terça-feira, 30 de março de 2010

Conversa com o autor: Gabriel Cohn

Gabriel Cohn é um dos mais importantes cientistas sociais brasileiros. É o sociólogo brasileiro com maior conhecimento na obra de Max Weber. Você poderá saber um pouco mais sobre ele e sobre sua obra assistindo aos vídeos postados abaixo. Clique! Vale a pena!





10 comentários:

Robson Braga disse...

Caro Edmilson,
acho justo acrescentar que o Gabriel Cohn mostrou ser nos últimos anos um aguerrido militante reacionário que tentou minar a legitimidade das mobilizações de estudantes, funcionários e professores da USP contra as arbitrariedades e a sanha privatizante de José Serra e do tucanato paulista.
Abraço,
Robson.

Sérgio Coutinho disse...

Edmilson,

Grato pelo vídeo de Gabriel Cohn.

A propósito, encontrei seu blog pelo http://twitter.com/socioweb e já incluí o link no blog voltado aos meus alunos.

Abraço,

Sérgio

Anônimo disse...

Caro Edmilson,

sem dúvida o Cohn é um grande conhecedor do Weber.
Porém, fica uma questão - quem pode ganhar o "título" de maior interprete de weber: aquele que mostra maior erudição sobre a obra do autor ou aquele que consegue melhor empregar os conceitos weberianos em pesquisas objetivas?!
Acho que Durkheim e Bourdieu ficariam com a segunda opção.
É neste sentido que vejo que é necessário re pensar o modo como nós (pelo menos eu tenho de refletr sobre meus [pré]conceitos) preconizamos o fazer sociológico.

att.

daniel

Robson Braga disse...

Pergunta boa, Daniel. Mas eu também me pergunto se Bourdieu, Weber, Durkheim... não nos deixam meio "carolas", devotos da objetividade. Marx pelo menos nos deixava uma margem para a heresia sem culpa. Isso apesar dos que fizeram do materialismo histórico uma doutrina e de Marx um objeto de devoção.
Abraços,
Robson.

O Pescador disse...

Caro Robson,

Acho que a preocupação posta por Daniel é muito mais sob que tipo de atitude devemos adotar em relação aos clássicos da sociologia: atitude de "lector" que se resume ao ritual de mera apresentação canônica do autor ou de sua obra; ou "auctor", aquele que produz um discurso novo. Nesse sentido a sociologia ganharia muito mais em mobilizar os clássicos para pensar questões de ordem prática postas na realidade social atual. Por exemplo, ao invés de ficar apenas discutindo o pensamento de Weber e suas categorias sociológicas de análise, pensar em que medida suas categorias conceituais podem ser úteís para apreender a formação social do Brasil moderno, tal como fazem autores como Sergio Buarque, Jessé souza, etc. Da mesma forma, Marx e Gramsci quando são mobilizados por nomes como Werneck Vianna. Sobre a afirmação, segundo a qual Durkheim, Weber e Bourdieu nos deixaram "carolas" e, por sua vez, Marx nos proporcionaria uma atitude de "heresia sem culpa", taí uma valoração que merece, no mínimo, uma justificação argumentativa mais sólida. Senão, não passa de floreio retórico genérico sem serventia, ou melhor, serventia para afirmar e re-afirmar atitudes sacerdotais com "São Marx".

Anônimo disse...

Maravilha!
Pela discussão provocada, fiquei feliz com o post.
UM abraço a todos!
Volto depois e comento com mais vagar as intervenções de todos.

Edmilson;

Robson Braga disse...

Caro... Pescador (?),
Você resumiu (ou desenvolveu) muito bem o sentido da observação do Daniel.
Foi nesse sentido mesmo que compreendi a observação que ele fez.
Está claro que não há, em princípio, incompatibilidade entre a tarefa interpretativa que nos leva a ler um clássico e a, digamos, “instrumentalização”, para fins de pesquisa empírica, do repertório conceitual que o clássico nos oferece. O trabalho de reinterpretação, mesmo no sentido hermenêutico (não haveria uma certa tradição “talmúdica” nas Ciências Sociais?), de um clássico das ciências sociais tem, ao meu ver, toda legitimidade. Os clássicos precisam ser revistos, revitalizados; precisa-se, às vezes, fazer essa releitura para verificar o que resiste ao tempo, qual a razão para continuarmos dizendo que tal texto é um clássico, como o texto pode ainda permanecer atual em face das mudanças de contexto.
Antes disso, eu tinha feito um comentário que passava longe da competência técnica e intelectual do Gabriel Cohn como cardeal weberiano. Dizia respeito ao lamentável (para não dizer ignominioso) comportamento político dele quando se prestou a levar água ao moinho da reação no momento em que estudantes e professores da USP levantavam-se contra a nefanda tentativa do PSDB de minar a autonomia universitária e desqualificar o papel das humanidades e das ciências humanas, buscando instaurar (por meio de decretos) um modelo de ensino e pesquisa completamente submisso aos interesses heteróclitos do mercado. Eu presenciei essa atitude que não honra a biografia do Gabriel Cohn.
No mais, a minha alusão à nossa “carolice” e à nossa “devoção” à objetividade foi uma provocação muito amistosa feita à maneira de alguém que tenta não levar excessivamente a sério tudo que diz e que sabe distinguir contextos mais amenos em que é válido fazer o exercício de desestabilizar a nossa austeridade sociolômana, as nossas arraigadas convicções e a rigidez do discurso que as expressa.
Não me animo a desenvolver na forma de uma tese essa observação tão despretensiosa e de espírito irreverente. Se fosse fazê-lo, talvez eu mudasse de idéia e não excluísse Marx do clube dos vigários que arrastam consigo um séquito de carolas. Talvez só o outro Marx (o Groucho) pudesse estar isento. Mas acho que eu pensava mais no jovem Marx, aquele que anotou no guardanapo de uma taberna a décima primeira tese sobre Feurbach. Como já era tarde e o vinho já eriçara a vasta cabeleira do jovem estudante, seu amigo, Engels, teve que editar o texto mais tarde. Ficou assim: “Gabriel Cohn apenas interpretou Max Weber, mas o que importa é aplicá-lo.” Não, não era bem isso. Mas era por aí...
Cordialíssimo abraço,
Robson.

