contra o suposto analfabetismo do palhaço. Quem melhor que um analfabeto ou semi-analfabeto para representar os milhões de mal educados do país? Analfabeto não é incapaz nem criminoso para ter direitos políticos limitados. Muito pelo contrário, é vítima da má gestão desta obrigação pública mais básica que é a educação.

Se a Wikipédia está certa, o palhaço Tiririca começou a vida no circo aos 8 anos, em Itapipoca, no Ceará, e estourou regionalmente com a música "Florentina", que a Sony Music tornou megahit nacional em 1996.

Ele já teve problemas com a lei naquela época por causa da música "Veja os Cabelos Dela", que lhe rendeu uma acusação de racismo, da qual foi inocentado. A letra, puro Tiririca, dizia: "Veja, veja, veja, veja, veja os cabelos dela/Parece bombril, de ariá panela/Parece bombril, de ariá panela/Quando ela passa, me chama atenção/Mas os seus cabelos, não tem jeito não/A sua caatinga quase me desmaiou/Olha eu não aguento, é grande o seu fedor".

Uau!

A singeleza sempre foi seu atributo. Os jingles e os spots de sua campanha, feitos de forma despretensiosa por amigos humoristas, devem ser estudados pelos caríssimos marqueteiros de plantão. São a maior lição de marketing político desta campanha.

Dançando daquele jeito nordestino, o palhaço canta meio preguiçoso: "O que é que faz um deputado federal? Na realidade, eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto", ou "Pior do que tá não fica, vote Tiririca". Bingo!

Os mais de 1,3 milhão de votos que Tiririca teve em São Paulo não podem ser desclassificados por essa Justiça incapaz de julgar os que deveriam ser julgados e que ainda por cima pode barrar a melhor notícia desta eleição: a lei da ficha limpa.

Deixem Tiririca legislar. Queremos vê-lo dançando no tapete do Congresso e discursando daquele jeito engraçado no microfone do plenário. Estará, legitimamente, representando muita gente. Dos que enfrentam as mesmas dificuldades e preconceitos que ele enfrentou e enfrenta aos que acham que a política brasileira é uma grande piada.


Sérgio Malbergier é jornalista. Foi editor dos cadernos Dinheiro (2004-2010) e Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial da Folha a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha.com às quintas.

Deixem Tiririca em paz!

Um promotor da justiça eleitoral paulista quer cassar o mandato do Tiririca, eleito deputado federal por São Paulo no domingo. Cá entre nós, parte dos "bem pensantes", odeia quando membros da patuléia saem dos lugares socialmente destinados para eles (pagodeiro, palhaço, empregada doméstica). E um palhaço que tira quase um milhão e meio de votos é algo que essa gente não pode aceitar, não é? Então, dá-llhe promotor a areganhar os dentes contra o palhaço. Até parece que o suposto analfabetismo de Tiririca é a coisa mais nefasta do mundo.

O palhaço e cantor, imortalizado pela música "Clementina", não faz parte das minhas escolhas estéticas ou políticas, mas esse negócio de cassá-lo (acho que, para os setores sociais que alimentar o arreganhar de dentes do Promotor, o preferível seria caçá-lo...).

Vamos gritar, daqui da esquina do Atlântico: DEIXEM O TIRIRICA EM PAZ!

Mário Vargas Lhosa é Nobel

Maravilha! Um acontecimento a comemorar! Sou fã de carteirinha do grande escritor peruano. Sim, claro!, você está pensando nas posições políticas do cara, não é? Esqueça! A sua literatura é cem vezes melhor do que os textos sobre política que ele escreve nos jornalões.

Para não citar outros, quem lê, por exemplo, "Conversa na Catedral" não de se apaixonar pelo estilo muito próprio e rico do grande escritor.

O prêmio é também um afago à boa literatura latino-americana. Sei, talvez você não goste desta construção "identitária", mas, quer saber de uma coisa, eu vou é me preparar para tomar uma cerveja e comemorar esse Nobel. He, he, he... Se eu queria um motivo para uma cerva, agora tenho.

O voto religioso

Vou postar algumas matérias sobre um tema mais do que emergente: o voto religioso. Depois, assim que possível, voltarei para comentar. Abaixo, um artigo de Maria Inês Nassif, articulista do jornal VALOR ECONÔMICO. Vale a pena conferir!

