segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Natal, a metrópole provinciana

“Viver aqui é sonhar”, a frase era parte de uma música de divulgação turística de Natal. Uma vinheta, como diriam os sempre muito modestos profissionais da publicidade, que fez sucesso há uns dez anos ou mais. Muita gente boa acredita e cultiva esse lugar-comum. Embora as evidências de que o sonho esteja se transformando em pesadelo não sejam poucas.

Natal é um assentamento humano de cerca de oitocentas mil pessoas. Espremidas em um território ambientalmente frágil, incorporado vorazmente pelo setor imobiliário, essas pessoas estão cada vez mais contaminada pelo vírus do stress urbano. A malha viária, ainda em parte herança deixada pela presença militar norte-americana na Segunda Guerra mundial, é simplesmente incapaz de suportar uma frota que cresce de forma geometricamente. Ajunte nesse quadro a ausência de saneamento básico em mais da metade do assentamento pomposamente anunciado como a Cidade do Sol.

A moldura, entretanto, só fica completa quando você se refere ao “espírito” que domina o lugar. Ou, se você é do, deixe-me ser um cadinho sarcástico, campo das humanidades, à “subjetividade coletiva” natalense. Se levarmos essa dimensão em conta, teremos, como diria aquela minha prima marxista, uma superestrutura perfeitamente adequada à infra-estrutura urbana de Natal.

Natal é como a Viúva Porcina, personagem da novela Roque Santeiro, representada magistralmente pela atriz Regina Duarte, cuja apresentação era “aquela que foi sem nunca ter sido”. Assim é a Natal metropolitana: a que foi sem nunca ter sido. A ausência de um espírito (vá lá, um ethos), não diria nem metropolitano, mas citadino, pesa fortemente nestas plagas. Tornando a vida social uma coisa bem dolorosa.

Por isso, uma simples ida ao supermercado pode ser motivo para um stress daqueles. Um encontro com a boçalidade e a truculência é o que você pode ter ao se dirigir a um estabelecimento comercial. As pessoas se comportam na fila do caixa como se estivessem disputando uma corrida de jumento. A mentalidade é a mesma!

E os rebentos da bem nutrida classe média local, devidamente cevada nas tetas da sempre generosa Viúva? Oh! Estes produzem exemplos de incivilidade que me deixam sempre perplexo. Comportam-se como os filhinhos dos coronéis interioranos de antanho: como se o espaço público fosse o roçado do painho... Ao invés do “espírito da Cidade” moldar-lhes a subjetividade, o seu espírito é que colonizou as paisagens urbanas da cidade. O resultado é uma grande cidade interiorana... no litoral.

Voltarei ao assunto.

14 comentários:

Nise disse...

Belo texto.Que defini bem essa bela cidade.E se me permite, divulgarei esse post em outro momento em meu blog.

Edmilson Lopes Júnior disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Edmilson Lopes Júnior disse...

Nise,

será um prazer ter o meu texto reproduzido no seu blog. A casa é sua.

Um abraço,

Edmilson Lopes.

Anônimo disse...

Caro Edmilson,

sei que você sabe lidar bem com a crítica. Por isso, em minha modesta opinião, penso que teu texto substancializa mais do que explica o que pretende compreender.
Afirmações que poderiam servir para entender o funcionamento de determinados estratos de classe, perdem a força quando se generaliza tal como acontece no texto

abs.

daniel

O Pescador disse...

Caro Edmilson,
Consciente da sua polidez e “espírito citadino” para lidar com o contraditório, o questiono em que medida é possível transferir (em tal grau de generalizacao), práticas e condutas de falta de decoro para a totalidade dos indivíduos que habitam nossa cidade do sol. E mais, nao seria um pouco forcoso colocar um suposto "espírito citadino" como um elemento civilizatório superior a um suposto "espírito de província" que reinaria soberanamente na “mentalidade coletiva” de Natal? Nao posso deixar de notar uma hierarquia moral (Cidade – Rural) pressuposta em suas falas. Afinal, como é que o senhor explica as atitudes truculentas possivelmente vivenciadas pelo senhor? Como "ausência de espírito citadino". Ora, eu poderia ser tao culturalista na explicacao quanto o senhor foi e dizer o inverso: poderia ser na verdade o "forte individualismo e egoísmo típico das sociedades modernas (leia-se também, meios citadinos), a razao para tais atitudes truculentas. E mais, dizer que há, na verdade, uma “ausência de espírito de comunitarismo", próprio das sociedades tradicionais (o que inclui o meio rural), a causa para tais demonstracoes de egoísmo coletivo. Às vezes, fico pensando o quao a idéia de "espírito citadino" nao é, na verdade, uma auto-imagem idealizada de uma classe média educada e urbana que tende a transferir aos “outros” ou os de “fora” do seu expectro estrutural, tudo o que reprova socialmente, mesmo que sejam práticas que falem um pouco sobre a verdade desagradavel da mesma classe. Embora estranhos um ao outro, Dr. Jekyll e Mr. Hyde sao bem mais próximos do que se imagina.

