terça-feira, 9 de março de 2010

Minifúndios improdutivos do saber: por uma reforma agrária nas universidades federais

Prestígio, em algumas universidades federais, é você ter uma grande sala atulhada de computadores. Nem todo mundo tem disposição (ou competência) para aprovar projetos de pesquisa e conseguir esses latifúndios pós-modernos. Resta, então, para muitos, a criação de uma “base de pesquisa” para legitimar o uso de uma “média propriedade”. Nesses “laboratórios”, orientandos privilegiados tornam-se posseiros das pequenas capitanias. Não raro, comportam-se como arrendatários. E o são, de fato. Isso porque os divinos mestres aparecem raramente nas capitanias.

Na estrutura agrária das universidades, sobram ainda os pequenos proprietários. Apossam-se de salas, mas quase nunca as usam. Comportam-se como especuladores imobiliários. Talvez pensem, vá lá saber!, em negociar o privilegiado espaço em um futuro próximo... O fato é que temos, em algumas federais, verdadeiros corredores fantasmas.

Alguns outros dividem salas com colegas e, como estão todos os dias no batente, atendem alunos, pessoas da imprensa, membros da comunidade e colegas, além de responderem às demandas burocráticas dos departamentos. São os “burros de carga”, dizem. Não raro, como a sala em que trabalham também conta com a presença de outro professor, para não incomodar o colega, atendem os alunos em algum banco no corredor. Enquanto isso, ao lado, salas ficam fechadas por semanas...

Por que uma instituição como a Universidade, que conta com o aporte de anos de expertise em avaliação da produção intelectual de agências como a CAPES e o CNPq, não alicerça a sua, como direi?, estrutura agrária em algo menos injusto do que pressão, não raro traduzida em caras e bocas intimidatórias, dos donatários das novas capitanias hereditárias? Ora, como pode uma sala, com computador, mesas e cadeiras, passar dias e dias sem nenhum uso? Como pode uma base de pesquisa funcionar apenas para ser uma espécie de lan house de luxo de estudantes de pós-graduação? Porque uma dessas pró-reitorias que adoram inventar coisas para torrar a paciência dos que efetivamente trabalham não realiza um levantamento da produção intelectual dessas “bases”?

Aqui do meu canto faço uma sugestão: peguem o QUALIS da CAPES como referência. Com base nele,verifiquem as produções dos componentes das tais bases... Pode-se tomar como referência um determinado período de tempo. E, para não se ser taxado de autoritário, questione-se dos integrantes da própria base em que área de avaliação sua produção deveria ser analisada. Aí teríamos um Raio-X da nossa produção. E poderíamos constatar se os recursos públicos investidos na manutenção desses espaços estão sendo bem aplicados.

Quantos artigos em periódicos acima de B2 a "base de pesquisa" que se assenhora de uma sala e de equipamentos públicos produziu? Quantos projetos de pesquisa com financiamento externo conseguiu? Com informações como essas, teríamos algo concreto para balizar uma mais do que necessária "reforma agrária" nas universidades federais.

Aqui na minha sala, tentando trabalhar e sendo interrompido a cada cinco minutos por um estudante, enfrento o barulho do ar condicionado (que só refresca depois de três horas ligado...) e a tremedeira dos vidros das janelas. Resta-me a esperança de que um dia aumentem os impostos (com cobranças de produção acadêmica) sobre os minifúndios improdutivos e que estes sejam abertos para uma vida universitária de verdade.

12 comentários:

Anônimo disse...

Edmilson e o seu fel... Ô homem mal amado, meu Deus! Vá te catar, rapaz! Para de querer jogar merda no ventilador...

Edmilson Lopes Júnior disse...

Hummm! Pelo visto atingi alguém. Não é nada pessoal, ok? E euzinho não tennho poder de nada. Apenas o de espernear... Quanto aos amores, reservo-me o direito de não tiranizar o espaço público com a minha vida privada.

Edmilson Lopes.

Anônimo disse...

A discussão é pertinente, Professor. TÔ contigo! Vai fundo!

Universitária Sonhadora

Anônimo disse...

Caraca, doido,

onde é que os capa-pretas vão se reunir quinzenalmente?

Anônimo disse...

Por que você não dá nome aos bois? Ficar nas generalidades, é fácil...

Anônimo disse...

Um postagem como esta... e pensar que passei as férias inteiras para achar uma sala disponível para o grupo de estudos sobre o pensamento social brasileiro. O que mais "doi" é perguntar: Ei, tem sala disponpivel? E ouvir a resposta (que contrasta enormemente com a realidade visível): tem não meu filho...


