quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Obstinadas linhas : uma esquisse de apresentação

Luciana de Oliveira Chianca*




Em 1995 chegava ao público Linhas Apagadas, publicado pela editora da UFPB  e com um prestigioso Prefácio de Manuel Correia de Andrade. Esta obra explicita a dinâmica do desaparecimento progressivo e definitivo dos bondes na cidade do Recife pelos anos 40 do século XX.

Ao contrário daquelas, este livro tem linhas obstinadas, que hoje se renovam nesta segunda edição (ed. Clube de autores, 2013).

Linhas Apagadas repousa numa sensível reflexão sobre o "misterioso caso" da extinção dos bondes no Brasil. Revelando como o discurso das classes dirigentes é reproduzido pelos meios de comunicação de massa num diálogo sem interlocução, Gilvando Sá Leitão Rios, sociólogo e professor da UFRPE, revela como se deu o investimento da imprensa recifense na formação de uma opinião pública que deveria acreditar que o sistema o bonde era "transporte de pobre".  Qual a íntima convicção e os verdadeiros interesses destes dirigentes?  Como se constrói um imaginário onde o combustível fóssil substitui a eletricidade, e o veículo de transporte individual aos poucos suplanta o coletivo?

Sem saudosismos, Gilvando Rios responde essas e outras perguntas, dialogando em completa abertura com conceitos sociológicos e filosóficos cruciais neste debate: a modernidade, o individualismo e o progresso por exemplo, são apreendidos em sua análise através de uma convincente contextualização atingida através de  noticias de jornal, propagandas impressas, crônicas e uma entrevista com Barbosa Lima Sobrinho, ex-governador de Pernambuco.

Através de Linhas Apagadas percebemos como algumas categorias nativas foram progressiva e ideologicamente construídos através da mídia escrita, para suportar um projeto nacional de substituição progressiva do capital inglês pelo norte americano, consolidando um modelo de industrialização e urbanização nacional cujas marcas conhecemos em nosso cotidiano contemporâneo.

Enfrentando o seu tempo, Gilvando Rios mostra também que apesar de apagados, silenciados, esquecidos ou ainda romantizados ou folclorizados noutras realidades e estados brasileiros, o bonde elétrico subsiste como um importante ícone da racionalidade e da sustentabilidade no transporte coletivo urbano em muitas partes do mundo.

Por estas e outras razões melhor explanadas para um leitor atento, Linhas Apagadas é hoje uma referencia nos estudos sobre a cidade, pois discute o transito, o transporte, a mobilidade, a urbanização e o direito à cidade no Brasil.  

Obrigada Gilvando Rios, por nos proporcionar esta apaixonante e deliciosa leitura que recomendo a todos que se interessam sinceramente por esses temas.
João Pessoa, 25/10/2013



*Dra. em Antropologia, profa. da UFPB

Um comentário:

Viviana Mesquita disse...

bacana a resenha da professora da UFPB, Luciana de Oliveira Chianca, instiga-nos a leitura e bastante atual para pensarmos não só a cidade, mais o modo de vida individualizante que nos atravessa.