07/10/2010 - 07:59h

O voto do pecado e o poder satânico

Maria Inês Nassif VALOR


A campanha religiosa contra a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, estava em andamento e foi subestimada pelo comitê petista. O staff serrista prestou mais atenção nisso. No dia 14 de setembro, a mulher de José Serra, Mônica Serra, em campanha para o marido no município de Nova Iguaçu, no Rio, falou a um eleitor evangélico, para convencê-lo a não votar em Dilma: “Ela é a favor de matar criancinhas”, disse, segundo relato do jornal “O Estado de S. Paulo”. Mônica quis dizer, usando cores muito, muito fortes, que Dilma era a favor do aborto, e portanto não merecia o voto de um evangélico. Não deve ter sido da cabeça dela – falou porque as pesquisas qualitativas do PSDB já deviam mostrar que a onda “antiabortista” estava pegando, embalada por bispos e padres da Igreja Católica e pastores evangélicos.

Da parte da ala conservadora da Igreja Católica, a articulação foi feita com alarde, de forma a induzir os fiéis de que a recomendação de não votar em Dilma, ou em qualquer outro candidato do PT, veio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A CNBB reagiu timidamente a essa ofensiva, com uma carta que foi também instrumentalizada pelos conservadores, que hoje não são poucos. “Falam em nome da CNBB somente a Assembleia Geral, o Conselho Permanente e a Presidência”, diz a nota, para em seguida lembrar que o documento oficial sobre as eleições, tirado na 48ª Assembleia Geral, foi a “Declaração sobre o Momento Político Nacional”, que não faz referência direta a candidatos ou partidos. Um trecho da carta oficial, todavia, foi apresentado aos fiéis paulistanos como prova de que a Igreja, como instituição, vetava o voto aos petistas. “(…) incentivamos a todos que participem (…), procurando eleger pessoas comprometidas com o respeito incondicional à vida, à família, à liberdade religiosa e à dignidade humana”.

A campanha da Igreja conservadora contra Dilma está usando um sofisma: o “respeito incondicional à vida” torna a igreja antiabortista; o PT defendeu o aborto; logo, o voto em Dilma é pecado. É esse sofisma que foi colocado aos padres de São Paulo pela Regional Sul 1 da CNBB como uma ordem. A secção da CNBB no Estado está impondo a campanha política nas igrejas como obrigação de hierarquia: há uma determinação para que os padres falem na homilia que o voto ao PT é pecado. Os padres estão obrigados também a distribuir jornais de suas dioceses na porta das igrejas, que não raro colocam o veto ao voto no PT como uma determinação da “CNBB”, sem especificar que é da CNBB da Regional Sul 1.


Com ajuda da Igreja, Serra chega aos pobres via medo

Guarulhos é o grande foco, mas não o único. O bispo Luiz Gonzaga Bergonzini declara publicamente “ódio ao PT”. Sua diocese foi uma das formuladoras, na Comissão da Vida da Região Sul, do documento que deu “subsídios” para o manifesto anti-PT que está sendo distribuído nas paróquias como posição oficial da Igreja Católica. Um padre de Guarulhos conta que Dom Luiz Gonzaga vai se aposentar em sete meses, e tem aproveitado seus últimos momentos como bispo para militar ativamente contra o partido de Lula. Para isso, tem usado seu poder de “mordaça” – a autoridade máxima da paróquia é a diocese, e o bispo pode impor suspensões a padres que não seguirem as suas ordens, ou criticarem publicamente suas posições.

Segundo uma senhora que é católica militante, bem longe de Guarulhos, no bairro de Campo Limpo, os bispos levaram ao pé da letra a orientação da regional da CNBB. A senhora ouviu do padre da sua paróquia, durante a pregação do sermão, que os católicos que votassem em Dilma Rousseff deveriam se confessar depois, porque teriam cometido um pecado. Preferiu o discurso da corrupção ao discurso so aborto. E garantiu que recomendava o voto contra o PT por ordem do bispo.

O vereador Chico Macena (PT), da capital paulista, que é ligadíssimo à Igreja, conta que várias paróquias da região de São Lucas falaram contra o PT na homilia. Ele acredita que esse movimento da igreja conservadora paulista influenciou o voto contra Dilma em algumas regiões.

Na campanha de Dilma, soou o alarme apenas na semana anterior às eleições. Foi quando a candidata se reuniu com líderes religiosos e garantiu a eles que não havia defendido o aborto.

A guerra religiosa não se limitou a sermões de padres ou pregações de pastores evangélicos. Espalhou-se como um rastilho pela internet uma “denúncia” de envolvimento do candidato a vice de Dilma, o deputado Michel Temer (SP), com o “satanismo”. O site Hospital da Alma, ligado à Associação dos Blogueiros Evangélicos, diz que Dilma, se vencer a disputa, morrerá por obra de Satã, para que o sacerdote Temer assuma a Presidência.