O Pescador disse...

Boa Robson,

adorei seu comentário, hahahaha!

Abraço cordial sem ser, necessariamente um "homem cordial"!

Anônimo disse...

Caro Robson,

minha preocupação diz respeito a uma verdadeira angústia. Sou um aluno da ufrn desde de 2000. Sempre fui instigado, direta ou indiretamente, a tentar desenvolver exercícios de (pseudo)erudiçaõ.
Porém, hoje me sinto meio descompactado com o mundo. Não estou querendo fazer uma explícita defesa dos objetos tidos como legítimos.
Penso apenas que minha formação, e não culpo ninguém por isso, já que sou o maior responsável por ela, não me ensinou a fazer sociologia de verdade.
Vejo, apenas, que adorar Sergio Micelli, porque é um grande erudito em Bourdieu, ou Gabriel Cohn, na medida em que é um grande conhecedor de Weber, não nos leva a exercitar uma perspectiva positivamente pedagógica, do ponto de vista da aprendizagem sociológica.
Isso nos leva muito muito mais a sonhar com o exercícios de erudição do que a fazer propriamente pesquisa, que é a principal função do sociólogo.

Abs

daniel

Robson Braga disse...

Caro Daniel, entendo a sua angústia e tenho algo curioso a lhe contar. Fui aluno do curso de Ciências Sociais aí mesmo na UFRN. Muitos dos seus professores provavelmente foram também meus professores. O curioso é que eu sentia, na época, uma angústia que, digamos assim, era a sua com o sinal contrário. Explico: o que me inquietava é que eu me via sendo o tempo inteiro instigado a fazer pesquisa empírica, elaborar projetos e tal... e eu achava que havia um erro nisso, achava que havia certa precipitação, pois para mim era necessário, antes de tudo, ter uma bagagem de leitura aprofundada dos principais textos de leitura sociológica, mais aprofundada do que a leitura que nos era exigida para a aprovação nas disciplinas do curso. Eu via com muitas reservas colegas que alinhavavam projetos de pesquisa com base numa leitura muito incipiente das referências teóricas e marcados por um empirismo ingênuo ou mesmo leviano. Alguns desses colegas, imagino, se tornaram bons pesquisadores, enquanto eu continuei espanando os livros na estante. Coisa de que, aliás, não me arrependo. Isso é só para você ver como variam as angústias que nos assaltam em momentos críticos da nossa formação. No meu caso, cheguei a transformar a minha angústia numa atitude concreta, investindo nisso o ímpeto grandiloquente próprio da juventude. Enquanto os meus colegas elaboravam ensaios de pesquisa empírica como trabalhos de conclusão de curso, resolvi que o meu trabalho de conclusão de curso seria apenas o de realizar uma leitura competente de um texto teórico importante das Ciências Sociais. O raciocínio era de que a graduação deve servir primeiro para aprender a ler, entender a lógica conceitual da teoria sociológica, sem a precipitação de se arvorar a fazer pesquisa baseando-se numa espécie de fetichismo do dado empírico. Foi assim que escrevi o meu trabalho de conclusão de curso sobre “a gênese do conceito de ideologia no jovem Marx”. Esse trabalho ainda hoje tem um grande significado pessoal para mim. Não é que haja nele qualquer virtude especial ou mérito intelectual. No plano pessoal, ele significa a consignação dessa preocupação com a capacidade de ler um clássico, entender a lógica interna da gênese dos conceitos, além de uma afirmação da liberdade de pensamento, da irreverência, da heterodoxia próprios da juventude. Nunca mais reli esse texto, mas, ponderando depois de mais de uma década, creio que não me arrependo de ter seguido esse caminho. Se tem uma coisa que aprendi no meu período de graduação, foi a ler o texto teórico com o rigor necessário. É verdade que depois disso não consegui identificar nenhum objeto de pesquisa empírica que me seduzisse, mas quanto a isso a responsabilidade é inteiramente minha. Me tornei um indisciplinado, coisa que eu já era (você terá testemunhos disso entre os professores), mas agora no sentido de não me encaixar facilmente num único campo disciplinar das Ciências Sociais.
Ao fim e ao cabo, creio que é essencial contemplar as duas dimensões: a leitura crítica e a práxis da pesquisa, sem o que a pesquisa fica amputada, manca.
Mas hoje em dia penso também que um curso como o de Ciências Sociais precisa de um ajuste curricular. Aí, por exemplo, na UFRN, deve haver muitos alunos que, como eu, iniciam a graduação sem uma sólida formação humanística. Penso que seria interessante que o primeiro ano da graduação fosse dedicado a preencher as lacunas dessa formação em cultura das humanidades. Aprender a ler Platão, Descartes, Goethe, conhecer a história da arte, aprender a ouvir uma sonata de Beethoven... Não sei se há espaço para essa discussão. Mas penso que ela vale a pena e que alguns dos nossos professores vêem razão nela; apenas não ousaram ainda se manifestar.
Bom, é isso.
Grande abraço,
Robson.