domingo, 26 de setembro de 2010

Netinho, pela luz que nos acende

Como diria um ex-governador paulista, a elite branca da locomotiva da federação não tem limites na sua negação de cidadania aos "de baixo". Antes de prosseguir, explico que uso "de baixo" aqui em franca homenagem ao Mestre Florestan Fernandes, não por acaso o autor do maior clássico da sociologia brasileira, "A inserção do negro na sociedade de classes", que assim se referia às classes populares em alguns dos seus corrosivos artigos publicados na imprensa escrita.

Bom, como eu ia dizendo, a elite branca não aceita os de baixo, especialmente negros, a não ser em papéis secundários. Jogador de futebol, pode. Dirigente de time, jamais. Pagodeiro, tranqüilo. Senador? Não! O maior exemplo está no tratamento que o candidato a senador Netinho de Paula vem recebendo pela imprensa paulistana. Na Folha de São Paulo, por exemplo, ele é sempre tratado com matérias depreciativas. E os colunistas, nossos, hummmm!, "formadores de opinião", não conseguem citar o seu nome sem antes anunciá-lo como "pagodeiro". O fato de que o cara é vereador paulistano é omitido...

Hoje, na sua edição mais importante da semana, a Folha destaca aspectos negativos a respeito do candidato. Em uma matéria requentada, com assuntos relacionados à vida pessoal do candidato (supostas agressões a uma ex-mulher) de anos atrás. Para completar, que ríduclo!, publica a "análise" de um especialista norte-americano em expressões faciais, que analisa o sorriso do fururo senador. Pois não é que, digamos, autoridade científica (Meu Deus!) afima que o riso do Netinho não é honesto.

Mas o Netinho, segundo todas as pesquisas, está na frente. Já ultrapassou inclusive a Marta Suplicy, que branca e com sobrenome vinculado à elite, enfrenta preconceitos não substancialistas (étnico, por exemplo), mas relacionais (ser feminista). Bem diferente, portanto...

Lembrei-me de um tempo em que usava, para me locomover em São Paulo, os chamados alternativos. Motoristas, cobradores e usuários, para o meu desgosto estético, tinha sempre as músicas de Negritude Júnior (grupo que projeto o hoje candidato a senador) como pano de fundo. Nada de Vivaldi, of course. Suportava o fundo musical. Depois, mania de candidato a cientista social, peguei-me analisando as letras das músicas. Tinha tudo a ver. Fazia sentido, prá eles. E aí passei a admirar, embora não gostando exatamente de suas produções, a capacidade de comunicação dos pagodeiros paulistanos. Eles sabiam se conectar com o povão. Entendiam as suas dores e levavam alegrias para o seu mundo.

Netinho, já em carreira solo, fez sucesso, fama e se tornou apresentador de TV. É um grande comunicador, pode apostar.

Por tudo isso, pode, sim, legitimamente ambicionar ser Senador da República. E será melhor parlamentar do que muito medalhão emplumado...

Axé, Netinho. Pela luz que nos ilimina, seja eleito camarada! Negro, pagodeiro, ex-vendedor de doces nas estações de trem de São Paulo, você poderá ser uma das melhores novidades produzidas por essas eleições insossas...

Ok. Agora, clique abaixo e veja um clipe do nosso senador.


2 comentários:

O Pescador disse...

De fato, a eleicao de Netinho de Paula representa o coroamento da política moderna na sua dupla face, nem sempre conciliada: política da universalizacao da dignidade; e a política do reconhecimento da diferenca. Netinho - dada a sua trajetória biográfica, sua identidade de negro e seu vínculo original de classe - sintetiza a demanda política por reconhecimento e dignidade - signos tao importantes na cultura moral das sociedades modernas. Por isso mesmo, é lamentavel assistir a negacao de reconhecimento a Netinho por parte das fracoes educadas de nossa classe média brasileira. Lamentável porque essas fracoes parecem nao enxergar que, ao contrário da imagem de "palhaco" ou de "avacalhacao" da política que tendem a observar, ao eleger Netinho, nossa sociedade dá uma verdadeira demonstracao de aprendizado e amadurecimento moral e civilizatório. É emocionante o fenômeno político, tal como Netinho. É uma emocao no sentido de sentir que esse país está finalmente inclinado a reconhecer dignidade a uma massa de individuos que se encontravam destituídos de reconhecimento social.

Roberto Torres disse...

Será sem dúvida uma grande avanço eleger o Netinho.