quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A lucidez da crítica na coluna do Alon.

Para quem gosta da análise crítica, sóbria e responsável sobra vida política nacional, não há outro caminho, a leitura das colunas do jornalista Alon Feuerwerker é quase um vício. Eu o leio, transcrevo aqui os seus artigos e convido você a assisti-lo na TV (veja como fazer isso acessando o blog que ele mantém).


O Brasil é mais complexo (03/09)
Alon Feuerwerker

Não dá para achar que o país pode ser governado só assim: com Luiz Inácio Lula da Silva falando mal do antecessor, Dilma fazendo suas apresentações e o PMDB dando um jeito no Parlamento

Quem procura saber o que vai pela seara do governismo percebe o sucesso alcançado nos últimos dias pela tese imortalizada nas palavras do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), naquele inesquecível duelo de plenário contra o colega Tasso Jereissati (PSDB-CE). Trata-se de colocar a oposição no lugar que ela merece, para ela deixar de ser besta. Para curá-la do que o líder do PMDB classificou de "complexo de maioria". Que faz a minoria se comportar como se maioria fosse. Transgredindo as naturais regras do jogo.

Na crise do Senado, à primeira vista deu certo. José Sarney (PMDB-AP) continua confortavelmente posto na cadeira acima dos pares, com os rolos da Casa a caminho do esquecimento e do perdão aparentes. Uma anistia ampla, decorrente da correlação de forças. Do "manda quem pode, obedece quem tem juízo". Há, é claro, um custo junto à sociedade. O PT paga o preço de aparecer como legenda que concede aos aliados, especialmente ao PMDB, direitos proibidos aos mortais. Desde, é claro, que o parceiro ofereça apoio aos projetos e desígnios do PT.

A julgar pela euforia petista com o exercício do poder, o partido está a avaliar que a relação custo-benefício desse tipo de operação vale a pena. Será? Na política é habitual o sujeito deixar-se levar pela ilusão de que tudo está bem. Não fosse assim, não haveria espaço para grandes surpresas eleitorais, quando a urna finalmente traz o que pensa o eleitor. Mas enquanto este não se manifesta prevalece a miragem do tudo pode.

A urgência constitucional determinada pelo governo para a tramitação dos projetos do pré-sal atolou na Câmara dos Deputados. É uma coisa intrigante. Se o governo tem maioria ampla na Casa, e se os líderes da base governista podem, portanto, pedir a votação em plenário de qualquer texto a qualquer momento, por que o Palácio do Planalto impôs a urgência a priori num assunto tão compexo? Ora, por achar que emplacaria. Veremos o desfecho.

O procedimento revela novamente o conceito. Durante muitos meses, o assunto ficou rodando pela Casa Civil, indo e voltando do Ministério de Minas e Energia. Ótimo. Era o governo cumprindo seu papel. Entretanto, por mais consideração que a sociedade possa ter pela ministra Dilma Rousseff e pelo colega Edison Lobão, não dá para concluir que o país está totalmente representado pelo duo nesse debate. Não dá para achar que o Brasil pode ser governado só assim: com Luiz Inácio Lula da Silva falando mal do antecessor, Dilma fazendo suas apresentações e o PMDB dando um jeito no Parlamento.

O Brasil é mais complexo. Por elegância, não é o caso de citar exemplos de vizinhos. Mas talvez conviesse ao governo compreender que hoje parecemos mais com os Estados Unidos do que com alguns das nossas redondezas. E se nem Barack Obama, com todo o capital político acumulado e a maioria qualificada nas duas Casas do Congresso, escapa de passar pelo corredor polonês na polêmica sobre a reforma da Saúde, assunto exaustivamente debatido na campanha eleitoral, por que Lula, Dilma e Lobão imaginam que poderão virar do avesso, assim do nada, a um estalar de dedos, todo o universo nacional do petróleo e do gás? E fazê-lo sob aplausos unânimes do Brasil, pois afinal "eles devem saber o que é bom para nós".

Até porque se a propostas forem boas mesmo o governo terá elementos adicionais para emplacá-las. Mas vai exigir arte. Futebol não é só força, é também jeito. Intrigante que logo Lula, o boleiro, o encantador de serpentes, tenha esquecido dessa verdade. Bem Lula, que depois de cinco eleições e dois mandatos presidenciais talvez conheça o Brasil melhor do que qualquer um. É coisa de gente que se acostumou demais a palácio. Uma doença conhecida do príncipe.

O nome é Palocci

Em entrevista ontem a um canal de televisão, o ex-ministro José Dirceu disse que Antonio Palocci é a candidatura natural do PT ao governo de São Paulo. Fez as mesuras de praxe aos demais, mas não deixou dúvidas.

Pelo tom de Dirceu, e pelas conexões que ele mantém no partido e no governo, essa fatura está com cara de liquidada.

Um comentário:

Guilherme Scalzilli disse...

Tadinho do Francenildo

O governo Lula é uma fábrica de mártires republicanos.
O famigerado Roberto Jefferson, réu confesso, pego com a mão na cumbuca, teve sua biografia reformulada depois de derrubar José Dirceu. Lina Vieira, burocrata de competência discutível, comprometida politicamente, salivou um palpite insignificante sobre evento que não conseguiu provar e se transformou na Garganta Profunda do Dilmagate. Francenildo, o caseiro honesto do lupanar, sublimou as suspeitas de receber propina e cometer falsidade ideológica, entrando no panteão da moralidade.
O que une esses heróis é a cumplicidade inicial com algum tipo de ilicitude, depois renegada e expurgada publicamente. Os escândalos resultam de uma soma de conveniências: forneça-me uma vítima e eu livrarei a sua cara. Esse tráfico de interesses fica mais evidente quando verificamos que episódios muito semelhantes já tiveram desfechos quase opostos, dependendo dos personagens envolvidos.
Vazamentos para a imprensa das capivaras petistas possuem “interesse público”, são demonstrações de jornalismo investigativo. Mas divulgar tucanagens comprometedoras viola sigilo bancário, é antiético, autoritário, stalinista. Os irmãos Vedoin tentaram desmascarar o esquema dos Sanguessugas com os mesmos instrumentos usados por Jefferson, só que mexeram no ninho de José Serra, e ali ninguém bole. A lista das jujubas do casal FHC virou peça de “clara motivação política”, porque, oras bolas, onde já se viu um troço desses? – e o “dossiê” falsificado de Dilma Rousseff na Folha foi, tipo assim, um erro técnico.
Como se sabe, entretanto, este mundinho azul dá uma volta por dia. Gargalho às escâncaras diante das mudanças de humor jornalístico provocadas pela imprevisível condição humana. Até mesmo o egrégio STF, que parecia tão justo e implacável no julgamento do Mensalão, já não parece tão justo ou implacável depois de inocentar Antônio Palocci. Repetindo a previsão sobre Marina Silva, será impagável assistir seu martírio em brasa assim que começar a atrapalhar os planos de José Serra.