As versões religiosas sobre a candidatura governista são inventivas e, no conjunto, ajudam a formar um clima de pânico que, em algum momento, pode resultar numa explosão em que a racionalidade da escolha do candidato ao segundo turno escorra pelo ralo.

Não deixa de ser irônico. A Igreja progressista esteve na base da formação do PT, embora limitada a regras da não militância política dentro das paróquias. Teve um papel fundamental em São Paulo. É aqui no Estado, que deu uma guinada conservadora durante e após os governos de Fernando Henrique Cardoso, que a Igreja Católica tem imposto os maiores prejuízos à candidata petista. Dois papados conservadores reduziram os progressistas católicos de São Paulo a um rebanho desorganizado e destituído de poder na hierarquia da Igreja.

A outra ironia da história é que, no momento em que perdem significativamente a força os chefes de política locais, em função dos programas de transferência de renda do governo, e o PT passa a ser o interlocutor preferencial junto aos pobres, os seus adversários tenham arrumado um “atalho” para chegar a esse eleitor humilde, via o temor religioso. O voto colocado como “pecado”, e a eleição como obra de um “poder satânico”, recolocam o eleitorado mais pobre e menos escolarizado nas mãos de líderes conservadores, mas pela força do medo.


Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras

E-mail maria.inesnassif@valor.com.br

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A abstenção

Muito alta a abstenção na eleição de domingo em alguns estados, especialmente do Nordeste. Esse fenômeno se repetirá no segundo turno? E, se sim, quem ganha e quem perde com a sua repetição?
Está aberto o debate. O Anderson, meu ex-aluno, enviou-me um trabalho bem feito sobre a questão, que logo disponibilizarei aqui. Por enquanto, analise o mapa abaixo, confeccionado pelo UOL.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A Folha, sempre a Folha...

A matéria de capa da Folha de São Paulo, o mais tucano dos grandes jornais (em que pese a declaração aberta de apoio a Serra feita pelo Estadão), deixa bem claro o que vem por aí...

Cliff Oliveira, onde é que cê anda?

Grande Cliff!
Você postou um comentário em uma postagem. Fiquei feliz em ter, mesmo que virtualmente, um contato contigo.
Há quanto tempo!
Um abraço,
Edmilson.

Garibaldi e o segundo turno

O Senador Garibaldi Filho (PMDB) foi o grande vitorioso na eleição de domingo. Não apenas elegeu-se, mas garantiu uma vaga de senador também para o seu pai. É que o Garibaldi pai é o 1º suplente da senadora Rosalba Ciarline, governadora eleita do RN. Walter Alves, filho do senador, também foi reeleito deputado estadual.

Garibaldi pilota a sua nave em céu de brigadeiro. Para ele, tanto faz ganhar a Dilma quanto o Serra. Em qualquer um dos governos, seu projeto político vicejará. Então, para quê se comprometer apaixonadamente? Por outro lado, está na hora de cobrar a fatura. E ele já está a fazer isso. Em matéria publicada na edição de hoje do Diário de Natal, o senador afirma: "Eu voto em Dilma. Quero ajudar na campanha. Mas vou examinar como ficará o cenário. Fui muito hostilizado por adversários nessa campanha. Não subirei em um palanque em que não esteja à vontade. Só vou a lugares onde me sinto bem. Ainda vou ver como vai ficar essa situação".

Realmente! Hugo Manso, candidato do PT ao Senado, andou chutando o pau da barraca no processo eleitoral. E fez duras críticas ao peemedebista. Agora, este tem um motivo para não subir do palanque de Dilma junto com Hugo e Vilma.

O que vai acontecer? Ora, Hugo não estaria onde está se não tivesse uma boa dose de realismo, não é? O que você acha? Hugo vai tomar um chá de sumiço e deixar o Senador peemedebista ocupar o espaço. Se não o fizer por vontade própria, como direi?, será "convencido" pelos coordenadores da campanha petista a fazê-lo.

Jean Deputado Federal


Jean Willys, ex-BBB, foi eleito deputado federal pelo PSOl. Uma vitória a comemorar. Por quê? Porque em meio a histeria homofóbica que grassou neste primeiro turno, tê-lo como deputado federal, especial pelos seus posicionamentos claros contra em defesa da diversidade sexual e dos direitos civis de gays e lésbicas, é algo que reaviva nossas esperanças.

