terça-feira, 9 de março de 2010

A lógica perversa do crescimento das Universidades Federais

O filósofo José Arthur Giannotti, em artigo publicado no jornal Folha de São Paulo de domingo passado, aponta alguns elementos para uma discussão mais substantiva sobre a realidade da Universidade brasileira. Em que pese o abuso de certas generalizações e a preocupação em mostrar-se oposição ao atual governo, Giannotti acerta o alvo, e indica um importante ponto de pauta: porque o aumento significativo de recursos não se traduz em um aumento correspondente nas vagas, em formação e na produção docente?

A questão tem fundamento. Ora, para ser um pouquinho original, nunca na história deste país se investiu tanto no ensino superior. As universidades federais transformaram-se em canteiros de obras, você sabe. E quase todos os dias têm-se anúncios de concursos para professor. Mas a Universidade, tal qual um paquiderme cansado, caminha devagar. E incorpora com muitas dificuldades as propostas governamentais de democratização do acesso. E, mesmo quando os alunos entram, as tais taxas de sucesso são vexaminosas.

Uma lógica insustentável parece presidir o processo de crescimento das universidades federais nos últimos anos. Gasta-se dinheiro a rodo com prédios e aquisição de equipamentos, mas poucos se perguntam como iremos, em alguns anos, pagar as contas de água e luz desses novos edifícios. Um probleminha de somenos importância: o que fazer com lixo eletrônico produzido pela renovação constante dos parques de informática?

Mas onde essa lógica se apresenta de forma mais perversa é na contratação de novos docentes. Tudo foi deixado à mercê dos departamentos. E estes, como é do conhecimento até do reino mineral, funcionam à base dos interesses corporativistas, quando não daqueles de pequenos e cavernosos grupos. Vagas e mais vagas são entregues para concursos que são decididos em reuniões pouco participativas e dominadas por interesses que, nem de longe, referem-se à consolidação da Universidade. E aí temos de tudo, verdadeiramente. Tem departamento que faz concurso para 20 horas semanais e, depois de algum tempo, decide que os aprovados para aquela carga horária tenham seus contratos transformados para 40 horas com dedicação exclusiva. Outros, fazem concurso para professor com dedicação exclusiva e, logo após a posse do aprovado, mudam a carga horária para 40 horas sem DE.

Existem coisas piores. Concursos que são feitos de forma tão descaradamente corporativista (tipo graduação em dinossauros, mestrado em dinossauros e doutorado em dinossauros) que, não raro, menos de meia dúzia de pessoas no país inteiro estão habilitadas a se candidatar. E isso em instituições que produzem documentos e mais documentos sobre interdisciplinaridade, flexibilidade na formação e abertura do conhecimento. Seria cômico, não fosse trágico, que universidades que, na esteira do REUNI, abriram cursos de graduação transversais e pós-graduações interdisciplinares, na hora de contratação de seus docentes o façam seguindo uma lógica totalmente disciplinar e restritiva.

Há anos, não poucos achávamos que a Universidade estava sendo dinamitada pela falta de verbas do período FHC. Pensávamos que mais verbas e mais autonomia incrementariam positivamente as nossas instituições. Após meia década de crescimento vertiginoso, cá no meu cantinho provinciano, sou assomado pelas mesmas dúvidas do emérito professor uspiano a respeito das positividades do tão propalado crescimento da Universidade...

3 comentários:

Alyson Thiago F. Freire disse...

É muito curioso como a universidade parece ser uma instituição em permanente crise. Mesmo com os ventos mais favoráveis de sua história soprando em suas velas, ainda assim, um mal-estar, um sentimento vago e incômodo de incerteza, dubiedade, sempre se faz, desgraçadamente, presente. Se sua benção ou maldição não se sabe ao certo.

Professor Alan Martins disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ligia Moreiras Sena disse...

Prezado Edmilson Lopes,
Gostaria de agradecer, como doutora com formação nas melhores universidades brasileiras, pelas palavras tão precisamente acertadas deste seu artigo.
Hoje passei o dia inteiro pensando, com muito pesar, nesse tal corporativismo departamental que vemos surgir escancaradamente a cada edital que é anunciado para contratação de docentes.
Se me permite, faço minhas as suas tão precisas palavras. Mesmo que a distância de alguns mil quilômetros nos separem. Para ver que a realidade nessa área é a mesma em diferente regiões no país.
Democratizada, mesmo, parece estar essa lógica perversa.
Agradeço mais uma vez!
E parabenizo por seu tão preciso comentário.
Grande abraço

Ligia