O artigo abaixo aborda questões de interesse de todos quantos se debruçam sobre os impactos da Copa do Mundo na vida de nossas grandes cidades.
A Copa do Mundo e os complementos urbanos necessários
Autor(es): Aldo Paviani*
Correio Braziliense - 29/09/2011
Os jogos da Copa, em 2014, e as competições olímpicas, em 2016, ocorrerão em poucas e populosas cidades brasileiras, geralmente metrópoles nacionais ou regionais. Tomando-se as três metrópoles nacionais, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, nota-se que as obras físicas, como os estádios, estão em andamento. Há atraso em São Paulo, em progresso no Rio, no Maracanã e em Brasília, no Mané Garrincha (agora apelidado de Estádio Nacional). Nota-se para esses eventos que excessiva ênfase é dada a estádios, pois terão competições capazes de atrair multidões. No entanto, nas três grandes cidades e nas demais sedes dos jogos, há necessidade de atender outras demandas, isso porque a atenção de todo o mundo estará voltada para o Brasil.
Por isso, lembra-se que o afluxo de pessoas exigirá o que denominamos de complementos urbanos com ações, tais como preparar a rede hoteleira, equipar hospitais e modernizar restaurantes. Indo além, avenidas e ruas deverão ter pavimentação renovada, abertura de ciclovias, construção de sanitários públicos e calçadas; ampliação de terminais rodoviários, portuários e aéreos e melhorias em outros serviços como limpeza de vias e praças (com lixeiras, bancos e bebedouros) — tudo para que possamos estar de acordo com esses megaventos desportivos. Além disso, deve-se aumentar o efetivo de segurança pública e treinar policiais para o atendimento de estrangeiros. Prever as possibilidades de atentados e quebra da tranquilidade por parte de assaltantes e traficantes, cujas ações devem ser contidas preventivamente e com firmeza.
Os governantes e empresários deverão atentar para os impactos do afluxo de turistas para centros urbanos que não os das sedes de competições e jogos e que normalmente já são procurados por brasileiros e estrangeiros, como Foz do Iguaçu, Pantanal Mato-Grossense, Manaus e Floresta Amazônica. Temos igualmente um extenso litoral e pontos turísticos especiais no interior, como as estações de águas, em São Paulo, Goiás e Minas Gerais. Será previsível que, antes e depois dos megaeventos, esses estados sejam procurados para lazer e entretenimento.
Há localidades que atraem turistas o ano todo, como Parati (Rio), as Missões Jesuíticas, os Aparados da Serra, Gramado e Canela (Rio Grande do Sul), os centros históricos de Minas Gerais (Ouro Preto, Mariana, Congonhas e outras), assim como Pirenópolis e Caldas Novas (Goiás), Sete Cidades (Piauí) e muitos outros. A lista é longa, mas quem conhece os centros urbanos referidos sabe que gargalos precisam ser eliminados nos transportes públicos e na rede hospitalar, que necessita ampliar leitos, contratar médicos, enfermeiros e comprar novos aparelhos para exames e emergências.
No caso de Brasília, todos esses itens merecem atenção especial porque os visitantes procurarão a capital antes e depois da Capa em razão dos atrativos arquitetônicos, urbanísticos e simbólico-cívicos que a cidade apresenta. Em Brasília, autoridades e políticos pleiteiam que a capital seja contemplada com a abertura da Copa do Mundo. Esse fato trará torcedores brasileiros, estrangeiros e acompanhantes, pessoas que, enquanto a bola rola, percorrerão os recantos da cidade.
Para tanto, a urbe não está preparada, ainda, com os complementos urbanos banais como os transportes de massa que interliguem todos os pontos da cidade e não apenas o aeroporto aos hotéis com o VLP. Ampliar as possibilidades de transportes cruzados como entre as quadras 400 e 900 Sul e Norte; linhas de ônibus da Asa Norte para o Mirante de Niemeyer, em construção no alto do Colorado, ou para o Catetinho. Igualmente esses pontos merecerão complementos para o conforto dos visitantes.
Além disso, guias turísticos capacitados — bi ou trilíngues — serão importantes para a comunicação entre as pessoas. Estão se providenciando banheiros públicos, espalhados no centro e nos bairros? As pessoas terão um conjunto de mapas para se orientar na capital? Há bancos nas praças para o descanso dos passantes? Brasília possui um guia turístico com indicação de museus, templos e monumentos?
É hora de correr contra o tempo, avaliar impactos sobre o ambiente e sobre o equipamento urbano. Impõe-se ampliar a arborização e os jardins do Plano Piloto e de todos os bairros. Afinal, a Copa do Mundo será oportunidade de implantar os complementos urbanos e embelezar a capital. Deseja-se que os visitantes entendam a geografia do DF e possamos obter um saldo positivo com retorno dos investimentos realizados.
Professor emérito e pesquisador associado da UnB.
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quinta-feira, 29 de setembro de 2011
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Mentiras, coisas não tão belas e fantasia organizada: a copa em Natal
Há quem, na disputa eleitoral em curso, apresente-se como patrocinador da proposta vencedora de Natal como sede da Copa do Mundo. É uma beleza... Tudo é divino, tudo é maravilhoso... Mas, por sob a capa da copa, o caos espreita... E este não será coisa de pouca monta, pode acreditar.