Em tempo: Jean foi eleito na esteira do Chico Alencar. Este, com certeza, um grande deputado que, merecidamente, foi reconhecido pelo povo carioca.

A homofobia e Dilma

Quanto a homofobia pesou para tirar votos evangélicos da candidatura da Dilma? Eis um tema aberto para especulações. Ninguém se arrisca a uma análise mais substancial sobre a questão.

Também não vou fazer isso aqui. Assim que tiver mais elementos, prometo!, volto ao assunto.

A vitória de Tarso

Da Carta Capital.

Tarso Genro quer governar com diálogo
Paulo Cezar da Rosa

4 de outubro de 2010 às 12:04h

A verdade das urnas é só uma. Aconteceu o que as pesquisas estavam indicando no Rio Grande do Sul. Com uma alteração. Tarso Genro vinha crescendo na esteira do crescimento de Dilma Roussef. Dilma, como em nível nacional, paralisou e começou a regredir na reta final. Os efeitos da queda de Dilma, todavia, não afetaram a onda de crescimento de Tarso. Na prática, o lulismo impulsionou o rompimento do isolamento do PT gaúcho, mas Tarso foi além e resgatou contornos próprios na reta final.

Uma explicação para isso é o fato de José Fogaça (PMDB) ter sido derrotado há quinze dias do pleito e Yeda Crusius (PSDB) ter jogado a toalha na última semana. Sem adversários à altura, Tarso continuou crescendo. Na disputa nacional, entretanto, a direita gaúcha não recuou. O festival de mentiras, boatos e panfletos apócrifos na boca da urna são prova disso. Domingo passado não faltou munição na artilharia anti-Dilma.

Em balanços realizados ao longo do dia da eleição, o governador eleito atribuiu sua vitória à recomposição das forças do PT, combinada com três movimentos: reconstituição do campo político agregando as forças do PCdoB, PSB e outras; renovação de linguagem junto às novas gerações, via internet etc; ampliação junto aos setores produtivos através de um conjunto de ações e debates sobre a economia e o desenvolvimento do Estado.

Talvez tenha sido isso (mais que o efeito Erenice) que impediu Dilma de manter-se acima dos 50% no primeiro turno. A campanha Dilma, até o momento, sinalizou apenas a continuidade e há uma parte do eleitorado sempre mais afeito às novidades. No caso, Marina, com seu discurso ambiental, por um lado, e Serra, com suas propostas sociais um tanto quanto irresponsáveis, pelo outro, apresentaram uma luz a ser seguida.

Depois da obra feita, fica fácil explicar a construção. Mas sempre é importante tentar entender o que aconteceu, até porque a engenharia só avança criticando o passado. Neste momento, o que todos devem estar começando a pensar é no que fazer para que o Brasil continue no rumo certo. Todo o resto é secundário. E definir o que fazer, é essencial entender o que aconteceu….

Tarso Genro, depois de eleito, em seu primeiro discurso, afirmou que pretende governar dialogando com todos os setores e vai ampliar seu governo para além das forças que compuseram sua frente política. Começou bem, e pode agora retribuir o apoio recebido do presidente Lula.


Paulo Cezar da Rosa é jornalista e publicitário. Publicou o livro O Marketing e a Comunicação da Esquerda. É diretor da Veraz Comunicação e da Red Marketing, ambas sediadas em Porto Alegre. paulocezar@veraz.com.br

Tudo em uma capa


A capa da Carta Capital resume tudo.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Segurança pública: as UPPs

A segurança pública no debate eleitoral

O sociólogo Renato Sergio de Lima, secretário-geral do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, analisa o tratamento dado ao tema. Material do site UOL.

Ainda sobre a ONDA VERDE


No blog NA PRÁTICA A TEORIA É OUTRA, bom como sempre, uma análise bem feita sobre a votação alcançada sobre a Marina.

O México por Carlos Fuentes


O escritor Carlos Fuentes dispensa apresentações, não é? Então, tenho certeza, vais gostar de uma entrevista concedida por ele ao jornal espanhol EL PAÍS. Clique aqui e confira.

Votação de Fátima Bezerra

É consagradora a votação de Fátima Bezerra. A deputada petista alcançou o primeiro lugar entre os federais do RN. De quebra, arrastou Sandra Rosado para a Câmara.

O PT, no entanto, ficou no mesmo na esquina do Atlântico: uma deputada federal e um deputado estadual. Pelo menos, na disputa para Assembléia, fez uma corrida solitária e não carregou nenhuma companhia indesejada.

