terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A morte do planejamento urbano em Natal: a apreensão singular de um asno

As forças do mercado não podem guiar a ocupação e uso do solo urbano. No início da modernidade, no albor da revolução industrial, a premência de mãos e braços para as fábricas fez com que as cidades fossem subordinadas totalmente às diretrizes do mercado. Engels escreveu maravilhosa obra dando conta, como riqueza de detalhes, dos dramas humanos desse período na Inglaterra. Com o avanço das lutas operárias e a (re) construção moderna de um espaço público, a regulação estatal se impôs e passou a subordinar minimamente os interesses do mercado às necessidades da cidadania. Foi aí que a cidade moderna tal qual a conhecemos começou a se consolidar.

Alguns diriam que essa é uma leitura meio funcionalista. Deixemo-los em paz com as suas patrulhas e sigamos adiante. Pois bem, nos trópicos, em que pese o nosso complexo de vira-latas, sempre tivemos, sim, controles (alguns deles meio burros, vá lá!) sobre o uso do solo urbano. Claro, eu sei, a cidade era controlada por forças tradicionais, anti-mercado, arcaicas... Mas, para o bem e para o mal, Mamon nem sempre “destruiu e construiu coisas belas” a seu bel-prazer. Não fosse isso, quem sabe?, talvez nem tivéssemos as magníficas cidades da América Espanhola. Pois é, em meio ao caos (????), você encontra beleza e arquitetura original em muitas partes desta sofrida América Latina...

Bueno, mas aí vem Natal, a cidade do sol, em plena Era de Aquários, no momento mesmo em que temos uma burgomestre soi-disant “verde” , e joga na lata do lixo quaisquer veleidades de planejamento urbano. E quando digo Natal, deixem-me ser acaciano, digo Grande Natal... As forças do mercado, traduzidas em nomes tão ao gosto do consumismo jeca, avançaram sobre todos os espaços da cidade e estão a transformar radicalmente as paisagens urbanas no maior assentamento humano da esquina da América do Sul. E isso em um território marcado por ecossistemas delicados, como é o caso das dunas e lagoas.

Por falar em lagoas, em Nova Parnamirim, essa fantástica construção sócio-espacial natalense em área do município vizinho, está sendo tomada pelas águas que emergem e formam lagoas. Nada mais esperado, não é? Aquilo ali eram dunas e lagoas. A natureza está pedindo de volta o seu pedaço...

Há duas semanas, uma pista da Br-101 desabou. Qualquer eqüino que puxe uma das carroças que se arrastam pela rodovia, ao olhar para os lados e perceber os condomínios em construção, mesmo com a limitação da viseira (que não é ideológica...), identificará a força causadora do desastre. O nosso asno, que não é aquele de Buridan, mesmo agastado pelas chicotadas do carroceiro, terá um alívio ao perceber que aqueles que o denominam de burro são mais estúpidos do que ele.

Mesmo diante do desastre, nada mais comove. A cidade, anestesiada,quedou-se paralisada diante das forças do mercado. A área adjacente ao Rio Pitimbu está sendo destruída. Na verdade, já está seriamente comprometida. Os nossos representantes políticos, envolvidos na feira de mediocridades, estão mais preocupados no debate sobre o que fazer com o legado da prefeita de Natal. Esta, vivendo o seu inferno astral por razões outras que não as da derrota do planejamento urbano e do respeito ao uso sustentável do meio ambiente, vive a sua situação de boi em rio infestado de piranhas. Mas isso é o de menos... Quem vai ser o prefeito ou prefeita de Natal em 2012, eis um debate inócuo. Participar desse debate é o mesmo que, em meio à casa em chamas, preocupar-se em convidar os amigos para o churrasco de domingo.

Bom. Livres e desimpedidas, sem nenhum óbice imposto pela regulação do Estado (o que implica em atores diversos, não apenas os aguerridos promotores do meio ambiente), as forças do mercado partem agora para uma re-colonização da cidade. Sim!, após devorarem as áreas limítrofes à Parnamirim, buscam nacos de terra nos bairros de Petrópolis e da Ribeira. A última novidade é a demolição do Estádio Juvenal Lamartine. O nosso asno, que não joga futebol, na sua asnice, ao saber dessa cavilosa invenção, pensou (ora, ora, o pessoal do Big Brother não pensa que pensa, por que cargas d’água um pobre eqüino não pode pensar?) : “é o começo do fim!”.

Pobre asno apocalíptico, dirão os pós-modernos de salão. O asno erra, mas apenas pela metade. Em verdade, o fim já chegou. Já estamos imersos nele. O sonho virou pesadelo. Ué, o slogan da cidade na década de 1980 era “Viver aqui é sonhar. Seja bem vindo!”. O sonho virou pesadelo. Claro, claro, não para todo mundo. O nosso burro, quando descansa um pouco, mastiga uns tratados sobre justiça ambiental. E, tal qual o Bode Orelana, criação imortal do Henfil, cospe sofisticadas elaborações. A última delas, parece que advinda da degustação de uma dissertação de mestrado meio que plagiada de um documento do Banco Mundial, foi sobre a desigualdade ambiental na cidade do sol. Ele previu, para breve, barracas de refugiados ambientais no Parque das Dunas...

A morte do planejamento urbano em Natal é a primeira de uma série de mortes anunciadas. Voltarei, mais tarde, com informações cruas sobre o funeral.

Um comentário:

Christiano disse...

Saudações professor!

Me chamo Christiano Maranhão, sou aluno da pós-graduação em turismo da UFRN e diante de minhas pesquisas e leituras atuais , encontrei uma obra de sua autoria que creio irá me ajudar na produção de minha dissertação que discute a existência ou não de Capital Social relacionado com os impactos provocados pelo turismo nas praias urbanas de Natal.

Gostaria de saber como faço para poder ler, na íntegra, a obra: A Construção da Cidade do Prazer ? Preciso ter informação quais eram os Movimentos Sociais de Natal e suas conquistas efetivas na época da construção do Parque das Dunas- Via costeira ( 1970/1980). se possivel , se puder indicar alguns caminhos ou textos e/ou livros que possam embasar tal situação, agradeceria


Sem mais a dizer, agradeço a atenção e aguardo Contatos

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