Fernando Júnior [Bola] disse...

Caro professor, Sempre categórico em suas colocações ( dos professores o mais humano né?) é o que rola entre os graduandos... Mas, isso é assunto pra outrora.
Achei perfeita visão sobre nossa cidade provinciana. Nossa não, como você mesmo disse, dos pequenos coronéis, mesmo esses não existindo mais como antes e sim, de forma pós moderna talvez. Enfim, continuarei na leitura dos seus escritos, e espero que [obvio, com suas mutações] continue assim. Abraço

Guru disse...

Gostei muito dessa caracterização do cenário natalense. Parece-me que as distinções entre um recifense e um salgueirense, entre um soteropolitano e um andorinhense, ou um fortalezense e um quixadaense... São bem maiores que entre um natalense e um acariense. Por aqui, a diferença entre metrópole e interior é bem menos marcada que em CE, BA, PE. E analisar isto sem recair numa abordagem evolucionista ou num elogio indiscriminado a tudo que parecer híbrido é bastante desafiador para qualquer cientista social.

Mas tal análise da província parece desatualizada ou incompleta se não contemplarmos outros setores da nova geração, tão economicamente confortáveis quanto os herdeiros dos coronéis: são os viúvos porcinos das narrativas da mpb dos festivais, simpáticos às demandas dos movimentos sociais de que nunca participam e defensores dos projetos políticos que não conhecem - mas sabem sê-los constantemente ameaçados por um tal de PIG!

A juventude, híbrida de "bitolada" e "esclarecida", formada pelos filhos de nossos universitários aguerridos de 1980, ou mesmo por filhos de migrantes da "classe média metropolitana" do país. Os nostálgicos de um aspecto da época autoritária: quando a tal classe média tinha algum papel definido na sociedade. A população que morre de ódjio dos forrós e pagodes contemporâneos, porém se desmancha em populismo herderiano quando escuta um "samba raiz" ou "forró pé-de-serra". Muitos dos que torcem o nariz para o Big Brother, mas colecionam causos da vida privada de Chico Buarque ou demais ícones daquela geração em que seu setor social fazia sentido. Herdeiros do que o prof. chamou de 'artistas, estudantes, profissionais liberais e professores universitários' que frequentavam o Baixo, tentam hoje como podem construir suas "apropriações mais lúdicas" num circuito de bares noturnos que abrem num dia e fecham no outro, espalhados por petrópolis, capim macio e ponta negra.

Essas pessoas, devaneios à parte, respeitam as filas, não fazem zuada em público, raramente jogam lixo na rua e até guardam alguma simpatia à idéia de república. Formam, sem sombra de dúvidas, uma juventude que persegue um ethos metropolitano - ainda que não vivam numa metrópole. Saliente-se, entretanto, terem feito seus intercâmbios nas maiores cidades do canadá! Muitas são concurseiras e ocupam gradativamente a administração pública. A maioria conserva a clássica "ojeriza pequeno-burguesa aos partidos políticos", porém alguns poucos se conglomeram no pt, o que é uma ótima oportunidade para tomarem algumas lições sobre a dureza da rapadura. E na época eleitoral eles enchem sua caixa de emails falando mal desse PIG, mesmo que nunca se observe atentarem para algum deslize da imprensa local!

