quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Habitus e reflexividade segundo Margareth Archer

Lí o texto abaixo há algum tempo. Na época, comentei com alguns alunos. Dia desses, na Cooperativa, encontrei o intrépido Cadu e ele me falou dessa tradução. Beleza! Então, transcrevo-a para que você também confira o texto que é uma interessante abordagem da instigante questão sociológica que é a reflexividade.

Dado que, como já se disse alhures a respeito de Freud, Bourdieu faz parte da atmosfera de nosso tempo nas ciências sociais, os comentários da autora a respeito do conceito de habitus são, do meu modesto e provinciano ponto de vista, aportes para uma discussão mais fecundo sobre a articulação entre disposições e reflexividade.

Bueno, deixemos de coisas e vamos ao texto?


Habitus, reflexividade e realismo*
Margareth Archer

O papel do hábito - a ação habitual, rotinizada ou costumeira - possui uma trajetória extremamente longa na teoria social. Os teóricos possuem uma dívida com Charles Camic (1986) por ter ele demonstrado que os "hábitos" desempenharam um papel maior nas teorizações clássicas do que é geralmente reconhecido. Sua definição também é agradavelmente direta e ecumênica: "O termo 'hábito' geralmente denomina uma disposição mais ou menos auto-realizadora ou uma tendência a engajar-se em uma forma de ação previamente adotada ou adquirida" (1986:1044). Contudo, é difícil concordar com suas afirmações ousadas de que "a sociologia contemporânea praticamente dispensou o conceito" (1986:1040); de que "não há necessidade de seguir adiante no tempo com essa investigação" (1986:1076) - referindo-se a além das primeiras décadas do século XX - ou aceitar que o fim do hábito na teoria social resultou de uma bem-sucedida apropriação por parte da psicologia behaviorista, apoiada pela substituição, por Talcott Parsons, da habituação pela regulação normativa. Mais difícil ainda de aceitar é o ponto de vista de Camic acerca da reflexividade como usurpadora da ação habitual: "O modelo reflexivo já passou a parecer tão obviamente adequado que aqueles que o utilizam raramente se preocupam em fornecer uma defesa razoável, ou mesmo uma justificação explícita, da prática de uniformemente projetar a conduta humana de acordo com esse único molde" (1986:1041). No que segue, quero questionar a morte do hábito; pretendo ainda sugerir que há muitas razões para se atentar para a reflexividade atualmente; por fim, buscarei desafiar a noção de que hábito e reflexividade configuraram uma relação de soma zero ao longo dos últimos cem anos de teorização.

Quando escrevia, em 1986, era compreensível que Camic ainda não pudesse detectar a nascente revitalização do pragmatismo, porém era menos admissível que não tivesse se dado conta de que a reformulação do habitus operada por Bourdieu já começava a se tornar o que Scott Lash chamou de "o único jogo cultural na praça" (há uma única referência no artigo de Camic à Reprodução (1970)). Além disso, havia bons motivos, que foram reforçados ao longo das duas últimas décadas do século XX, para que se atentasse à ação reflexiva. Contudo, os que aqui apresentarei não são idênticos àqueles que Alexander, já intuindo algo, expôs em 1982 (1982:67ss). Finalmente, a atitude predominante na teoria social está longe de ser um endosso de um molde único da ação reflexiva, mas, em vez disso, o que vemos são esforços bastante distintos no sentido de hibridizar hábito e reflexividade.

Há, entretanto, um quebra cabeças envolvendo certas convergências teóricas que pavimentaram o caminho para a popularidade desses esforços atuais de hibridização. Por um lado, os pragmatistas modernos têm se tornado muito mais preocupados não com a rotina, mas, como no título de seu livro mais emblemático, com A Criatividade da Ação (Joas [1992] 1996). Inversamente, vários adeptos do realismo crítico, formados na base do "modelo transformacional da ação social" (Bhaskar [1979] 1989) e outros pela "abordagem morfogenética" (Archer 1979, 1988, 1995), estão hoje entre os principais defensores das noções de ação rotineira, hábitos e habitus. Em outras palavras, pragmatistas e realistas aparecem "nos lados errados" na discussão acerca da reflexividade - com os pragmatistas cada vez mais propensos a enfatizar a contribuição da ação inovadora, ao passo que certos realistas são firmes defensores das disposições habituais.

Esta sobreposição carece de uma explicação. Temos a impressão de que os dois lados buscam fortalecer seus flancos mais vulneráveis numa época de rápidas mudanças. Os pragmatistas estadunidenses clássicos sempre mantiveram que a reflexividade (exercida por meio da conversação interna) surgia no momento em que a ação habitual era bloqueada por circunstâncias problemáticas. Poder-se-ia argumentar que a globalização cria muito mais problemas refratários a respostas rotineiras tradicionais e, portanto, gera um aumento de deliberações reflexivas. Contudo, isso seria perfeito demais, pois Joas enfatiza a criatividade situada de toda ação (em oposição a orientações de ação propositada, normativa ou racional-instrumental) sem incrementar o papel da reflexividade, já que supõe que a criatividade - cuja falta de definição nos instiga - não envolve premeditação.

