terça-feira, 15 de setembro de 2009

Palavra e democracia

Reprouzo mais abaixo artigo de autoria do jornalista Marcos Rolim. Ex-deputado federal pelo PT do RS, Rolim atualmente se dedica a uma ativa militância em defesa dos direitos humanos e ao trabalho de consultor na área de segurança pública. Sua verve crítica e a sua crítica rigorosa ao empobrecimento da vida política nacional transparecem no pequeno texto que disponibilizo. Boa leitura!


PALAVRA E DEMOCRACIA
Marcos Rolim
Jornalista

Em um sentido aristotélico, “retórica” era a virtude da persuasão. Uma capacidade essencial para a democracia ateniense, onde as decisões dependiam do encantamento produzido pelo discurso. Platão se tornou um crítico da retórica, porque a identificou com a manipulação da verdade pelos sofistas; mas nunca a abandonou, chegando a sonhar com uma arte da argumentação capaz de convencer os deuses; ou seja, uma virtude comunicativa que, para além de toda demagogia, pudesse convencer a audiência mais exigente.

Devemos em grande parte ao filósofo polonês Chaim Perelman a revalorização moderna da retórica, após longo período de aniquilamento positivista. Como arte da argumentação, a retórica é um recurso da democracia, porque necessária à persuasão, única forma de superar conflitos que não estão dispostos pela ordem da verdade. Sem a palavra bem disposta, afinal, não há como produzir acordo sobre o justo, ou o bom; nem como decidir diante de antagonistas com interesses legítimos.

Por isso, quando a palavra perde seu valor, é a democracia que adoece. Quando a palavra é pouco mais que um gesto avulso; quando o discurso é só artifício; quando o que foi dito ontem já não vale; quando minha palavra é “ética” a depender da rua por onde ando, então não há acordo possível e duas portas se abrem: a do cinismo e a da violência.

A democracia que temos já não tem política. Nela, o futuro se ausentou porque as palavras não autorizam expectativas. Será preciso reinventá-la, entretanto, antes de desesperar. Porque o desespero é só silêncio e o melhor do humano é a palavra.

2 comentários:

Marcia disse...

todos que fazem política(nós) deviam ler, este pequeno texto de Rolim(não ouvia falar nele faz tempo). e sentir como um soco na estômago, o que ele relata numa verdade tão forte , quanto sua própria e adequada retórica.
Márcia Aparecida

Dennys Lucas disse...

ah professor, talvez eu viva com muitos preconceitos a me atormentar, mais do que o devido, assim percebi nesta leitura que fiz. Pois alguns termos me levaram a desarticulações. É identificável a necessária colocação da retórica para a sobrevivência da democracia e do respeito as legitimidades possíveis. Mas a dicotomia ainda me agride. Talvez seja a juventude...

Dennys Lucas