Natal ainda tem como principal suporte viário a estrutura legada pela presença norte-americana na década de 1940! Um caminhão bate na traseira de outro, aí pelas 7h00 de qualquer dia da semana na Br-101 na altura de Emaus, e a entrada da cidade fica bloqueada. Ninguem entra e sai.
Aqui temos orgulho de tudo, não é? Afinal, como dizia aquela música que embalava a venda da cidade aos turistas, "viver aqui é sonhar". Pois pode estar começando a virar pesadelo...
Quando as obras do Machadão forem realmente iniciadas, os congestionamentos bloquearão as principais avenidas da cidade. Uma ambulância (deixem-me ser trágico) poderá demorar umas boas duas horas para fazer o percurso Neópolis-Hospital Walfredo Gurgel.
Em uma cidade onde o transporte público é precário, essa situação vai aumentar o estresse cotidiano.
Mas, agora, quem liga prá isso? Comemore-se a Copa, e deixemos o resto prá depois. Essa a mensagem quase explícita que os poderes públicos locais emitem.
Plano de Mobilidade Urbana Sustentável? Quem se preocupa em elaborar um? Improvisando, dá certo... Essa a nossa saída mágica.
Há uma máxima, meio vagabunda, vá lá, mas que tem muita força, de que não existe almoço grátis. A conta para que Natal venha a ser uma das sedes da copa será bem salgada. Mas, como entre nós, dinheiro público parece nascer em árvore, ninguém também está nem aí prá isso. E, quando questionados, os defensores da fantasia, de pronto, saem com essa; "não, mas a parceria com a iniciativa privada..." Piada, não é? Você acha, no fundo, bem no fundinho, que o empresariado local vai meter a mão no bolso e se arriscar nessa aventura? Se o BNDES entrar na jogada, como já está fazendo no Rio, aí, sim, a coisa funcionará. Às mil maravilhas. Afinal, no Brasil, todo mundo adora falar mal do Estado, mas ninguém sobrevive sem uma chupetinha ligada na pobre da viuva...
E quem está preparado para enfrentar o que vem por aí? A Prefeitura de Natal, pelo visto, demitiu-se do planejamento. O governo do Estado, se se confirmar a vitória de Rosalba, terá pelos menos uns dez meses de boa justificativa ("arrumando a casa").
Era necessário que entidades da sociedade civil, pesquisadores, universidades e pessoas que defendem e amam Natal, que são muitas, viabilizassem um espaço para trocar idéias, discutir a situação e municiar com informações rigorosas a cidadania da esquina do Atlântico. Porque, sem querer encarnar o papel de desmancha-prazeres, essa fantasia, dentro em breve, será pesadelo. E, quando isso ocorrer, precisamos de algo mais do que simples exercício de retórica.
Natal ainda tem como principal suporte viário a estrutura legada pela presença norte-americana na década de 1940! Um caminhão bate na traseira de outro, aí pelas 7h00 de qualquer dia da semana na Br-101 na altura de Emaus, e a entrada da cidade fica bloqueada. Ninguem entra e sai.
Aqui temos orgulho de tudo, não é? Afinal, como dizia aquela música que embalava a venda da cidade aos turistas, "viver aqui é sonhar". Pois pode estar começando a virar pesadelo...
Quando as obras do Machadão forem realmente iniciadas, os congestionamentos bloquearão as principais avenidas da cidade. Uma ambulância (deixem-me ser trágico) poderá demorar umas boas duas horas para fazer o percurso Neópolis-Hospital Walfredo Gurgel.
Em uma cidade onde o transporte público é precário, essa situação vai aumentar o estresse cotidiano.
Mas, agora, quem liga prá isso? Comemore-se a Copa, e deixemos o resto prá depois. Essa a mensagem quase explícita que os poderes públicos locais emitem.
Plano de Mobilidade Urbana Sustentável? Quem se preocupa em elaborar um? Improvisando, dá certo... Essa a nossa saída mágica.
Há uma máxima, meio vagabunda, vá lá, mas que tem muita força, de que não existe almoço grátis. A conta para que Natal venha a ser uma das sedes da copa será bem salgada. Mas, como entre nós, dinheiro público parece nascer em árvore, ninguém também está nem aí prá isso. E, quando questionados, os defensores da fantasia, de pronto, saem com essa; "não, mas a parceria com a iniciativa privada..." Piada, não é? Você acha, no fundo, bem no fundinho, que o empresariado local vai meter a mão no bolso e se arriscar nessa aventura? Se o BNDES entrar na jogada, como já está fazendo no Rio, aí, sim, a coisa funcionará. Às mil maravilhas. Afinal, no Brasil, todo mundo adora falar mal do Estado, mas ninguém sobrevive sem uma chupetinha ligada na pobre da viuva...
E quem está preparado para enfrentar o que vem por aí? A Prefeitura de Natal, pelo visto, demitiu-se do planejamento. O governo do Estado, se se confirmar a vitória de Rosalba, terá pelos menos uns dez meses de boa justificativa ("arrumando a casa").
Era necessário que entidades da sociedade civil, pesquisadores, universidades e pessoas que defendem e amam Natal, que são muitas, viabilizassem um espaço para trocar idéias, discutir a situação e municiar com informações rigorosas a cidadania da esquina do Atlântico. Porque, sem querer encarnar o papel de desmancha-prazeres, essa fantasia, dentro em breve, será pesadelo. E, quando isso ocorrer, precisamos de algo mais do que simples exercício de retórica.
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