Inversamente, o realismo crítico entrou em cena oferecendo uma ontologia de profundidade (Bhaskar [1979] 1989), mas tem enfrentado duas críticas recorrentes. Por um lado, a acusação de reificação tem sido constante, levando alguns a enfatizar apenas a análise sincrônica. Isso fica claríssimo no trabalho de Manicas, que, apesar de incluir realismo no título de seu último livro, A Realist Philosophy of Social Science, concentra-se exclusivamente na dimensão sincrônica, tratando a distribuição diacrônica da estruturação dos papéis, regras e recursos, e interesses como "questões a serem trabalhadas" (Manicas 2006:75ss). Indagações sobre como tal estruturação adquiriu essa conformação e não outra permanecem sem resposta. Por outro lado, apesar da insistência do realismo na dependência da ação e na relacionalidade, de modo geral os realistas enxergam as relações sociais como fundadas em interesses objetivos compartilhados e nos seus efeitos associados sobre a motivação da ação. Em suma, o flanco mais vulnerável do realismo resume-se à ausência de uma teoria robusta e relacional da integração social. Parece que a invocação, de resto intrigante, do hábito, feita por tantos realistas, constitui uma tentativa de preencher esse vazio.

O que estes desenvolvimentos buscam satisfazer são as objeções basicamente razoáveis - embora muitas vezes exageradamente unilaterais - no sentido de apontar que as influências da ordem social sobre a agência não devem ser localizadas nem inteiramente no interior dos agentes nem inteiramente fora deles. O primeiro tem causado certo incômodo para o pragmatismo; o segundo para o realismo. Apesar da alta proporção de socialidade internalizada, sobretudo no pragmatismo de Mead, o próprio fato de que os agentes enfrentam obstáculos externos que frustram suas rotinas habituais e excedem seus repertórios habituais significa que nem todas as influências sociais podem ser subcutâneas - o que deixaria o "eu" espontâneo permanentemente desempregado. O constante jogo, no pragmatismo contemporâneo, entre problemas situados e criatividade situada nivela e distribui a carga de trabalho entre o "eu" (sempre muito mais um realizador de tarefas do que um passional id freudiano) e o Outro Generalizado, equilibrando o social interno e social externo.

Por sua vez, o realismo nunca localizou a socialidade inteiramente fora da agência; se tivesse feito isso, suas referências frequentes à mistificação ideológica e, de fato, às falácias epistêmicas, seriam incompreensíveis. Aqueles que já tentaram fazer a crítica de que o realismo filia-se ao individualismo monádico num mundo social totalmente exterior (Dépelteau, 2008; King, 1999, 2007) têm dificuldade para explicar a importância que o realismo sempre atribuiu à crítica explanatória e ideológica (Bhaskar, 1989:60-71; Collier, 1994:101-104, 170-190). No entanto, a recente incorporação do hábito e do habitus presumivelmente dá conta deste tipo de crítica ao permitir que uma dose maior do social seja injetada sob a pele do agente.

A minha própria versão da teoria social realista - a abordagem morfogenética - não é muito receptiva ao atual entusiasmo em relação à ação habitual por parte dos realistas por duas razões. As duas dizem respeito àquilo que a abordagem morfogenética é e faz: (i) trata-se de uma moldura explanatória utilizada para examinar o jogo entre estrutura e agência e seus resultados e (ii) trata-se de uma caixa de ferramentas para o desenvolvimento de histórias analíticas da emergência de determinadas formações sociais, estruturas institucionais e formas organizacionais. Em outras palavras, a abordagem morfogenética é, ao mesmo tempo, um programa explicativo (o complemento metodológico do realismo crítico) e uma forma de dar conta das trajetórias e dinâmicas das formações sociais.

Morfogênese refere-se "àqueles processos que tendem a elaborar ou modificar a forma, estrutura ou estado de um dado sistema" (Buckley, 1967:58), ao passo que a morfostase refere-se a processos no interior de um sistema complexo que tendem a preservá-lo sem mudanças. Como uma moldura explicativa, a abordagem morfogenética endossa uma ontologia estratificada para estruturas (Archer, 1995), culturas (Archer, 1988) e agentes (Archer, 2000), dado que todas possuem propriedades e poderes emergentes e irredutíveis - e explica todo resultado social como o produto de suas relações. Os resultados, que podem ser amplamente reprodutivos ou largamente transformativos, dependem do entrelaçamento da estrutura, da cultura e da agência, mas sem considerá-las inseparáveis, como na "conflação central" (Archer, 1995:93-134) de Giddens, Bourdieu e Beck, que resulta num amálgama que impede o exame de sua interação. Tampouco se trata de codeterminismo, o que sugeriria uma abordagem dualística - no sentido de literalmente possuir duas abordagens (Dépelteau, 2008)1; a morfogênese não é senão um dualismo analítico. Fundamentalmente, o que se perde com tal codeterminismo é, inter alia, a dupla morfogênese na qual os próprios atores mudam no processo em que tentam ativamente transformar a ordem social. Isto pode ser visto como uma das principais formas não meadianas pelas quais o social é interiorizado.

Meu objetivo genérico consiste em dar conta das formas de interação que geram a morfogênese, num extremo e a morfostase, no outro, seja no nível micro, meso ou macrossocial. Para discutir o impacto dessa abordagem realista para a relação entre hábito e reflexividade, será necessário recorrer a ela como, simultaneamente, uma moldura explicativa e uma história analítica da emergência. A discussão de ambos os aspectos requer uma breve inspeção do ciclo morfogenético básico. A partir daí, primeiro situarei a importância diferencial do hábito sobre o continuum morfostático-morfogenético, que é também a trajetória histórica do mundo desenvolvido. Segundo, efetuarei críticas à natureza ahistórica do debate hábito/ação habitual, o que me permitirá também situar a importância da reflexividade no panorama histórico da transformação estrutural e agêntica (i.e. a dupla morfogênese e suas consequências epocais).

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