Voltando à Fátima, restam poucas esperanças de que, com esse cacife, ela não volte a acalentar o seu sonho de ser prefeita de Natal. Tem acontecimentos que são mais do que esperados, não é?

Marina vitoriosa

Marina é a grande vitoriosa destas eleições. Não apenas deixou de seguir o script de Heloísa Helena, que, como você lembra, teve uma subida inicial razoável, fez muito barulho, para derrapar, no final para algo em torno dos 6% dos votos. Marina abiscoitou 20% dos votos e terá grande peso na disputa política que se avizinha. Fez por merecer, convenhamos. Agora é esperar para ver como ela vai tratar o grande capital político alcançado.

Tentando entender a "onda verde" I: a análise de Azenha

Tentar entender o por quê da grande votação de Marina será o esporte preferiado da rapaziada por um tempo enorme (uns três dias...). Depois, virão outros temas efêmeros. Veja aí abaixo a posição do Azenha, do site Viomundo.

Tentando entender a onda verde que provocou o segundo turno Por Luiz Carlos Azenha

Houve onda verde, sim. E a onda verde, que pegou de surpresa a todos os institutos de pesquisa, é que está levando a eleição presidencial para o segundo turno.

Dito isso, é preciso tentar entender o que alimentou essa onda verde.

Sinceramente, não acredito que isso se deva apenas à sórdida campanha movida por religiosos católicos e evangélicos contra a candidata governista.

Isso jamais renderia a Marina Silva mais de 18 milhões de votos!

Por dados anedóticos, colhidos aqui e ali, é possível notar que Marina respondeu a uma aspiração dos jovens, que se mostraram fartos com a polarização PT/PSDB.

Se assim for, a proposta do presidente Lula de promover a campanha em seus termos, ou seja, num confronto bipolar, fracassou nas urnas neste domingo.

Os eleitores de Marina querem saber mais. Querem mais que as produções de alta qualidade do marqueteiro João Santana.

Quem é leitor do blog sabe que já tratei mais de uma vez da falta de politização da campanha no primeiro turno.

Foi uma opção do PT, que parecia acreditar que bastava propagandear os feitos econômicos do governo — o que foi feito com competência na campanha televisiva — para garantir a vitória em primeiro turno.

Marina Silva se projetou, em minha modesta opinião, justamente nesse buraco negro da falta de politização.

Outra observação necessária: um presidente com 80% de aprovação nas pesquisas conseguiu transferir pouco mais da metade disso para a sua candidata.

Reflexo, em minha opinião, da falta de politização que acompanhou a ascensão social de milhões de brasileiros para a classe média. Vários comentaristas já trataram disso. Seria o “fator Berlusconi”. Ou seja, uma ascensão social que promove um eleitorado conservador, cuja lealdade não reflete compromisso político com um projeto e muito suscetível às questões morais — o boato de que o vice de Dilma é satanista, por exemplo. O “melhorismo” de Lula, na definição de Plínio de Arruda Sampaio, se assenta sobre bases mais frágeis do que se imaginava?

O segundo turno, em minha opinião, é resultado de um conjunto de fatores.

Sem qualquer sombra de dúvida, a mídia desempenhou um papel relevante, disparando balas de prata que reduziram sensivelmente a vantagem da candidata petista nas últimas semanas de campanha.

Acima de tudo, a mídia cumpriu a tarefa a que se propôs, de desviar o foco da eleição das questões econômicas para os escândalos.

Serra não recolheu os escombros, que cairam no colo de Marina Silva.

Acima de tudo, no entanto, é preciso colocar todos os pingos nos is dos erros na campanha da candidata governista:

1. Como todos sabíamos antecipadamente do papel que a mídia iria desempenhar em 2010, ninguém detectou o potencial explosivo dos negócios em torno de Erenice Guerra?

2. Por que a campanha de Dilma Rousseff não se antecipou aos boatos de forma didática, como Barack Obama fez nos Estados Unidos, criando um site específico para combatê-los?

3. Por que a campanha de Dilma não rebateu as promessas de José Serra e não politizou a campanha?

De qualquer forma, a votação expressiva de Marina Silva indica uma mudança significativa no quadro político brasileiro e, portanto, nos próximos 30 dias de campanha.

Acredito que a campanha de José Serra vai dar alguns passos em busca do centro político, representado agora pela “terceira via” de Marina. Ficará muito mais difícil, nestas circunstâncias, fazer agora a polarização politizada que o PT poderia ter feito durante a campanha do primeiro turno.