David L Rêgo

Anônimo disse...

Poxa,

assino também o comentário de DAvid. Fizemos alguns encontros para ler algumas obras do pensamento social brasileiro. Acredito, prof. Edmilson, que se trata, do ponto de vista acadêmico, de uma coisa nobre, não é?!
Pois bem, em plenas férias, tivemos dificuldade de achar um pequeno lote de 5X5 M2.
Fizemos dois encontros - discutimos um livro do Jessé e depois o do Sergio Buarque. Algumas pessoas apareceram.
Porém, a ausência de um espaço depois dificultou.
Que tal montarmos o MSS - movimento dos sem sala?!
PS.1. Olha, se a Pós abrir uma linha de pesquisa em ORKUT e MSN ela será a mais requisitada. Sempre entro nessas bases e nunca vejo ninguém com um livro na mão ou discutindo a coleta de dados, mas o MSN sempre está ligado e com um empolgadinho na frente da telinha.
PS.2. As bases não poderiam funcionar como oficinas de pesquisa?!
Poderíamos, ao invés de "pagar" disciplina, desenvolvermos projetos nas bases para virarmos sociólogos de verdade. Seria, com certeza, mais produtivo do que ficar naquelas discussões estéreis e intermináveis e gastar um rio de dinheiro para trazer sociólogos famosos para meia dúzia de gatos pingados.
Foi, por exemplo, o que aconteceu com a vinda de Bernard Lahire. GRande palestra, mas pouco resultado prático.

abs.

Daniel Menezes

Flaubert disse...

Palavras fortes e verdadeiras... Seria interessante uma "ocupação de salas", ou "leilão" para que assim, talvez, o nível melhore.

Edmilson Lopes Júnior disse...

Olá a todos(as)!
Que bom que o assunto interessa a tanta gente. Por uma questão de justiça, devo fazer uma pequena correção em relação ao comentário de Daniel: a palestra do Bernard Lahire custou quase nada para o PGCS. Ele veio para atividades na UFPE. Na vedade, a UFRN pagou somente passagem Recife/Natal/Recife e hospedagem. Saiu mais barato do que participação em evento de uma pessoa do programa.
A idéia de espaços coletivos de trabalho é formidável. Eu, por mim, abriria uma ou duas salas e colocaria pontos de acesso a internet (quase todos têm notebook, não é?), uma mesa grande e cadeiras e pequenas cabines individuais (nas quais estariam os pontos de acesso. Uma outra saleta poderia ser destinada a estudos e pequenas reuniões. Esse tipo de coisa poderia potencializar o intercâmbio entre os discentes.
É isso...

Um abração,

Edmilson Lopes Júnior.

Anônimo disse...

Edmilson,
você pensa a Universidade a partir da lógica produtivista e neoliberal. Fico muito triste ao comparar quem você era com o que você se tornou...

Ex-aluna e ex-admiradora.

Alyson Thiago F. Freire disse...

Aos interessados, uma opinião agradável é sempre aceita como verdadeira e prova da indoneidade daquele que a emite. Por sua vez, as opiniões que incomodam ao invés de combatidas em seu contéudo são desviadas para o terreno que põe em dúvida o caráter do autor. Estratégia vil e batida que por si só expressa a falta de dignidade dos que se sentiram atingidos.

A discussão é muito pertinente, professor Edmilson, tens o meu total apoio contra esta maneira irresponsável e cínica de se aponderar dos espaços. Esquece-se muito facilmente que estamos no interior de uma instituição pública, e que as atividades e usos de suas instalações devem passar, invariavelmente, por uma prestação de contas pública acerca do trabalho, seu andamento, exigências e resultados, que se está realizando nesses espaços.

Blog do Thadeu disse...

Grande Edmilson.

Parabéns pela coragem e pela pertinência e coerência. Bateu fundo e acertou o alvo. Foi claro e contundente. O que dizer? Só resta tentar desqualificá-lo moralmente, tarefa impossível, pois quem trilhou o caminho do sertão para o litoral e enfrentou e driblou todas as dificuldades possíveis o desprezo dos novos latifundiários e donatários do saber é fichinha.
Se a merda deve ser jogada é em algum espaço onde todos possam ver. Universidade é algo CARO e cujo espaço a sociedade mal utiliza.
Essa pretensa feudalização da academia tem de acabar. Sigamos o exemplo de outros departamentos (como o de Física) que produzem muito e agregam seus alunos.
Conte comigo!!!

P.S.: A Constituição federal de 1988 e a ética (como faz falta) PROÍBEM o anonimato...

Thadeu Brandão.