Tenho minhas dúvidas se esse pessoal é tão presenteísta quanto amiúde se afirma na academia. Em primeiro lugar, sua visão de mundo é informada sobretudo por narrativas que se tornaram velhas na década de 1980, gerando toda sorte de anacronismos. Ademais, sabem muito da história das tensões no oriente médio e praticamente nada sobre o que acontece em sua rua. Mas eventualmente deixarão de ser jovens (com estudos prolongados e casamentos postergados, este pedaço da sociedade só abandona efetivamente a juventude adentrando na casa dos 30) e fatalmente as questões práticas tomarão parte em sua agenda. Este período liminar é crítico, porém nebuloso.

Acredito que é bom lembrar desse setor pois, com novas ferramentas como a internet e a consolidação de algumas instituições estatais, talvez consigam mais que a geração precedente. Só falta descobrirem o que querem!

Edmilson Lopes Júnior disse...

Car@s,

o politicamente correto, que o diga (ah, não vou citar ninguém, pois, nessa, vou produzir um discurso de autoridade...)... Mas o que é que eu ia dizer mesmo? Ah, o politicamente correto, quando traduzido para um blogue diário, como o que tento fazer, é um comprimido paralisante. E isso aqui é prá provocar, não deixar todo mundo anestesiado.

Vamos por partes, como o grande Jack. Olha, uso um esquema valorativo, sim. Urbanidade mais enriba e grosseria mais embaixo. Não vou usar argumento de autoridade, mas, devo avisar, sou um campônio (vive na Várzea do Apodi até os meus dezesseis anos). A truculência de que falo é a dos rebentos de coronéis. É um tipo ideal, ok? Com ele, com esse tipo de ideal, busco caracterizar os boçais, mesmo aqueles já distanciados, no tempo, da fazenda do painho.

Agora, urbanidade, sim, vale a pena levar em conta. E eu a encontro em pequenas cidades, que não se pretendem metrópoles. E, lá também, muita boçalidade.

Agora, falando de mermo mermo, não posso passar a mão enriba da ausência de polidez. E de um trânsito movido pela lógica dos vaqueiros.

Volto já, hein!

Não saiam daí (he, he, he,)

Big abraço,

Edmilson Lopes.

Anônimo disse...

Fêssor,

alguém tinha que escrever isso. Tô com o senhor, viu. Essa cidade jeca só quer ser as pregas, mas não é nada disso...

Rodrigo Sérvulo disse...

Assim como a Nise, eu vou reproduzir o seu texto na Carta Potiguar. ;)

Mais um belo texto! Parabéns!

Felipe Medeiros disse...

Esse anacronismo é real. A geração de pseudo-intelecto descrita com clareza, pelo guru, corresponde a mesma geração truculenta com alma de coronéis. Existe é uma convergência encontrada entre um jovem que escuta o 'Chico Buarque moderno' e o filho do 'painho', o vaqueiro que desfila no seu belo 'cavalo' da Audi. OS dois tipos falam a mesma língua: desfrutam um tempo virtual, num ciber espaço de fantasias lúdicas do passado paternal, vagando pela cidade em plasma, como se quisessem não estar presentes. Natal não é, e por enquanto, nunca será. O intelectual de plasma, ausente e carente de identidade, faz seu papel: pensa, embora apenas pense. Entretanto, o filho do painho não pratica o que lhe ficou fadado: exercitar a presença; a experiência de reconstruir a identidade falida. O tempo passa e a cidade provinciana, na verdade, continua a não ser nossa... porque ninguém quer comprar uma cidade sem embalagem. Desconfie daqueles que amam essa cidade, mas não tem cunhão para adotá-la como é.

Fernando Júnior [Bola] disse...

Caro professor, propagarei seus escritos também. Ate pq tá nos moldes do ultimo post. lá no musicaesociologia.blogspot

qualquer coisa negociamos os direitos autorais... [hahah]

Anônimo disse...

Opa... a discussão tá boa...

essa história de coronelismo, populismo, clientelismo, etc... além de servir para aparecer como "O Crítico moderninho", presta para mais o quê?
Faz tempo que os coroneis morreram. Os filhos, talvez, estejam nos asilos caducando.
Falar em coronelismo nos dias de hoje é um absurdo histórico e sociológico.
Um dos problemas que a gente vive... o desejo desesperado de ter um alvo para chamar de nosso.
Será que eu também sou adepto do PIG?

daniel

Oeste News disse...

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